Paulo Marçaioli

Formado em direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da USP e dono do blog Esperando Paulo

Coluna

‘Anjo Negro’ – Nelson Rodrigues

Resenha Livro - “Anjo Negro: drama em três atos. Peça Mística. 1948” – Nelson Rodrigues – Ed. Nova Fronteira – 5ª Edição

“SENHORA – Ó branca Virgínia!

SENHORA (rápido) – Mãe de pouco amor!

SENHORA – Vossos quadris já descansam!

SENHORA – Em vosso ventre existe um novo filho!

SENHORA – Ainda não é carne, ainda não tem cor!

SENHORA – Futuro anjo negro que morrerá como os outros!

SENHORA – Que matareis com as vossas mãos!

SENHORA – (com voz de contralto) – Vosso amor, vosso ódio não têm fim neste mund!

TODAS (grave e lento) – Branca. Virgínia…

TODAS (grave e lento) – Negro Ismael.”.

Nelson Rodrigues nasceu em Recife em 1912, e morreu no Rio de Janeiro no ano de 1980.

A produção teatral mais relevante do escritor se situa entre “Vestido de Noiva” (1943) – um ano após a sua estreia, em 1942, com “Mulher Sem Pecado” – e, 1965, ano da estreia de “Toda a Nudez Será Castigado”. O contexto histórico abrange período de rápida transição do Brasil agrário para um país urbano, o que envolveu uma rápida mudança dos comportamentos.

Em 1958 o Brasil ganharia sua primeira Copa do Mundo e se tornaria desde então o país do futebol. O jornalismo passa cada vez mais a ser um instrumento de comunicação de massas, contando com o rádio e a televisão. Em certas regiões, a industrialização acelerada engendraria uma nova fisionomia social ao país. Aos poucos, as mulheres vão granjeado maior importância social.

Neste contexto, é certo que o teatro do nosso escritor expressa estas mudanças do Brasil. Representou o nascimento do nosso modernismo teatral, com algum atraso em relação ao nosso modernismo literário. Até então, o Teatro brasileiro, iniciado por Martins Pena (1815/1848), limitava-se às comédias de costume, aos dramalhões e ao teatro musicado. O gênero dramático ainda aparece como novidade, o que explica, inclusive, a censura de algumas peças ou as vaias proferidas quando da encenação de “Perdoa-me Por Traíres-me” ainda no ano de 1957.

As peças de Nelson Rodrigues, a despeito das diferentes classificações[1], têm alguns traços constantes: predominância do ambiente urbano, ênfase em temas como a virgindade, o ciúmes, o incesto, o impulso à traição e a canalhice humana.

Dentro da classificação de Sábato Magaldi, “Anjo Negro” se situa dentre as “peças místicas” do jornalista carioca. Escrita em 1946, foi dirigida pela primeira vez pelo polonês Ziembiski, refugiado no Brasil da II Guerra Mundial.

Uma leitura absolutamente superficial da peça poderia sugerir um racismo inequívoca de Nelson Rodrigues, retratando no personagem negro Ismael, uma referência diametralmente oposta às afirmações em torno do orgulho negro, comuns hoje em dia. O personagem Ismael tem ódio de ser preto, escraviza sua mulher branca e não admite que ela saia de uma casa cheia de muros, com o risco de lançar os olhos sobre um homem não negro.

Na verdade, a peça é pioneira ao apresentar o personagem negro fora de um arquétipo desumanizado, coisificado, folclórico e hipersexualizado. Ao explorar as contradições e ambiguidades do racismo brasileiro, o autor revela de forma brutal os efeitos do nosso preconceito dissimulado. Inequivocamente, um racismo diferente do preconceito do norte-americano. Mas, nem por isso, um racismo menos violento.

Nos dias de hoje já é quase um senso comum a crítica da tese da “democracia racial” consubstanciada no “Casa Grande & Senzala” (1933) de Gilberto Freyre. Neste livro, que se situa dentro de um conjunto de obras voltadas ao passado colonial brasileiro, com a finalidade de demarcar nossas especificidades e traçar as bases da nacionalidade brasileira, a ênfase do autor pernambucano dá-se não no conflito de raças, mas na mestiçagem.

Enquanto na américa do norte predominou as colônias de povoamento, com viés religioso, a colonização brasileira foi um empreendimento comercial pautado pela denominada colônia de exploração. O maior problema dos portugueses que aqui chegaram era a falta de gente e, particularmente, de mulheres. Desde o primeiro momento, a família brasileira foi assim constituída da miscigenação do branco, do negro e do índio. Além disso, no Brasil, ao contrário dos EUA, a escravidão africana não foi um fenômeno regional, mas uma forma de exploração do trabalho disseminada em todo o território. Ao contrário dos EUA, no Brasil os negros não foram e não são uma minoria populacional.

A despeito da mestiçagem ser um fato histórico dificilmente refutável, neste “Anjo Negro” temos acesso a um aspecto do problema racial pouco mencionado por Gilberto Freyre. O afeto do ressentimento, bem como a incorporação, pelo oprimido, dos valores do opressor, perpetrando a violência do racismo no abuso sobre a mulher, e até mesmo na aquiescência do assassinato de crianças de cor. Este afeto envolve uma dinâmica que, curiosamente, faz-se presente dentro de militantes do movimento negro dos dias de hoje, ligados à agenda identitária norte-americano. O ciclo em que o passado de violência autoriza o oprimido a agir com arrogância, e depois, com sadismo e perversão.

Neste contexto, a despeito do racismo dissimulado brasileiro, o leitor não deve perdoar Ismael, nem vê-lo como uma vítima, mas encarar sua tragédia como parte da vida (brasileira) como ela é.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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