Oriente Próximo

Artigos de jornal e torcida não vencem guerras

Articulista que se diz neutro, não consegue disfarçar sua torcida pelo imperialismo e contra o Irã, apresenta números, mas números não vencem guerras

Ilha de Kharg

O artigo A estratégia EUA-Israel contra o Irã está funcionando. Eis o porquê, de Muhammad Seloom, publicado no sítio da Al Jazeera nesta segunda-feira (16), entra para a lista da torcida organizada do grande capital contra o Irã. O problema é que palavras não vencem guerras. Falar que está vencendo é diferente de estar vencendo.

Todos sabem que o imperialismo é um inimigo poderoso, tem muitos recursos e os iranianos sabem muito bem disso, por isso estão há décadas se preparando.

Seloon inicia dizendo que “duas semanas após o início da Operação Fúria Épica, a narrativa dominante se acomodou em um padrão confortável: os Estados Unidos e Israel entraram em guerra sem um plano. O Irã está retaliando em toda a região. Os preços do petróleo estão disparando e o mundo enfrenta mais um atoleiro no Oriente Médio. Senadores americanos classificaram a operação como um erro crasso. Os canais de notícias a cabo contabilizaram as crises. Comentaristas alertaram para uma longa guerra”.

Na verdade, não existe um “padrão confortável”, mas a constatação de que 1), o governo americano não ouviu os militares que alertavam que o país não deveria entrar uma guerra sem um plano adequado, e sem a quantidade suficiente de armamentos; 2) A resposta iraniana pegou a todos de surpresa.

Para Seloon, “essa narrativa está errada. Não porque os custos sejam imaginários, mas porque os críticos estão medindo as coisas erradas. Estão catalogando o preço da campanha enquanto ignoram o balanço estratégico”. Mas de quais custos estamos falando? EUA e “Israel” estão gastando entre 8 e 12 milhões de dólares para tentar interceptar um drone que custa 20 mil dólares, e nem sempre consegue. Há estimativas de que o Irã tem pelo menos 80 mil drones. Basta fazer as contas, daria US$ 960 bi, apenas em mísseis de interceptação.

Vejamos os valores astronômicos do custo operacional do imperialismo:

  • Mísseis Tomahawk: Cada unidade disparada custa cerca de US$ 4 milhões*.
  • Interceptadores THAAD: Essenciais para a defesa contra a retaliação iraniana, custam aproximadamente US$ 12,8 milhões por disparo.
  • Operações Navais: Manter dois porta-aviões na região custa cerca de US$ 13 milhões por dia.
  • Bombardeiros B-2: O custo de operação dessas aeronaves varia entre US$ 130 mil e US$ 150 mil por hora de voo

* Em conflitos de alta intensidade como o atual, o custo de reposição é o que mais pesa. Como a produção da Raytheon (RTX) é limitada, o Pentágono acaba pagando um “prêmio” para acelerar as linhas de montagem, o que inflaciona o valor unitário nos relatórios de emergência enviados ao Congresso.

Estão estimando que os EUA já desembolsaram, US$ 16,5 bi em duas semanas de guerra. Mas não estão contabilizados os bilhões de dólares perdidos com bases destruídas e radares fundamentais para o imperialismo. As perdas do lado israelenses são gigantescas, ao ponto do governo arrancar todas as câmeras de segurança das ruas para evitar que sejam hackeadas e a verdade seja exposta.

Ainda assim, o articulista diz que “o analisarmos o que de fato aconteceu com os principais instrumentos de poder do Irã – seu arsenal de mísseis balísticos, sua infraestrutura nuclear, suas defesas aéreas, sua marinha e sua arquitetura de comando por procuração – o quadro não é de fracasso dos EUA. É o de uma degradação sistemática e gradual de uma ameaça que governos anteriores permitiram crescer por quatro décadas. Importante notar o linguajar de Seloon, mostrando que está do lado imperialismo. Embora não confesse, acredita que não deveriam ter “permitido” que o Irã, um país soberano, cuidasse da própria defesa, o que ele trata como “ameaça”.

O autor tenta fingir neutralidade, diz que escreve de Doha, que trabalhou para o “Departamento de Estado dos EUA e aconselhou agências de defesa e inteligência em vários países.”  E que “não tem interesse em torcida pela guerra”, claro que não consegue disfarçar a torcida pelo imperialismo.

Agitando as bandeirinhas, Seloon diz que “Um arsenal construído ao longo de décadas, desmantelado em dias.” E que, segundo “dados disponíveis publicamente, os lançamentos de mísseis balísticos iranianos caíram mais de 90%, de 350 em 28 de fevereiro para cerca de 25 em 14 de março. Os lançamentos de drones contam a mesma história: de mais de 800 no primeiro dia para cerca de 75 no décimo quinto dia”.

Existe uma falha fundamental na torcida do articulista. As primeiras ondas de drones e mísseis eram estoques antigos utilizados para saturar e esgotar os sistemas de defesas israelenses.

O crucial, isso o autor no pode admitir, é que esgotadas as defesas, o Irã não precisa mais de quantidade, tem se valido da qualidade. Cada míssil lançado alcança seus alvos. Portanto, pode dosar, ditar o ritmo, pois pretende prolongar o conflito que não iniciou.

Contabilidade

O “analista neutro”, Muhanad Seloom, diz que os ativos iranianos estão todos sendo degradados. Mas ninguém disse que o imperialismo não seja poderoso. A questão é que o Irã se preparou, e bem. Não existe vitória garantida, e isso serve para os dois lados.

Alega que “A campanha atual danificou ainda mais a instalação nuclear de Natanz . A de Fordow permanece inoperável. As instalações da indústria de defesa necessárias para reconstituir a capacidade de enriquecimento estão sendo sistematicamente alvejadas”. Apenas se esquece que o Irã não precisa necessariamente construir bombas atômicas. Talvez não seja muito difícil adquirir, pois EUA e “Israel” têm muitos inimigos.

Seloon mente descaradamente que “o Irã avançava lentamente em direção a uma arma nuclear” e essa “é a política que gerou a crise em primeiro lugar”. E, como toda caneta servil, diz que “cada ano de paciência estratégica adicionou centrífugas às salas de enriquecimento e quilogramas ao estoque”.

A farsa de Seloon é facilmente desmontada, o imperialismo tentou acabar com o Irã desde a Revolução de 1979; lançou o Iraque contra o país, sabotou, financiou tentativas de revoluções coloridas, assassinou cientistas, manteve um duro bloqueio econômico. O “perigo” da arma nuclear até virou piada: os sionistas estão há trinta anos dizendo que o Irã está a trinta dias de construir uma bomba. Ainda assim, temos que ouvir os lacaios dos sionistas repetirem essa mentira.

Outra atitude vergonhosa é dizer que o imperialismo teve “paciência”. Quer dizer, o Irã não tem direitos, não tem soberania. E o imperialismo errou, segundo o articulista “neutro”.

Demagogia

Nunca falta a esses analistas “neutros” a sua dose de demagogia. Seloon diz que nada “minimiza os custos humanos. Mais de 1.400 civis foram mortos no Irã, um fardo moral que os EUA e Israel carregarão” e blá-blá-blá. Fardo moral? Desde quando o imperialismo se preocupa com isso?

Antes, o articulista tinha feito uma leitura muito rasa sobre a capacidade do Irã de controlar o Estreito de Ormuz, como se o imperialismo fosse capaz destruir essa capacidade iraniana. Comete o erro grosseiro de subestimar um país que, mesmo sob enormes pressões econômicas, é um dos que mais forma engenheiros no mundo, e que se mostra como a principal potência militar no Oriente Médio.

O Estreito de Ormuz é estratégico e Seloon faz pouco caso, diz que “você não precisa escoltar petroleiros através de um estreito se o adversário não tiver mais os meios para ameaçá-los”. É verdade, mas também existem outras alternativas: não vai adiantar levar navios pelo estreito se não tiver petróleo para eles carregarem.

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