Duas crianças palestinas foram assassinadas após uma emboscada montada por forças de segurança da Autoridade Palestina (AP) na cidade de Tamoun, no nordeste da Cisjordânia ocupada, distrito de Tubas. A ação ocorreu na noite de sábado (15) durante uma operação para sequestrar Samer Samara, combatente da resistência procurado pelas forças de ocupação de “Israel”.
Segundo informações divulgadas por veículos palestinos, a força de segurança abriu fogo contra o veículo em que Samara estava com seus filhos. O filho de Samara, Ali, de 16 anos, foi assassinado com um tiro na cabeça. A filha, de três anos, foi atingida e, de acordo com relatos posteriores, morreu no domingo (16) em decorrência dos ferimentos. Um outro filho também ficou ferido. Samara foi baleado, inclusive nas pernas, e levado sob custódia pela AP.
Relatos locais apontaram participação de unidades do chamado Serviço de Segurança Preventiva da AP e de uma unidade especial, que teriam realizado a emboscada com disparos intensos para efetuar o sequestro do combatente.
Após o ataque, moradores de Tamoun organizaram protestos e uma greve geral. Houve ainda relato de envio de reforços da Autoridade Palestina para reprimir a manifestação.
Na segunda-feira (16), as forças de segurança da Autoridade Palestina divulgaram nota dizendo “lamentar profundamente” os assassinatos que seu exército cometeu. O comunicado afirmou de maneira cínica que “os detalhes estão sob revisão” e que será aberta uma investigação, com promessa de responsabilização “de acordo com a lei” caso seja comprovada irregularidade por parte de integrantes da força.
O Hamas condenou o ataque, classificando-o como “um crime grave” e “uma mancha negra” no histórico dos serviços de segurança, denunciando-os por “usar força contra o próprio povo em vez de protegê-lo”. O partido palestino advertiu para o impacto da política sobre a coesão interna palestina e cobrou responsabilização, além do fim da perseguição a palestinos procurados e a libertação de presos políticos.
Confira, abaixo, a nota na íntegra:
“Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso
Declaração à imprensa
Confirmamos que o crime cometido pelos aparelhos de segurança da Autoridade na cidade de Tamoun, que resultou no martírio do menino Yazan Samara, filho do perseguido pela ocupação Samer Samara, e no ferimento de sua irmã, uma menina, com graves ferimentos na cabeça, em razão do disparo direto contra o veículo em que se encontravam, representa um novo ponto negro que se acrescenta ao histórico desses aparelhos, que continuam a se impor sobre os filhos do nosso povo em vez de protegê-los e preservar sua segurança.
Ao mesmo tempo em que lamentamos o mártir, enfatizamos que este crime reflete a gravidade das políticas repressivas praticadas pelos aparelhos da Autoridade por meio da perseguição aos filhos do nosso povo, em um momento em que a nossa causa está sob um ataque sem precedentes por parte da ocupação e de seus colonos em diferentes áreas da Cisjordânia.
Advertimos para as consequências da continuidade deste caminho perigoso sobre o tecido nacional e responsabilizamos a liderança da Autoridade plenamente pelas consequências desses crimes e por seus desdobramentos.
Também exigimos a responsabilização de todos os envolvidos neste crime. O sangue dos filhos do nosso povo é uma responsabilidade sobre o pescoço de todos, e não se pode aceitar que seja derramado sob qualquer pretexto. Convocamos à libertação imediata de todos os presos políticos, ao fim de todas as formas de perseguição aos filhos do nosso povo e ao trabalho sério para fortalecer a unidade nacional e unificar fileiras no enfrentamento da ocupação e de seus planos, que têm como alvo nossa terra, nosso povo e nossos lugares sagrados.
Movimento de Resistência Islâmica – Hamas
Domingo: 27 Sha‘ban 1447 H
Correspondente a: 15 de fevereiro de 2026”
O Comitê de Famílias de Presos Políticos também condenou a operação e afirmou que se trata do resultado de uma “política sistemática” contra combatentes da resistência e pessoas procuradas, “mesmo ao custo de sangue palestino”. Em nota, o comitê declarou que tentativas de justificar o ocorrido como procedimento de segurança “não mudam o fato de que sangue palestino foi derramado” por uma decisão de perseguir um homem procurado pela ocupação.
Samer Samara é integrante da Brigada de Tubas, vinculada às Brigadas Al-Quds, braço militar do partido Jiade Islâmica Palestina. A Autoridade Palestina mantém coordenação de segurança com a ocupação em operações na Cisjordânia e realizou diversos sequestros de combatentes em ações que atingiram, entre outras áreas, o campo de refugiados de Jenin. Em ocasiões anteriores, serviços de segurança alegaram que detenções serviriam para evitar que os procurados sejam mortos por “Israel”.
Com a morte das crianças em Tamoun, o número de palestinos assassinados por forças de segurança da Autoridade Palestina desde o início do ano passado chega a pelo menos 10.
O ataque ocorre em meio à intensificação da ofensiva da ocupação na Cisjordânia e às medidas de anexação. A emissora pública israelense KAN informou que o governo aprovou um plano para declarar grandes áreas como “propriedade do Estado” caso palestinos não consigam comprovar posse. Segundo a KAN, a proposta foi apresentada pelo ministro das Finanças Bezalel Smotrich, pelo ministro da Justiça Yariv Levin e pelo ministro da Defesa Israel Katz. Smotrich declarou que a medida dá continuidade ao que chamou de “revolução dos assentamentos para controlar todas as nossas terras”.



