Recente pesquisa realizada por uma ONG da área de saúde descobriu, finalmente, que as políticas antirracistas de grandes empresas nunca passaram de ações de marketing. Os estudiosos usaram o “conceito de blackwashing” para explicar o fenômeno – sem um nome em inglês para dar verniz à manobra de usar a causa do combate ao racismo para melhorar a própria imagem, ficaria mesmo difícil entender o que passa na cabeça do empresariado na sociedade capitalista. O mais curioso, porém, é observar que, mesmo diante do óbvio, os estudiosos não arredam o pé do identitarismo.
Na introdução a uma entrevista com uma das autoras do estudo, o jornalista do site Outra Saúde se pergunta: “É possível conciliar consciência antirracista com capitalismo? Ou tudo não passa de mera fachada corporativa com o propósito de ampliar a base de consumidores?”. E logo assevera: “De recente surgimento, o conceito de blackwashing ajuda a identificar indícios que reforçam esta segunda hipótese”. Em seguida, a pesquisadora sintetiza: “A grande questão do antirracismo é que tende a ser reduzido quando cooptado pela lógica mercantil. Todo o seu potencial transformador e revolucionário tende a ser reduzido a uma tática publicitária, que vai viabilizar a perpetuação de práticas e produtos que vão adoecer um grupo coletivo inteiro”.
A pesquisa conclui que fabricantes de cigarros, bebidas alcoólicas e alimentos ultraprocessados, mesmo fazendo ações inclusivas, prejudicam a população negra com aquilo que produzem. Os negros seriam os maiores consumidores de produtos prejudiciais à saúde, segundo o ângulo escolhido para analisar a questão. No caso dos alimentos ultraprocessados, são grandemente afetados por serem maioria entre as populações mais pobres, como o próprio estudo reconhece, que não têm acesso a alimentos de qualidade. O problema, claro está, afeta mais, embora não apenas, as populações pobres – e, por óbvio, afeta indivíduos de diferentes cores da pele, mas o recorte do estudo é essencialmente racial. A intenção parece ser a de denunciar a contradição entre incluir negros entre os funcionários da empresa em suas políticas de diversidade e, ao mesmo tempo, prejudicar negros (pobres) com seus produtos de baixo teor nutricional. Embora, de fato, a contradição exista, não parece adequado limitá-la à população negra, uma vez que é próprio do capitalismo auferir lucros independentemente de prejudicar os outros. Vale lembrar que o sistema é baseado na exploração dos próprios trabalhadores, sejam brancos ou negros.
O estudo vai criticar também o fato de os empresários terem feito programas de trainees para negros (Folha de S. Paulo e Magazine Luíza são exemplos notórios), em que não há contratação formal, e de terem incluído negros apenas nas funções mais baixas. O motivo seria o célebre pacto da branquitude – os cargos mais elevados seriam destinados a pessoas brancas por questões culturais e/ou estéticas. Embora o pessoal esteja surpreso com os resultados da pesquisa, nós, como nunca compramos esse tipo de política pelo valor de face, somos obrigados a lembrar que os cargos “de confiança”, os mais altos da hierarquia e naturalmente mais bem remunerados, são destinados a pessoas oriundas de famílias burguesas ou mesmo pequeno-burguesas em ascensão, que compartilham interesses de classe com os patrões. Ter um plantel de jovens negros universitários defensores da cartilha identitária é marketing, apenas isso. De resto, promover mudança de vocabulário no ambiente empresarial (ou mesmo fora dele), como parece ter sido a principal preocupação dos identitários, é muito fácil de fazer e não onera as empresas em um mísero centavo.
O problema é que os pesquisadores, imbuídos da doutrina identitária, pensaram que a revolução seria feita no departamento de RH por meio de manuais de “letramento racial”. É muita ingenuidade. E a coisa fica pior quando reclamam dos publicitários. Análises semióticas de comerciais de cerveja detectaram que, nos anúncios de cervejas mais baratas, há maior quantidade de negros que nos anúncios de cervejas “de nicho”, mais caras. Sentimos informar que publicitários também não vão fazer a revolução. O mais provável é que a cerveja mais barata, destinada a um público de menor poder aquisitivo, apareça em um comercial que simule o ambiente de convívio dessas pessoas – o próprio estudo reconhece que a maioria dos negros está nas classes mais baixas. O publicitário quer vender o produto, não quer transformar o mundo. Adiantaria reproduzir a turma fazendo festa na laje regada a champanhe francês? Talvez aumentasse a autoestima do pessoal (será?) – ou, mais provavelmente, diminuísse a culpa da pequena burguesia, que se contenta em mudar a sociedade só no plano da ficção –, mas não venderia champanhe.
Segundo o estudo, o uso de “símbolos da cultura da população negra, como o Carnaval e o São João”, em publicidade de produtos danosos à saúde influenciaria especialmente os negros a consumi-los, pois essas manifestações teriam raízes profundas na cultura negra. Em suma, ao patrocinarem o Carnaval, as cervejarias estariam levando a população negra – em particular – a ingerir bebida alcoólica, prejudicando a sua saúde. Tanto esforço intelectual poderia ser direcionado a uma análise baseada na luta de classes, que levaria a conclusões mais concretas.
A onda conservadora seria outro fator importante. É mencionada a diminuição do patrocínio à Parada LGBT como resultado desse movimento, que se observa também na redução das ações afirmativas raciais. Fica sugerido que essa onda teria vindo com a eleição de Donald Trump nos EUA. O jornalista, resignado, diz: “Resta a luta política, que no final das contas sempre angariou melhores resultados do que a benevolência do capital”. Como diria Nelson Rodrigues, isso é o óbvio ululante, exceto, rigorosamente, pelo fato de que “benevolência do capital”, na verdade, não existe. O que sempre existiu foi a luta política, da qual os identitários abriram mão por teimarem em acreditar em Papai Noel.
A pesquisa descobriu, com surpresa, a “lógica predatória do capital” e a “busca incessante do lucro”, como se isso fosse alguma novidade. O que mais espanta é que muita gente, nos meios universitários, tenha acreditado – e continue acreditando – nesse tipo de política de amizade com banqueiros e empresários. É claro que estes dão alguma esmola para as ONGs cooptarem “formadores de opinião” nas favelas (os líderes comunitários) e nas universidades, por meio de bolsas de estudo no exterior. Esse pequeno investimento destrói a esquerda por dentro.
De resto, cabe perguntar se faria algum sentido o empresário contratar negros para sua fábrica de ultraprocessados ou de cerveja ou de cigarros – dando-lhes altos cargos – e, de alguma forma, impedir que os negros, em geral, consumissem os seus deletérios produtos. Se assim fosse, os produtos danosos, produzidos por uma empresa diversa e inclusiva, seriam destinados só aos brancos? É absurdo, mas é a isso que leva o raciocínio, com seu enfoque racial.
O estudo conclui o óbvio: empresários estão pouco se lixando com a agenda antirracista, mas se aproveitam dela para melhorar sua imagem. O problema é assumir um tom de reivindicação moral, como se essa atitude pudesse ser reparada por um simples de gesto de consciência dos capitalistas. O erro está em não perceber que a política identitária é insuficiente como forma de enfrentamento do capital. Pior que isso: ela é uma estratégia do próprio capital para enfraquecer a esquerda em cenário de crise, potencialmente revolucionário.



