A cada dia fica mais claro que Bolsonaro só está mesmo preso para que não participe da eleição. O processo kafkiano, as páginas de jornais gastas para convencer a população com argumentos supostamente racionais, nada disso difere do que vimos em 2018, quando as mesmas forças, empenhadas na manutenção do golpe de 2016, precisavam evitar que o nome de Lula aparecesse na sacrossanta urna eletrônica. Na ocasião, como sói acontecer, o tiro da burguesia saiu pela culatra: em vez de elegerem Geraldo Alckmin, então candidato do PSDB, viram os votos escorrerem para uma candidatura que consideravam “folclórica” e improvável.
De lá para cá, muita coisa aconteceu, mas pouca coisa mudou de fato. Lula foi solto pelos mesmos que o prenderam e voltou à presidência, em apertada vitória sobre Bolsonaro. Configurava-se a divisão da massa do eleitorado entre os dois nomes, apagando-se de vez o anódino PSDB, que terá deixado mais saudades em Fernando Haddad que em Geraldo Alckmin, alçado à categoria de companheiro de Lula na vice-presidência da República.
Lula, ao ser preso, discursou: “Eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia misturada com as ideias de vocês. Minhas ideias já estão no ar e ninguém poderá encerrar. Agora vocês são milhões de Lulas”. Durante algum tempo, a militância repetiu o bordão “Lula é uma ideia”. Sua prisão seria inócua, pois a ideia estava disseminada entre milhões de pessoas. Pois bem. Por menos que gostemos, é provável que Bolsonaro também seja “uma ideia”. Pelo menos, foi o que seu avatar pretendeu dizer no lançamento da campanha de seu filho, Flávio, à presidência do Brasil.
O avanço tecnológico e uma dose de criatividade permitiram aos bolsonaristas a traquinagem de criar um vídeo, por meio de inteligência artificial, em que a imagem e a voz de Bolsonaro são manipuladas para mandar a mensagem ao eleitorado: “Isso que vocês estão vendo aqui não sou eu. É uma simulação da minha imagem e da minha voz feita com inteligência artificial. Como todos aqui sabem, eu estou preso e calado por uma decisão injusta e arbitrária baseada em algo que eu nunca fiz. Mas eu garanto que nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança que despertamos, nenhuma prisão vai calar milhões de brasileiros que acreditam no nosso país. Por isso peço a vocês que recebam de braços abertos a pessoa que escolhi para me substituir: sangue do meu sangue, meu filho, Flávio. Vem com fé!”.
O juiz Alexandre de Moraes, à maneira daquele professor que monta estratagemas para pegar o aluno que cola na prova, decidiu que a defesa de Bolsonaro tem de explicar se o apenado autorizou ou não a confecção do vídeo. Em caso positivo, seria revogada sua prisão domiciliar e ele seria encaminhado para o presídio. Isso porque ficou acertado na sua condenação, à luz do direito xandônico, que, caso terceiros veiculassem alguma mensagem sua em redes sociais, ele seria punido com a perda da domiciliar que lhe fora concedida por causa de seu estado frágil de saúde. Recentemente, seu filho Flávio, candidato a presidente, veiculou uma carta sua e recebeu um cartão amarelo do juiz: foi proibido de fazer visitas ao pai, mesmo sendo também seu advogado, pelos próximos três meses, ou seja, durante a campanha eleitoral.
A autorização de Bolsonaro, portanto, seria motivo suficiente para que ele voltasse para o cárcere. Segundo o juiz Alexandre de Moraes, Bolsonaro deve permanecer calado porque perdeu os direitos políticos. Essa interpretação, ora defendida pelo direito xandônico, foi válida durante a ditadura militar. Desde a Constituição de 1988, no entanto, a perda de direitos políticos impede a pessoa de exercer ou se candidatar a cargo público, de votar e de se filiar a partido, mas não de falar. A liberdade de expressão é, à luz do texto constitucional, um direito humano inviolável, mas esse parece ser um detalhe pouco importante nos dias que correm.
Se, porventura, a defesa de Bolsonaro disser que ele não autorizou o uso da própria imagem, quem sofrerá a punição serão Flávio Bolsonaro e o Partido Liberal, que terão desobedecido a uma regra criada pelo TSE, qual seja, a que proíbe uso de “deep fake” na eleição. Essa regra foi criada para evitar que um candidato usasse a imagem do oponente para confundir o eleitorado, o que configuraria uma espécie de “jogo sujo”. Rigorosamente, a Justiça deveria agir se fosse provocada por queixa da pessoa que teve sua imagem indevidamente usada, certo? No caso em questão, porém, o avatar abre a fala explicitando ser um avatar e não está enganando o eleitor nem mesmo prejudicando os oponentes. Trata-se de um uso de inteligência artificial não previsto pelos doutos criadores de regras eleitorais, que mudam a cada eleição, de acordo com o vento. Mesmo assim, a esquerda eleitoral torce para que o juiz Alexandre de Moraes dê um cartão vermelho para o Flávio.
Fizeram muito barulho porque o banqueiro Daniel Vorcaro mandou alguns milhões para financiar o filme de Bolsonaro, mas aparentemente o abalo na candidatura de Flávio foi pequeno. A propósito, os milhões destinados pelo mesmo Vorcaro à mulher do juiz todo-poderoso que dita as leis do país parecem estar a salvo de críticas, pelo menos por ora, sendo que entre patrocinar um filme e fazer um agrado a um juiz da mais alta corte vai uma grande diferença. O dinheiro do Banco Master é sujo ou limpo, a depender do destinatário. Tudo bem, calemos: estamos salvando a democracia do perigo fascista.
Não é novidade que a burguesia usa o STF e o TSE para controlar as eleições, mas que dizer do apoio a essas manobras vindo do maior partido de esquerda do país? Lula e o PT parecem torcer para que Flávio seja expulso do jogo. Há quem pense que, assim, o caminho estaria livre para Lula já no primeiro turno. Só falta, é claro, combinar com os russos. Quem faria a mágica de levar os votos de Bolsonaro para Lula? Essa “mágica” poderia ter sido feita com trabalho político, mas nosso antigo líder operário, hoje, com seus cabelos brancos e seu belo chapéu, prefere os acordos por cima, que, a bem da verdade, são formas de manipular os eleitores.
Enquanto Lula e o PT se juntam com a direita polida e entreguista, estilo PSDB, e com o STF, o bolsonarismo cresce, independentemente das leis xandônicas. Lula parece ter desistido de ser “uma ideia”, mas Bolsonaro não.





