O ministro Alexandre de Moraes, o magnânimo, depois de muita insistência e reiterados boletins médicos, aprovou o regime de prisão domiciliar para o ex-presidente Jair Bolsonaro, que, no entanto, saindo do hospital, terá direito a uma temporada de 90 dias em casa. Para não perder o hábito, o ministro do STF inovou, criando o regime temporário de prisão domiciliar. Não bastasse a prova de criatividade, o marido da advogada do Banco Master estendeu a punição a qualquer cidadão brasileiro que pense em fazer algum tipo de manifestação, acampamento ou aglomeração num raio de um quilômetro da casa de Bolsonaro, sob a justificativa de manutenção da ordem pública.
A esquerda pequeno-burguesa continua aplaudindo as ações autoritárias de Moraes, como se fossem uma espécie de profilaxia para evitar danos maiores. Está valendo até proibir manifestação. Que aconteceria se pessoas desobedecessem aos ditames do ministro e usassem de seu livre direito de manifestação? Seriam presas por 15 ou 17 anos? Ou estaria implícito que, se fizessem uma manifestação pela revogação da prisão de Bolsonaro na frente da casa dele – ou um acampamento “Bolsonaro Livre” para lhe dar bom-dia todas as manhãs –, a punição recairia sobre o próprio Bolsonaro? Em que lei se baseia o magistrado? Seria bom explicar melhor, se bem que explicar as coisas não é o forte do ministro.
Além disso, à maneira de um bedel de colégio interno, Moraes vai fiscalizar o comportamento do apenado e, havendo algum deslize, revogará o benefício, devolvendo-o ao presídio. Mesmo que se comporte, passados três meses, terá de voltar à cela, a menos, é claro, que piore o seu estado de saúde. Segundo comentaristas ditos progressistas, os boletins médicos são falsos e os médicos são cúmplices de Bolsonaro em uma trama para tirá-lo da cadeia. Pelo sim, pelo não, alguns até aceitam a prisão domiciliar com medo de que a doença seja verdadeira e o homem piore, morra e, definitivamente, vire um “mito” – esse deve ter sido também o cálculo de Moraes, que tem passado por um inferno astral e não está precisando de mais dor de cabeça.
Também vemos gente considerada progressista que faria inveja aos áureos tempos de José Luiz Datena (a propósito, o apresentador, amigo de Guilherme Boulos, foi contratado pela TV Brasil no governo Lula). Muito bem: comentaristas da TV 247 não se cansam de fazer menção aos imerecidos privilégios de Bolsonaro, como estar preso em um apartamento com cama, banheiro e cozinha e ter direito a banho de sol. Só falta usarem os termos de Datena, para quem os presídios eram hotéis com comida de graça. Ao mesmo tempo, a ordem é passar o pano para os ministros do STF envolvidos no rolo do Banco Master. Temos de aceitar que a advogada do banco, que recebeu R$ 80 milhões de um contrato de R$ 129 milhões, não sabia que a dinheirama vinha de falcatruas e que está tudo normal mesmo sendo mulher do ministro que bota gente do povo na cadeia com mão de ferro.
Os intelectuais da esquerda poderiam apresentar ideias menos direitistas. Por ora, só falta exigirem que Bolsonaro fique em cela sem vaso sanitário, que é a suprema humilhação. A punição é a privação de liberdade, não as condições em que se está preso. As condições deveriam ser humanas para todos, o que não parece viável no modelo penitenciário adotado. Os pesquisadores nas universidades poderiam estudar formas alternativas de ressocialização, mas o espírito do tempo parece ser de direita. Até a esquerda se regozija com punição.
Aliás, desde que virou caudatária do identitarismo, a esquerda só pensa em pôr gente na cadeia, aumentando penas e criando crimes simbólicos, de julgamento ultrassubjetivo, para que Catões de araque, sentados sobre o próprio rabo, exerçam sua sanha autoritária. Segundo Moraes, “a Justiça é cega, mas não é tola” – vamos ver até quando.




