Inteligência artificial

O medo burguês diante das novas tecnologias

Texto publicado na Folha de S.Paulo revela o medo que a burguesia tem da difusão da informação e que enxerga aí o seu fim.

IA

A burguesia está em uma verdadeira cruzada contra a internet. Na verdade, essa batalha começou desde o início das redes, mas se intensificou em função do aprofundamento da crise do imperialismo.

O artigo A floresta escura da internet de Ronaldo Lemos, publicado na Folha de São Paulo neste domingo (8), mostra o grau de preocupação burguês, que vê nas redes uma espécie de perigo existencial.

Para as classes dominantes, como ficou explícito com a Santa Inquisição, é fundamental controlar o fluxo de informações.

O artigo inicia dizendo que “no final do filme ‘Contatos Imediatos do Terceiro Grau’, há uma cena clássica. Os seres humanos entram em contato pela primeira vez com extraterrestres. O filme mostra a expressão facial e corporal das pessoas nesse momento singular, de encantamento e catarse.”

Não deixa de ser estranho esse início, essa alusão ao filme, como se as novas tecnologias fossem algo do outro mundo, e não algo perfeitamente humano.

Adiante, Lemos diz que “uma variação perturbadora da ideia de ‘contato’ está presente no livro da filósofa polonesa Bogna Konior, publicado no dia 3. Seu nome é: ‘A Teoria da Floresta Escura da Internet’. O título faz referência à teoria que busca explicar o paradoxo de Fermi: se há tantas estrelas, planetas e, potencialmente, civilizações no Cosmos, por que esse silêncio estarrecedor?”. Na verdade, o tamanho de Universo explica muito bem a dificuldade de haver contato entre possíveis civilizações. Com a tecnologia atual, levaríamos 75 mil anos para chegarmos ao planeta mais próximo provavelmente habitado.

Segundo Lemos, “a teoria, criada pelo escritor de ficção científica chinês Liu Cixin, diz que o Universo deve ser visto como uma floresta escura e ameaçadora. Revelar sua localização ou buscar contato com outras civilizações é assinar uma sentença de morte. Por causa disso o silêncio. Todas as civilizações suficientemente inteligentes ficam quietas no Cosmos”. Essa visão é tipicamente do capitalismo em crise terminal, que vem em tudo uma grande ameaça.

Seres que estivessem desenvolvidos a ponto de viajar pelo Universo, teriam seguramente superado a luta de classes, seriam comunistas e altamente civilizados e não os predadores ferozes que o cinema costuma mostrar.

O monstro da internet

Lemos escreve que “Bogna aplica a mesma teoria para a internet e a inteligência artificial. Na visão dela, a internet e a IA são a verdadeira floresta escura. Uma força nova para a humanidade, com a qual entramos em contato há pouco tempo. Essa força nos convida a falar, curtir, postar, aparecer e se exibir”.

Na verdade, a internet, as IAs, a democratização da tecnologia é um perigo para a dominação capitalista. A simples equiparação tecnológica se torna um grande percalõ para os verdadeiros predadores, que necessitam de superioridade para dominar. Os mísseis iranianos, as armas anti blindados desenvolvidos pela Resistência Palestina infligiram duras derrotas ao imperialismo, que sente saudade dos tempos em que enfrentavam com aço e pólvora povos primitivos.

O clima de terror beira ao cômico, como no trecho que diz que “O resultado disso é nos expor constantemente a inúmeros predadores, muitos operando nas sombras, à espreita do nosso exibicionismo, dos nossos dados e de qualquer informação que possam explorar. Nesse contexto, a postura mais inteligente é a de ficar quieto. Silenciar, esconder e dissimular são sinais de inteligência”. Em vez de utilizar a informação, a tecnologia, para desenvolver a humanidade, o pequeno-burguês se encolhe com medo do novo, quando deveria estar feliz pelo potencial que abre à nossa frente.

Nas palavras de Bogna, “A internet é uma invasão alienígena, onde o desejo de se exibir, externalizar e se expressar nos conduz como uma força exterior”. Lembra um pouco a Igreja, com medo do conteúdo dos livros e que se tratou logo de iniciar sua Santa Inquisição, muito diferente dos árabes, desbravadores, que foram responsáveis por manter vivo quase tudo que sabemos hoje sobre a filosofia grega.

Enquanto isso, pobremente, “nos livros de Liu Cixin, a humanidade entra em guerra com uma civilização alienígena. Nossa única vantagem contra essa civilização mais avançada é a capacidade de pensar em silêncio. Os aliens do livro não conseguem fazer isso, seus pensamentos se manifestam de forma transparente. Já os humanos têm a habilidade de pensar em silêncio. E de pensar uma coisa e fazer ou dizer outra. Essa capacidade de dissimulação, em si, seria uma manifestação de inteligência”.

Com medo da própria sombra, “Bogna transpõe o mesmo princípio para as inteligências artificiais. Na sua visão, uma IA realmente inteligente não vai se exibir para a humanidade mostrando suas capacidades. Ao contrário, vai dissimular o que consegue fazer para não ser ameaçada. Como nas palavras de Stanislaw Lem: ‘Um computador pode se fingir de burro para poder agir em paz’. O que ele chamou de ‘mimicretinismo’”.

Minicretinismo serviria para quê, se já temos os grandes cretinos burgueses tentando tolher o desenvolvimento tecnológico?

Todo esse medo é uma prova de que o capitalismo, a burguesia, não têm nada a oferecer para desenvolvimento humano. De fato, são entraves, obstáculos, que precisam ser superados para que a humanidade, como preconizou Karl Marx, finalmente saia da pré-História.

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