Na 54ª edição da Universidade de Férias da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR), realizada no hotel-fazenda Estância Primavera, em Sorocaba (SP), a segunda aula do curso introdutório sobre O Capital, de Karl Marx, tratou do ponto de partida de O Capital, obra mais importante da teoria revolucionária: a análise da mercadoria.
Ministrada por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO, a aula discutiu a respeito do que Marx apresenta logo no capítulo inicial do Livro I: “A riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista apresenta-se como uma imensa coleção de mercadorias”. Esse é o ponto de partida da investigação científica do capitalismo.
Diferentemente das sociedades pré-capitalistas, como a feudal, em que a riqueza se expressava principalmente pela posse da terra e relações de servidão, no capitalismo a mercadoria torna-se a forma universal da riqueza. Embora trocas existissem em todos os modos de produção históricos, somente no capitalismo a produção de mercadorias domina completamente a sociedade e se generaliza.
Pimenta esclareceu que a mercadoria é, antes de tudo, uma coisa externa, um objeto que satisfaz uma determinada necessidade humana. Não importa se essa necessidade é material (como comida ou vestuário), produtiva (máquinas) ou mesmo espiritual (um livro de poemas). O valor de uso da mercadoria deriva de suas propriedades constitutivas e é o que permite que ela atenda a essas necessidades.
A discussão também abordou questões práticas sobre o que constitui ou não uma mercadoria no capitalismo contemporâneo. Um show musical, por exemplo, não se enquadra estritamente na definição clássica de mercadoria (objeto externo tangível), mas o ingresso pago para assisti-lo transforma a experiência em algo mediado pela lógica mercantil. Serviços que não alteram a propriedade de uma mercadoria (como propaganda pura ou administração) não são considerados atividades produtivas no sentido marxista; já o transporte, que efetivamente desloca a mercadoria, é visto como atividade industrial produtiva.
Desse modo, todas as atividades que levam da produção da mercadoria até que ela possa vir a ter utilidade são produtivas, e as demais são improdutivas. Na fábrica de sabonete, por exemplo, todo o trabalho até o produto estar pronto e embalado é trabalho produtivo; atividades posteriores como vendas, marketing e administração são consideradas atividades empresariais não produtivas, apesar de poderem ser importantes para a realização do valor na troca.
Um ponto central da aula foi a demonstração de que toda mercadoria possui duplo caráter: valor de uso e valor de troca. O valor de uso refere-se à utilidade concreta da coisa; o valor de troca é o que permite que mercadorias qualitativamente diferentes (um quilo de comida, um eletrodoméstico, um metal precioso) sejam equiparadas e trocadas.
O que possibilita essa igualdade entre coisas tão distintas? Segundo a explicação, seguindo Marx, é o trabalho humano gasto na produção das mercadorias, medido pelo tempo de trabalho necessário, que constitui a substância comum, a “terceira coisa” que permite a equivalência nas trocas, constituída pelo próprio trabalho. Assim, a troca representa uma igualdade quantitativa baseada no tempo de trabalho incorporado.
Por fim, a aula introduziu a ideia de que o Capital é o trabalho morto acumulado (trabalho já realizado), contraposto ao trabalho vivo, que está sendo realizado. A mercadoria, portanto, não é completa enquanto permanece isolada do processo de circulação e consumo: se o minério urânio extraído no Níger não chega ao mercado mundial, ele não funciona plenamente como mercadoria para a sociedade capitalista.
A segunda aula deu início ao conteúdo do curso como uma base sólida para compreender o funcionamento do capitalismo a partir de sua célula econômica elementar: a mercadoria. O curso sobre O Capital prossegue nos próximos dias, visando oferecer uma introdução acessível à obra fundamental de Marx.
A 54ª Universidade de Férias segue até 25 de janeiro. Ainda é possível participar presencialmente ou na modalidade virtual pela plataforma Universidade Marxista (unimarxista.org.br). Mais informações pelo telefone (11) 99741-0436.




