No artigo Não à transfobia! Solidariedade à deputada federal Érika Hilton!, publicado pela Secretaria Nacional LGBT do PSTU, o partido diz prestar solidariedade à deputada diante de “ataques transfóbicos”, denuncia um “discurso transfóbico” de Ratinho e afirma que “a transfobia, assim como o racismo, o machismo e todas as formas de opressão, alimenta a violência cotidiana”. O problema é que, em nenhum momento, o PSTU se dá ao trabalho de definir do que está falando. O que seria, concretamente, “transfobia” neste caso? Agressão física? Negação de direitos civis? Demissão, perseguição administrativa, impedimento de acesso a serviços? Nada disso é explicado. O rótulo aparece pronto, acabado, absoluto, como arma para encerrar a discussão antes mesmo que ela comece.
E o que houve, afinal, no episódio que o PSTU quer transformar em caso exemplar de “opressão”? Houve uma fala de televisão sobre um tema político: a eleição de Érika Hilton, uma mulher trans, para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara. Ratinho questionou essa escolha e disse que ela “não era mulher, era trans”, defendendo que a presidência deveria ficar com uma mulher cisgênero. Pode-se achar a fala errada, tosca, vulgar ou reacionária. Mas ela foi uma opinião sobre representação política em uma comissão parlamentar, não um chamado à violência, não uma ordem de perseguição, não uma política de cassação de direitos. É exatamente aí que entra o método policialesco: em vez de responder politicamente, o PSTU carimba a divergência como “transfobia” e passa a tratar uma opinião como caso de repressão.
A própria nota do PSTU é reveladora. Ela não debate um milímetro a questão de fundo. Não há uma única linha séria sobre o problema político envolvido na presidência da Comissão da Mulher, sobre o que isso significa para as mulheres, sobre se a composição da comissão deve obedecer a critérios biológicos, identitários, partidários ou programáticos. Nada. O PSTU foge do debate real e se refugia em fórmulas ocas: “repudiamos com firmeza”, “negando direitos básicos”, “combate à transfobia”, “seguiremos lado a lado”. Em outras palavras, substitui argumentação por excomunhão moral. E isso não é acidental: quem não consegue vencer uma discussão tenta interditá-la.
O caso fica ainda mais grave porque a ofensiva não ficou no terreno retórico. Érika Hilton pediu ao Ministério Público de São Paulo a instauração de inquérito policial contra Ratinho e sua autuação por crimes como transfobia, violência de gênero, violência política de gênero e injúria transfóbica. Em paralelo, o MPF ajuizou ação civil pública contra Ratinho e o SBT, pedindo R$ 10 milhões por danos morais coletivos, retirada do conteúdo das plataformas, retratação pública e outras medidas. Desde 2019, o STF enquadra homofobia e transfobia como crimes de racismo, o que abre a porta para sanções penais. Ou seja: não estamos falando de “resposta política” a uma fala; estamos falando do uso do aparelho repressivo do Estado contra opinião e fala pública.
É aqui que a nota do PSTU revela seu conteúdo profundamente antidemocrático. O partido pode não mencionar cada detalhe do processo, mas quando adere sem reservas à tese de que a fala de Ratinho foi “transfobia” e de que isso “reforça a violência” e “legitima a perseguição”, ele assina embaixo do método. Dá cobertura política para que a divergência seja tratada como caso de polícia. Em vez de defender a mais ampla liberdade de opinião e de esmagar o adversário no terreno do debate, o PSTU prefere a via mais podre: transformar dissidência em delito moral e, por consequência, em alvo da máquina judicial. Trata-se da velha polícia de pensamento, agora embrulhada em linguagem “progressista”.
A falsificação é ainda mais escandalosa porque o próprio sentido da palavra “direitos” é invertido. O PSTU posa de defensor dos oprimidos, mas, no caso concreto, joga contra um direito elementar: o de expressar posição política sobre um assunto público. Não é obrigado a concordar com Ratinho. Ninguém é. Mas uma organização que se diz socialista deveria ser a primeira a repelir a criminalização de opinião. Deveria dizer: combatemos essa posição no terreno político, não no tribunal criminal. Deveria defender que ideias erradas sejam derrotadas por ideias melhores, não por promotor, multa milionária, censura de conteúdo e ameaça de prisão. Em vez disso, a nota faz o oposto: celebra o rótulo que serve justamente para esmagar o debate.
No fim, o texto do PSTU é um documento de capitulação ao identitarismo repressivo. Ele pega um tema controverso, que exige discussão política séria, e o reduz a uma palavra mágica — “transfobia” — usada para calar, intimidar e punir. Não explica o conceito, não discute o mérito da questão, não enfrenta o argumento adversário. Apenas amaldiçoa. Isso não é luta política. Isso é patrulhamento ideológico. E um partido que troca o debate pela denúncia moral e pela tutela judicial não está educando a classe trabalhadora para lutar; está ensinando a confiar na censura, na punição e no porrete do Estado.





