O professor da Unicamp Alfredo Suppia publicou nesta terça-feira (27), em A Terra é Redonda, o artigo Revisando a “polarização”. Sua tese é que a polarização não existe; haveria apenas uma “ameaça existencial” representada pelo bolsonarismo. Ao final, recomenda “cancelar” parentes que votaram em Flávio Bolsonaro. O conflito político acaba reduzido ao convívio familiar, e as contradições sociais que explicam o crescimento da direita desaparecem.
Os números eleitorais mostram uma divisão profunda. No segundo turno de 25/10, Lula recebeu 64.256.232 votos (51,79% dos válidos), contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro (48,21%), conforme os resultados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A diferença foi de 4.430.191 votos. Isso mostra a força dos dois campos políticos em disputa.
A falência do centro político também é relevante. O PSDB, que governou o País por oito anos e dominou São Paulo durante décadas, perdeu a condição de principal partido da direita. Parte de sua base se deslocou para o bolsonarismo. Em 2018, João Doria fez campanha como “BolsoDoria”. Houve uma reorganização da direita e um enfraquecimento das forças tradicionais do regime.
Suppia cita um estudo de Mario Fuks e Pedro Henrique Marques, publicado na revista Opinião Pública, para dizer que só a direita se radicalizou. Mas os pesquisadores afirmam expressamente que a polarização aumentou, sobretudo no plano afetivo, enquanto a radicalização ideológica foi assimétrica. Uma polarização assimétrica continua sendo polarização. O estudo diferencia suas formas; Suppia utiliza a diferenciação para negar o fenômeno.
Na interpretação de Suppia, não há campos políticos em conflito, mas um campo democrático diante de uma ameaça à vida. Desaparece a pergunta fundamental: que classes e interesses se opoem e produzem essa divisão? A crise do regime, o golpe de 2016 e os ataques aos trabalhadores explicam muito mais do que as opiniões de quem deixou de falar com um parente.
O autor chama o governo Bolsonaro de “fascismo-miliciano” e “necrolumpencaquistocracia” e reúne ministros e apoiadores numa relação de pessoas que despreza. Os neologismos, infelizmente, não explicam como funcionava o governo nem quais forças sociais o sustentavam. Um conceito que precisa ser reinventado a cada artigo carece de precisão.
Na Itália, os bandos de Mussolini atacaram sindicatos, cooperativas e organizações camponesas com apoio de proprietários e capitalistas. Na Alemanha, os nazistas organizaram forças paramilitares e, depois de conquistar o governo, destruíram partidos e sindicatos operários. O fascismo não se definia apenas pelo autoritarismo, mas pela mobilização de forças destinadas a esmagar as organizações da classe operária em benefício do grande capital.
Bolsonaro adotou políticas reacionárias, atacou direitos e favoreceu capitalistas. Não instaurou, porém, uma ditadura fascista. Os sindicatos continuaram existindo e a oposição venceu a eleição presidencial de 2022. As diferenças importam para a análise. Suppia chega a chamar fascismo e nazismo de “patéticos e ridículos”, desprezando a enorme força econômica e militar que sustentou esses movimentos.
Suppia enumera mortes na pandemia, crise sanitária entre os ianomâmis, devastação ambiental, corrupção e ataques aos trabalhadores. Esses fatores por si não definem um regime fascista. Fernando Henrique Cardoso promoveu privatizações e uma ofensiva contra a economia nacional; Michel Temer impôs a reforma trabalhista depois do golpe de 2016. Devemos classificá-los como fascistas?
A corrupção tampouco é exclusividade de movimentos fascistas. Está presente nas relações entre grandes empresários, partidos e instituições do Estado. O mesmo vale para a violência policial, que atravessou governos de diferentes orientações. Um escândalo não se transforma em prova de fascismo apenas porque envolve Bolsonaro.
O professor também coloca o aumento dos registros de armas entre os indícios de fascismo. Mas o direito ao armamento popular e à autodefesa é uma reivindicação histórica de setores do movimento operário. O PCO defende esse direito e o fim da Polícia Militar. Assim pensa a esquerda revolucionária.
Suppia cita a condenação de Jair Bolsonaro pelo STF, em setembro de 2025, por crimes ligados a uma tentativa de golpe que nunca foi demonstrada. O julgamento foi claramente uma perseguição política, inclusive com a prisão com penas altíssimas de pessoas que no máximo cometeram vandalismo, mas foram acusadas de tentativa de golpe de Estado.
Há outra contradição na utilização das decisões do STF como demonstração da defesa da democracia. Em 2018, foi esse mesmo Tribunal que negou o habeas corpus de Lula e abriu caminho para sua prisão. A instituição que participou da ofensiva contra o PT passou a ser apresentada por setores da esquerda como salvadora das liberdades democráticas.
A parte decisiva do artigo surge quando Suppia declara que votar em Flávio Bolsonaro significa desprezar idosos, trabalhadores, negros, índios, a educação e os direitos sociais. O eleitor deixa de ser alguém com interesses materiais e opiniões contraditórias. Passa a carregar todos os defeitos que o professor atribui ao candidato.
Flávio recebeu quase 60 milhões de votos. Entre seus eleitores estão assalariados, aposentados, pequenos comerciantes e desempregados. Há votos motivados por antipetismo, conservadorismo e descontentamento econômico. Classificar todos como fascistas é uma redução grosseira da realidade.
Mais importante ainda é perceber que esse raciocínio dispensa a esquerda de fazer qualquer crítica de sua própria política. Se os trabalhadores que votam no bolsonarismo são irremediavelmente fascistas. O problema deixa de ser político e passa a ser um defeito moral da população.
É preciso deixar de lado que Lula governou com Geraldo Alckmin como vice, Simone Tebet no ministério e uma política econômica condicionada pelas exigências dos capitalistas e pelas regras fiscais. A frente ampla, apresentada como barreira ao bolsonarismo, também conteve reivindicações populares. É muito cômodo explicar o crescimento da direita culpando os trabalhadores e omitindo as escolhas de seus dirigentes.
O Partido dos Trabalhadores, que surgiu das grandes greves operárias e chegou a organizar milhões de trabalhadores, terminou governando em aliança com políticos que participaram dos ataques contra os direitos populares. A aproximação com a direita tradicional não impediu a expansão do bolsonarismo, conforme prometeram. Ao contrário, tornou mais difícil apresentar o governo como uma alternativa independente aos interesses da burguesia.
No encerramento, Suppia recorre a Karl Popper e Joseph Goebbels para defender o rompimento com parentes e amigos. Se quatro democratas jantam com um bolsonarista, afirma, os cinco seriam bolsonaristas, o que é absurdo. No lugar de enfrentar organizações reacionárias pela luta política, o professor propõe vigiar a mesa de jantar, o que não deixa der ser uma atitude reacionária.
O enfrentamento ao fascismo sempre dependeu de partidos, sindicatos, greves, mobilizações e organizações de defesa dos trabalhadores. Não foi a exclusão de parentes das reuniões familiares que deteve os movimentos fascistas, mas a capacidade de organizar forças sociais para enfrentá-los.
A esquerda que transforma milhões de trabalhadores em inimigos irrecuperáveis está se rendendo de antemão para a direita. A polarização existe e se desenvolve sobre contradições sociais reais. Substituir a análise de classes por condenações morais, além do moralismo, impede que se explique e se combata bolsonarismo, que vem ganhando força por conta dessa política equivocada da esquerda.





