Coletivo Psis

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Coluna

Ataques à Internet, ataques à juventude

Quando os poderosos querem censurar os jovens, a saúde mental se torna um álibi

Diz-se que quando prestamos muita atenção numa única árvore, perdemos de vista a floresta. No último período aconteceram eventos que, quando são apresentados individualmente, não deixam clara a sua verdadeira natureza. E é assim que eles têm sido apresentados por boa parte do jornalismo até então. Nosso objetivo aqui é fazer um procedimento diferente: apresentar todos esses acontecimentos de forma conjunta, para que a floresta apareça.

Retrospectiva dos fatos

Brasil

13/01/25 – Lei Federal 15.100/2025 (Lei que proíbe os celulares nas escolas)

13/03/25 – Lançamento da série “Adolescência” na Netflix

10/07/25 – Retomada da Campanha de Militarização das Escolas Públicas

06/08/25 – Vídeo do Felca

17/09/25 – Lei Federal 15.211/2025 (Lei Felca) / Publicação da lei sobre a restrição das Redes Sociais para jovens

13/10/25 – Globo anuncia contratação de Felca

15/12/25 – Governo de Minas Gerais propõe reformulação do quadro de disciplinas escolares, inclui duas sobre “Educação Digital”

07/01/26 – Roblox altera regras do chat, restringindo-o para os jovens

07/01/26 – Início dos protestos das crianças no Roblox

19/01/26 – Anúncio da criação de núcleo de apoio a políticas públicas no Centro de Pesquisa em Saúde Mental na FAPESP em parceria com o Child Mind Institute (CMI)

12/03/26 – Programa Guardiães da Escola, que coloca policiais militares nas escolas

Mundo

04/09/25 – Nepal bane temporariamente todas as redes sociais. As plataformas foram banidas do país por não cumprirem medidas jurídicas, e não os usuários que foram banidos das plataformas

08/09/25 – Início expressivo da operação de revolução colorida da chamada Gen-Z no Nepal

07/11/25 – Dinamarca anuncia que banirá redes sociais para adolescentes, alegam saúde mental

26/11/25 – Parlamento Europeu aprova resolução aconselhando banimento das redes sociais para adolescentes nos países membros

10/12/25 – Austrália bane redes sociais para adolescentes até 16 anos, alegam saúde mental

20/01/26 – Reino Unido diz estar considerando banimento das redes sociais para adolescentes, alegam saúde mental

26/01/26 – Assembleia Nacional Francesa aprova legislação banindo redes sociais para adolescentes, alegam saúde mental

03/02/26 – Espanha e Grécia propõem banimento de redes sociais para adolescentes, alegam saúde mental

21/02/26 – O partido do governo alemão União Democrática Cristã (CDU) propõe banir redes sociais para adolescentes até 14 anos.

Esses fatos enumerados aqui são alguns que dizem respeito primariamente à repressão dos jovens. Outro fato importante foi a venda forçada do TikTok para empresas norte-americanas. Isso nos interessa porque, em primeiro lugar, é uma rede social com amplo uso pela juventude, e em segundo, porque foi nela que se concentraram inicialmente os vazamentos de informação sobre o genocídio palestino, enquanto os crimes de “Israel” eram encobertos nas redes sociais controladas pelos EUA. Vale notar que o próprio Estado norte-americano se empenhou em garantir que esta venda se concretizasse.

Algo que salta aos olhos é a proximidade das datas: tudo isso em pouco mais de um ano. A internet já existe há algum tempo, e seu uso já havia se generalizado antes que a população jovem de hoje tivesse nascido. Nesses poucos anos de existência, a internet passou de um simples telégrafo digital para um aparelho de comunicação muito complexo. Esse desenvolvimento extraordinário das comunicações pode ser considerado uma verdadeira revolução. A internet combina todas as formas de transmissão de informações anteriores e criou outras novas, como a possibilidade de traduções instantâneas entre muitas das línguas existentes, ou a comunicação por vídeo em tempo real. Esse desenvolvimento acarretou uma circulação gigantesca de informações.

A internet tem muitas coisas “ruins”. Sempre houveram sites que mostravam morbidades, a pornografia é uma parte grande do todo da internet, vídeos com atos de crueldade e tortura, postagens incentivando o suicídio, e assim por diante. Não apenas isso, mas a internet também é a ferramenta que “Israel” usa para encontrar suas vítimas, como no caso do assassinato de Ismail Hanié.

Acontece que a maior parte dessas coisas “ruins” da internet sempre existiram, mas até alguns anos atrás não eram um problema. Circulavam vídeos de pessoas sendo decapitadas pelo ISIS, assistidos por crianças e adultos. Essas coisas ou eram boas para a saúde mental, ou os políticos não haviam percebido que fazia mal, porque ninguém proibia nada.

Eis que de pouco tempo pra cá, aproximadamente um ano após o início do genocídio palestino, a internet se tornou um lugar muito perigoso, cheio de coisas do mal que vão apodrecer o cérebro dos adolescentes. Surpreende que essa ideia de banir os adolescentes da internet brotou na cabeça de uma quantidade tão grande de governantes ao redor do mundo e foi implementada em poucos meses.

A pergunta que se coloca é: por que agora? Seria ingenuidade da parte de qualquer pessoa acreditar que de fato haveria alguma preocupação com a saúde mental dos jovens. Como entender que as mesmas pessoas se dizem preocupadas com a saúde mental dos jovens também estejam empenhadas em exterminar dezenas de milhares de jovens em Gaza?

Essa movimentação a nível mundial começou a tomar vulto aproximadamente um ano após o início da nova fase, mais intensa, do genocídio dos palestinos. Durante esse ano, a humanidade assistiu em tempo real, pela internet, um dos piores massacres já realizados até hoje. 

Enquanto a imprensa burguesa tentava criar a narrativa que o Hamas era um grupo terrorista, que praticava o mal, as redes sociais, especialmente o TikTok, mostravam os crimes genocidas de “Israel” contra os palestinos: a destruição das casas, hospitais, universidades, padarias, da infraestrutura de água e esgoto, ou o Massacre da Farinha em que fuzilaram centenas de palestinos famintos; um sem número de brutalidades. 

A internet sozinha perpassou por toda a muralha de censura e deixou vazar a verdade por entre as frestas, indo contra as redes de rádio, jornal e televisão monopolizadas pela burguesia. Com isso, as décadas de propaganda que se fez do Estado sionista derreteram como cera no fogo, deixando exposta a face podre do imperialismo genocida.

O mundo se prepara para um conflito militar de proporções titânicas. O imperialismo já demonstrou que não está disposto a ter nenhum freio ou restrição, como fizeram e seguem fazendo com os palestinos em Gaza. Mas não nos deixemos enganar, a aniquilação está posta para todos, o imperialismo não faz distinções: todos são igualmente extermináveis. 

Essa onda de proibição da internet para os jovens é um tratamento preventivo  do imperialismo contra a circulação de informações. Ele trabalha para estancar o vazamento da verdade, e se adianta com relação ao massacre dos povos, cuja etapa mais recente foi aberta pelo ataque contra o Irã. Isso responde ao porquê de reprimir agora.

Por que censurar e reprimir justamente os jovens? 

Em primeiro lugar, os jovens, o setor mais ativo e revoltado da sociedade, devem ser afastados da política à qualquer custo. Inclusive porque são eles que morrerão primeiro nas batalhas, e por isso não devem saber do que se trata. É muito mais fácil convencer alguém a ir para a guerra se essa pessoa só se informou com propaganda, filmes heróicos e slogans bonitos. Mas aqueles que testemunham a realidade brutal de um conflito militar, ainda que pelas redes, estão advertidos que é uma passagem só de ida para o inferno. Isso revela que a internet é uma importante ferramenta de pedagogia política, o que a torna tão perigosa para a burguesia.

Dentro dos EUA o grupo que se movimentou mais decididamente contra o sionismo foram os estudantes universitários. Eles tiveram uma reação enérgica contra o genocídio, organizaram greves, boicotaram as universidades, fizeram exigencias políticas para as instituições. E por isso tudo foram brutalmente reprimidos, inclusive pela polícia. Os estudantes são um grupo composto em sua maioria por jovens, ainda que mais velhos que aqueles atingidos pela onda atual de censura. Olhando para a história, o papel da juventude nos grandes acontecimentos políticos volta e meia é um fator importante.

Lembremos o caso da “reorganização escolar” proposta pelo então governador de São Paulo Geraldo Alckmin, que incluía o fechamento de quase cem escolas. Os estudantes se mobilizaram, ocuparam as escolas, organizaram o funcionamento das aulas, limpeza, merenda e vigília de forma espantosamente rápida. 

Os fatos, presentes e passados, sugerem que o banimento das redes sociais para os jovens têm motivações políticas, e não de preocupações com saúde mental.

Em segundo lugar, porque a repressão e a censura contra os jovens é uma etapa no processo de repressão e censura contra todos. Acontece que campanhas políticas impopulares dessa envergadura podem criar situações muito instáveis se executadas de uma vez, então são feitas por aproximações sucessivas. 

Em terceiro lugar, os jovens são atacados primeiro por serem vistos como mais vulneráveis politicamente, pela sua falta de organização, mas também porque este setor da sociedade tende a ser muito mais radical e ativo politicamente do que os mais velhos quando estão organizados. Os jovens têm de ser combatidos quando ainda estão desorganizados, porque uma vez que essa situação esteja superada, eles se tornam um inimigo muito forte.

A incoerência entre a campanha pelo cuidado com a saúde mental e os fatos concretos, escancara que essa preocupação é uma farsa. O exemplo das escolas deixa tudo muito claro: após décadas de ataques incessantes contra o ensino público, eis que surge uma preocupação propagandística com a saúde mental dos jovens. 

A chamada “saúde mental” é um conceito tirado da medicina que corresponde à visão burguesa da mente como um órgão do corpo ao invés do conjunto das relações sociais passadas, presentes e futuras da pessoa.  O conceito de saúde mental é burguês,  pois individualiza a pessoa, apagando seu pertencimento a uma classe social. Propõe medidas outras que o combate à sua opressão. A alegada preocupação com a saúde mental na realidade é um pretexto para a repressão daqueles que não se submetem.

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