Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Coluna

A serviço da alta burguesia

Estar a serviço da alta burguesia é diferente de fazer parte dela

O caso Banco Master parece um poço sem fundo. A cada dia, surgem novos desdobramentos e informações dispersas aqui e acolá. Dada a proximidade do período eleitoral, grupos políticos tentam associar o escândalo aos adversários. Como não poderia deixar de ser, a imprensa burguesa lança suspeitas sobre Lula, que teria tido uma “conversa fora da agenda” com Daniel Vorcaro no fim de 2024. No mais, o próprio eleitorado petista da pequena burguesia tenta blindar os ministros do STF, alguns dos quais sabidamente envolvidos até o pescoço na história.

Há alguns dias, a Folha se regozijava com a “chegada do caso Master ao governo federal” não só pela reunião de Lula com Vorcaro como também pela divulgação de contrato firmado pelo Master com o ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski quando este era ministro da Justiça do governo. Embora o próprio ministro, indicado ao Master por Jaques Wagner, se tenha afastado do escritório no período, seus familiares continuaram oferecendo serviços ao banco a um custo de R$ 250 mil mensais – uma bagatela em comparação com os honorários do escritório Barci de Moraes, da família do rei da democracia, Alexandre de Moraes, que chegavam a R$ 3,6 milhões por mês.

Como lembrou Gleisi Hoffman, porém, os bolsonaristas estão bem mais atolados no lodaçal que o PT. O governador Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, por exemplo, teria aplicado quase R$ 1 milhão em recursos do Rioprevidência, fundo de pensão de servidores e pensionistas fluminenses, em produtos financeiros do Master. A Polícia Federal considerou irregulares essas operações financeiras, que “expuseram o patrimônio da autarquia a risco elevado e incompatível com sua finalidade”. Resta investigar se o gestor do fundo, já exonerado, e o próprio governador pretendiam auferir lucros privados com investimento de recursos públicos em operação de alto risco.

Enquanto uns e outros empurram o filho para o colo alheio, como manda o calendário eleitoral, outros pontos obscuros vão saindo de cena sorrateiramente. Até as relações do ministro Dias Toffoli, do STF, com o Master parecem fadadas a ir para baixo do tapete. Ao que tudo indica, o ministro é o verdadeiro dono do Tayayá Resort, no Paraná, que, embora tenha sido parcialmente comprado por um fundo de investimentos administrado pelo cunhado do dono do Master, é conhecido, segundo a imprensa, como o “resort do Toffoli”. Matéria publicada no Globo informa que os funcionários do hotel tratam Toffoli, que frequenta o local com séquito de seguranças, como o “proprietário”. O jornal teria apurado que o pagamento de diárias para seguranças que atendem o STF revela 128 dias de viagens em feriados, fins de semana estendidos e recesso do Judiciário para a região onde fica o resort a um custo de R$ 460 mil.

O que é mais curioso no caso é, naturalmente, a participação dos ministros do STF. Os polos Lula e Bolsonaro, mantidos mesmo após a prisão de Jair Bolsonaro, os dois com base popular, já foram alvo das determinações idiossincráticas do STF. Lula e Bolsonaro tiveram de ser sequestrados de eleições para abrir espaço para a candidatura do mercado financeiro, ou seja, dos verdadeiros poderosos do Brasil. O mesmo STF, a mesma estratégia. Não é difícil perceber que o Judiciário serve a essa classe poderosa, atuando como “gestor das leis” para controlar o cenário político. Por que então, preso Bolsonaro, ministros do STF estariam sendo rifados pela imprensa, também a serviço do mesmo grupo?

Alexandre de Moraes, o mais emblemático dos ministros do STF, vem tomando uma série de decisões juridicamente questionáveis, todas endossadas pelo tribunal e aplaudidas por uma esquerda empenhada em combater o espantalho do fascismo bolsonarista, como se esse fosse, de fato, o seu maior inimigo. Investido de tanto poder, Alexandre deve ter pensado em fazer seu pé-de-meia. Muito justo. O valor pago ao escritório de sua mulher por serviços, a bem dizer, inexistentes ou, no mínimo, inespecíficos mais parece uma estratégia de ocultação de sociedade. O Banco Master não tinha ações em bolsa, portanto não precisava divulgar distribuição de lucros a acionistas. É prática conhecida em empresas de capital fechado, como o Master, fazer contratos de prestação de serviço com empresas ligadas a acionistas ocultos. Os valores pagos ao escritório Barci de Moraes, diferentemente daqueles pagos aos familiares de Lewandowski, parecem enquadrar-se nesse tipo de operação, normalmente rastreada pelo Banco Central. Ilações, naturalmente.

Ocorre, porém, que o oligopólio dos grandes bancos que atuam no Brasil, os donos do poder, não pretendia admitir um aventureiro como Vorcaro no seleto clube. Vorcaro admitiu que sua estratégia de negócio era baseada no Fundo Garantidor de Crédito, que é um fundo privado, financiado pelos grandes bancos. Ele se cercou de gente muito ambiciosa em todo o espectro político e, sobretudo, no Judiciário. Aparentemente, a divulgação das entranhas do negócio é um recado aos ministros do STF: nada de dar o passo maior que a perna.

Para a população, o que fica é uma sensação de escracho total. A esquerda, no entanto, continua a defender Moraes, a quem acha dever favores. Até dá para entender, dado que seria vexatório admitir que seu “herói” só está mesmo preocupado com o próprio enriquecimento, seja lá como for. E pior ainda: o mesmo vale para a maioria dos juízes e seus familiares donos de bem-sucedidos escritórios, cujo sucesso está atrelado à defesa dos interesses da alta burguesia.

Cai totalmente a imagem mítica de que juízes são cidadãos de elevada ética que atuam com imparcialidade. Longe disso, estão sempre à espreita de oportunidades de enriquecer num país onde 50 milhões de pessoas dependem de R$ 600,00 mensais para sobreviver, outros milhões estão pedalando para fazer entregas e outros, os empregados, ganham um ou dois salários mínimos e, nas horas “vagas”, fazem bicos para completar o rendimento.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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