No fim da tarde deste sábado (25), a Universidade Marxista encerrou seu debate sobre a história recente da Venezuela com a sexta e última aula do curso A História da Revolução Bolivariana, ministrada por analista Henrique Simonard. O encontro final focou na transição estratégica entre os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, dissecando as táticas de sabotagem imperialista e a construção do chamado Estado Comunal como resposta à paralisia burocrática.
A aula começou com uma análise detalhada sobre o locaute de 2003, um episódio que Simonard classificou como um dos ataques mais sofisticados já sofridos por um governo latino-americano. O palestrante explicou que a paralisação da indústria petrolífera foi uma operação de guerra orquestrada através da INTESA, uma empresa de informática vinculada à gigante norte-americana SAIC. Segundo Simonard, as senhas e os sistemas de controle das refinarias simplesmente sumiram das mãos dos técnicos venezuelanos, sendo operados remotamente por figuras ligadas à CIA e ao Pentágono. Henrique Simonard pontuou que essa sabotagem foi o motivo pelo qual o país viu sua economia despencar 29% em apenas três meses, obrigando Hugo Chávez a realizar uma limpeza histórica na PDVSA. O professor afirmou que a demissão de 18 mil funcionários foi uma medida de autodefesa, pois a empresa funcionava como um aparato dos serviços de inteligência estrangeiros para sabotar a soberania nacional.
Ao abordar a formação da oposição, Simonard detalhou como órgãos como o NED e a USAID triplicaram seus orçamentos para a Venezuela logo após o fracasso do golpe de 2002. O palestrante citou o caso de Maria Corina Machado e da ONG SUMAT, descrevendo-as como ferramentas de uma campanha intensa de desestabilização financiada diretamente pelos Estados Unidos. Henrique Simonard argumentou que a oposição venezuelana buscou a criação de governos paralelos e a formação de lideranças estudantis treinadas para a guerrilha urbana, como foi o caso de Juan Guaidó. Para enfrentar essa ofensiva, Chávez radicalizou lançou mão das Missões e, finalmente, da Lei Orgânica das Comunas em 2010. O objetivo era criar dispositivos de democracia direta que permitissem à população gerir orçamentos e obras sem passar pela burocracia das prefeituras, que muitas vezes atuavam como focos de sabotagem interna.
Sobre a sucessão presidencial, a reportagem destaca que a escolha de Nicolás Maduro foi uma decisão calculada de Chávez para conferir um caráter civil e sindical ao regime. Simonard explicou que Maduro, como ex-motorista de ônibus e líder sindical, era o elo perfeito para manter a unidade entre as Forças Armadas e os movimentos populares. O lema comunas ou nada, deixado por Chávez em seu leito de morte, foi o eixo central do governo Maduro, que assumiu o país justamente no momento em que o preço do barril de petróleo despencava de 140 para 30 dólares. O professor ressaltou que Maduro teve que lidar com um terrorismo econômico sem precedentes, incluindo o confisco do ouro venezuelano pelo Banco da Inglaterra e a desestabilização provocada pelas guarimbas, os grupos de sabotagem financiados pelo imperialismo para promover o caos nas ruas.
No encerramento do curso, Simonard discutiu a situação atual em 2026, comparando o sequestro de Maduro pelos Estados Unidos ao Tratado de Brest-Litovsk assinado pelos bolcheviques em 1918. O historiador afirmou que as concessões atuais, como a venda de petróleo para empresas americanas em troca de bens de consumo, são manobras de um governo que precisa ganhar tempo enquanto tenta manter viva o controle do regime. Simonard declarou abertamente que o erro da Revolução Bolivariana foi ter convivido por tempo demais com uma burguesia sabotadora sem expropriá-la definitivamente, o que permitiu que o imperialismo mantivesse ganchos de controle dentro da economia nacional. Para ele, a Revolução Bolivariana é um processo nacionalista burguês empurrado constantemente para a radicalização operária pela força da agressão estrangeira. Henrique Simonard concluiu afirmando que, embora o regime esteja em sua fase mais defensiva, ele não foi derrotado nas ruas, e o legado das comunas permanece como o principal obstáculo para uma invasão terrestre definitiva.





