No final de janeiro, a Assembleia Nacional da Venezuela aprovou uma reforma na Lei Orgânica de Hidrocarbonetos. A ação legislativa, ocorrida em meio ao cerco militar norte-americano, tem sido criticada como um movimento em direção à privatização da gigante estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA). Por sua vez, o governo venezuelano diz que a reforma vai impulsionar o setor petroleiro e transformar o país num grande produtor de petróleo, para além de apenas possuir reservas gigantescas. Ao mesmo tempo insiste que a soberania do país não é ferida pelas alterações aprovadas. Como dito pela presidenta em exercício Delcy Rodríguez em 26/01/2026: “O povo da Venezuela não aceita ordens de nenhum fator externo. O povo da Venezuela tem governo e este governo obedece ao povo” (Venezuela como potencia petrolera: Impulsan reforma para convertir al país en “gigante productor”, TelesurTV, 26/01/2026).
Rodríguez destacou que os Contratos de Participação Produtiva (CPP) são “um modelo de gestão para a exploração e produção de petróleo contemplado na Lei Anti-Bloqueio da Venezuela”. Além deste modelo, ainda existem as Alianças Técnico-Financiais (ATF). Segundo Rodríguez, a utilização desses mecanismos não significam uma manobra no sentido de privatização da atividade petroleira do país: “Não há agenda oculta aqui. É um modelo que foi executado”. Na mesma matéria da TelesurTV, a presidenta em exercício reforça a relação entre a reforma na Lei Orgânica de Hidrocarbonetos e a possibilidade de crescimento significativo na produção: “Temos que deixar de ser o país com as maiores reservas de petróleo do planeta para ser um produtor gigante”.
O site português Esquerda Revolucionária chamou a reforma de uma “privatização secreta” da estatal venezuelana. Evocando diversas vezes a figura de Hugo Chávez, o texto “Venezuela | Recusar a privatização secreta da PDVSA!” aponta que a reforma seria uma traição à política levada adiante pelo líder venezuelano. Segundo o grupo português, a reforma beneficiaria as empresas petroleiras estrangeiras, especialmente as norte-americanas, a burguesia venezuelana e a “boliburguesia”, termo direitista que faz referência a pessoas do aparato burocrático do governo venezuelano que teriam enriquecido no período chavista. Segundo o grupo, a redação atual da lei, que reconhece mecanismos de arbitragem independentes dos tribunais venezuelanos “romperia” com a declaração de Chávez feita em janeiro de 2012: “Não aceitamos que tribunais de Washington ou de qualquer outro lugar mandem aqui. A Venezuela é um país soberano e deve ser respeitada”.
Sem qualquer avaliação sobre as dificuldades enfrentadas no país, o grupo interpreta as concessões como escolhas políticas deslocadas desse contexto prático no qual os venezuelanos se encontram. A conclusão do texto deixa a análise mais confusa, pois aposta na indignação popular para “recuperar o programa da revolução socialista”. No entanto, a indignação popular na Venezuela é justamente o que o imperialismo procura impulsionar com as sanções econômicas para jogar a população contra um governo nacionalista. no melhor estilo desse tipo de organização que se diz trotskista, colocam no mesmo balaio o imperialismo e a burocracia estatal de um país atrasado, uma espécie de “fora todos” como o PSTU levantou durante o golpe contra o governo Dilma Rousseff no Brasil:
“Mas a crescente indignação nos corações das massas poderá transformar-se numa mobilização e numa luta renovada para recuperar o programa da revolução socialista e construir uma esquerda revolucionária, anti-imperialista, anticapitalista e antiburocrática. As revoltas de massas em todo o mundo, desencadeadas pelo genocídio sionista contra o povo palestiniano, e os atuais levantamentos em massa da classe trabalhadora e da juventude nos EUA demonstram o caminho e a força para derrotar o trumpismo, o fascismo, o capitalismo e a burocracia corrupta”. (Venezuela | Recusar a privatização secreta da PDVSA!, Esquerda Revolucionária, 16/02/2026)
Na mesma linha, o site Esquerda Diário publicou a seguinte manchete: “Petróleo sob domínio imperialista Venezuela: a reforma da Lei dos Hidrocarbonetos no ritmo de Trump e das petrolíferas transnacionais”. Assinado por Milton D´Leon em 23/01/2026, o texto critica o “estatismo burocrático” e argumenta que o governo em exercício está dando seguimento a uma política entreguista que já vinha se desenvolvendo com o presidente Nicolás Maduro: “é importante destacar que esse curso privatista não nasce com Delcy Rodríguez, mas se acumulou durante os últimos anos do governo de Nicolás Maduro”. É interessante observar essa mudança de abordagem, pois há pouco tempo setores da esquerda apontavam o governo Rodríguez como um governo capacho imposto por Donald Trump, agora é só a continuação de algo que eles desaprovam.
Enquanto isso, como citado em matéria na CNN Brasil, as petroleiras norte-americanas seguem dando sinais de que, não só o governo não mudou sua linha política, quanto que essa linha política não corresponde ao que gostariam de ter que lidar na Venezuela: “No entanto, alguns executivos do setor petrolífero demonstraram desconforto com a ideia de enviar capital para a Venezuela. O CEO da Exxon Mobil afirmou, em uma reunião na Casa Branca logo após a captura de Maduro, que o país é ‘inviável para investimentos’ em seu estado atual” (Venezuela aprova reforma que abre setor de petróleo a empresas estrangeiras, CNN Brasil, Mauricio Torres e Moriah Thomas, 29/01/2026).





