Política internacional

A imperialista que Lula apoia para a ONU

Michelle Bachelet, recebida no Planalto nesta segunda-feira, teve papel decisivo na campanha imperialista contra a Venezuela e contra a China

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu, nesta segunda-feira (11), no Palácio do Planalto, a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet. O encontro serviu para reforçar o apoio brasileiro à candidatura dela ao comando da Organização das Nações Unidas (ONU), em substituição a António Guterres, cujo mandato termina no fim de 2026.

O governo brasileiro manteve a indicação mesmo após o governo do ultradireitista José Antonio Kast, do Partido Republicano chileno, retirar o apoio oficial do próprio Chile à candidatura. Lula sustenta o respaldo a Bachelet sob a alegação de que ela reúne “experiência política, liderança internacional e conhecimento interno do sistema das Nações Unidas”.

No entanto, diferente do que afirma Lula, a atuação de Bachelet mostra uma figura integrada às principais operações do imperialismo norte-americano dentro do aparato das Nações Unidas.

O caso da Venezuela

Bachelet ocupou o cargo de Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos entre setembro de 2018 e agosto de 2022. Assumiu o posto no momento em que os EUA preparavam uma ofensiva contra o governo de Nicolás Maduro, que culminaria, em janeiro de 2019, na autoproclamação de Juan Guaidó como “presidente interino” da Venezuela.

Uma das primeiras grandes ações de Bachelet no Alto Comissariado foi a produção de um relatório sobre a Venezuela, divulgado em julho de 2019. O documento foi utilizado como documento diplomático para sustentar as sanções norte-americanas e o reconhecimento internacional de Guaidó pelo bloco imperialista. Em sua visita oficial a Caracas, semanas antes da publicação, Bachelet recebeu Guaidó, dando o aval da ONU ao golpe.

O conteúdo do relatório foi denunciado pelo ex-relator especial da ONU Alfred de Zayas, jurista que havia sido o primeiro representante da organização a visitar a Venezuela em 21 anos. De Zayas classificou o documento como uma coleção de acusações infundadas, baseada em fontes ligadas à oposição golpista, e apontou que o texto omitia o impacto das sanções unilaterais dos EUA. Em estudo anterior, o mesmo De Zayas havia descrito o cerco econômico norte-americano à Venezuela como uma forma contemporânea de sítio medieval.

Ao retirar o bloqueio econômico norte-americano da análise, Bachelet apresentava a crise venezuelana como resultado exclusivo das ações do governo Maduro, oferecendo ao imperialismo a justificativa jurídica para aprofundar o estrangulamento do país.

O governo venezuelano classificou o relatório como “seletivo e abertamente parcial”. A representante da Venezuela no Conselho de Direitos Humanos da ONU declarou que o conteúdo carecia de “rigor científico” e omitia o “bloqueio imoral” enfrentado pelo País.

A operação não se encerrou ali. Nos anos seguintes, sucessivos informes do escritório de Bachelet mantiveram a mesma orientação. Em julho de 2021, em pleno processo de negociação entre o governo bolivariano e a oposição, Bachelet publicou novo documento questionando o “espaço cívico” venezuelano, fornecendo munição aos setores que pressionavam pela retomada da ofensiva externa.

O ataque à China

A atuação contra a Venezuela já indicava o perfil político de Bachelet. Sua intervenção contra a China confirmou o papel que desempenhava dentro da ONU. No último dia de seu mandato como Alta Comissária, em 31 de agosto de 2022, 13 minutos antes do prazo final, Bachelet liberou o relatório do Alto Comissariado sobre a região chinesa de Sinquião.

O documento, intitulado Avaliação do ACNUDH sobre as preocupações com os direitos humanos na Região Autônoma Uigur de Sinquião, acusava a China de “possíveis crimes contra a humanidade” contra a minoria uigur. O relatório retomava denúncias produzidas por institutos norte-americanos ligados à campanha de cerco a Pequim, dando a elas o selo institucional da ONU.

O governo chinês classificou o relatório como uma farsa e denunciou o Alto Comissariado como “acólito e cúmplice do Ocidente”. A própria Bachelet admitiu, em entrevista coletiva, ter sofrido “tremenda pressão” para publicar ou não publicar o documento. Ela publicou.

A divulgação foi celebrada por Human Rights Watch, pelo International Service for Human Rights e por organizações vinculadas ao aparato diplomático norte-americano, que classificaram o relatório como “marco histórico” e passaram a exigir pressão internacional contra Pequim.

A linhagem política

Bachelet pertence a uma corrente bem definida da política latino-americana. Veio do Partido Socialista chileno, mas sua carreira se formou dentro do aparato pós-Pinochet da chamada “transição democrática”, que preservou a Constituição da ditadura e a estrutura econômica neoliberal herdada do regime militar. Governou o Chile em dois mandatos sem enfrentar esse problema.

É a mesma corrente de Gabriel Boric, antigo aliado de Bachelet na política chilena, que rompeu publicamente com a Venezuela e com a Nicarágua sob argumentos de “direitos humanos”. No Uruguai, foi representada por José Mujica em sua aproximação tardia com a oposição venezuelana.

Por isso, Bachelet aparece como um nome adequado para a sucessão de Guterres. O Departamento de Estado norte-americano precisa de uma figura que possa ser apresentada como “latino-americana” e “progressista”, sem oferecer risco à política de cerco contra a Venezuela, a China, o Irã e a Rússia.

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