Na segunda parte deste debate (leia), analisamos o texto Rússia e China na guerra no Irã, de Valério Arcary, publicado no Brasil 247 em 19 de março. Ali, fica claro que Arcary não compreende apropriadamente como funciona o imperialismo governado pelos Estados Unidos, nem o verdadeiro papel de “Israel” e sua mudança de status desde a Guerra dos Doze Dias.
Arcary observa o “o desgaste de Israel depois do genocídio na Faixa de Gaza”, a imprevisibilidade de Trump, mas conclui que “parece improvável que seja possível uma derrubada do regime somente com uma guerra aérea”. Para o autor, “Washington aposta em reabrir negociações com alguma ala do governo em Teerã depois de castigar, impiedosamente, a nação persa”. O que se tem visto, por outro lado, é o Irã respondendo à altura as agressões imperialistas, e isso obrigou o governo americano a mentir, como de costume, e dizer que os iranianos estavam dispostos a conversar, o que foi prontamente rebatido pelos persas.
Adiante, Arcary aventa a hipótese de uma guerra civil deflagrada pela CIA e pelo Mossad, mas isso parece ter sido descartado pela reação do governo aos distúrbios do início do ano, e do apoio massivo da população.
Rússia
Valerio Arcary acredita que a Rússia pode fazer pouco pelo Irã porque anda muito ocupada na Ucrânia, diz que “Teerã terá algum apoio técnico-militar discreto e defesa diplomática, mas não mais do que isso”, mas os países estão trabalhando em conjunto e de forma aprofundada.
Uma das tarefas de Arcary é enfatiza a força do imperialismo e depreciar quem está do lado do Irã. Diz, por exemplo, “enganam-se aqueles que, embalados pela nostalgia da ex-URSS, alimentam ilusões de que a Rússia poderia ser uma ‘retaguarda’ estratégica da luta anti-imperialista. O capitalismo foi restaurado há, pelo menos, trinta anos, e surgiu uma nova burguesia com ambições expansionistas”.
Já que o “capitalismo foi restaurado”, por que o imperialismo agride o país? Por acaso o nacionalismo burguês foi abolido?
Quando o autor fala de “uma nova burguesia com ambições expansionistas”, está tentando vender a ideia antimarxista de que a Rússia seja um país imperialista, além de esconder que a Rússia está em guerra contra a OTAN na Ucrânia como uma medida defensiva.
Arcary segue atacando, diz, “o regime em Moscou, apesar da legalidade de diferentes partidos, não é somente autoritário; é uma institucionalidade que protege um governo Putin de extrema direita”. E diz a besteira de que “a Rússia é um Estado imperialista em posição subalterna”. Ora, se dissesse que a Alemanha, ou a França, sejam países imperialistas em posição subalterna, pois são os EUA que dirigem o bloco, seria aceitável. A Rússia, porém, seria subalterna a quem?
Sua tese é de que a Rússia seja “economicamente mais fraca que os outros três blocos que disputam posições no sistema internacional — os EUA, as potências europeias e a China”. No entanto, a China jamais poderia ser considerada um bloco, é um país que está sendo cercado. As potências os EUA, as potências europeias, e o Japão, estes, sim, compõem um bloco: o imperialismo.
Absurdamente, Arcary diz que “a Rússia utiliza sua potência militar e energética — inclusive a exportação de capitais — para estender sua influência na periferia do sistema internacional, na Europa Oriental, Ásia Central e África”.
Quer dizer que a Rússia anda espalhando bases militares pelo mundo, como faz o imperialismo, por exemplo, no Oriente Médio, para controlar o petróleo? Tem derrubado governos na África para impor governos fantoches e lhes roubar o urânio, ou faz acordos comerciais?
Em um comentário maldoso, mas que o desmente, Valério Arcary diz que “não é marginal que Moscou não tenha acudido à necessidade existencial que Cuba tem de petróleo. O Irã está, também, por sua própria conta”. Ora que espécie de país imperialista seria esse que estaria evitando peitar os EUA?
China
Segundo Arcary, “a China não tem interesse em precipitar confronto com Washington e defende uma imediata desescalada da guerra, que só é possível com concessões de Teerã a Tel Aviv. Tudo até aqui sugere que Pequim não será sequer um obstáculo para que o Irã recue e ceda às pressões de Israel e Washington contra os planos dos Brics”. O Irã não dá o menor sinal de que fará concessões.
Assim como depreciou a Rússia, Arcary se apressa em diminuir a China que, seguramente, está fornecendo dados de inteligência e armamentos para o Irã.
No parágrafo seguinte, lê-se que “Washington mira a China porque é a única nação que, potencialmente, pode ameaçar a hegemonia dos EUA no mundo”. A prova de que a China seja um país imperialista é furada. Mas, Arcary tenta justificar, diz que o “Pequim não é mais somente um importador de capitais e tecnologias”, e que seria “uma potência que defende, aliás, intransigentemente, interesses imperialistas nas relações de troca no mercado mundial com os países periféricos”. Quais exatamente? Não diz, apenas acusa.
Adiante, Arcary passa quatro parágrafos discutindo se a China é, ou não, socialista.
Tudo para concluir que “é certo é que a China não é parte do Sul Global. O que não deve ser um obstáculo para que os países da periferia, como agora o Irã, procurem uma aliança com Pequim contra Washington. Mas a China precisa também querer”.
A conclusão é “genial”: a China, que está sendo cercada pelo imperialismo e ameaçada de destruição, estaria vacilando em aceitar alianças contra seu principal inimigo.
O que chama a atenção no texto, em linhas gerais, além da análise míope, é o modo negativo como encara aqueles que estão em confronto direto com o imperialismo. Isso não surpreende, pois Valério Arcary tem se dedicado a criticar o marxismo e chegou mesmo a convidar a esquerda a passar para o campo das democracias liberais (ou imperialismo) contra o fascismo. Até nisso foi contrariado, pois as ditas democracias estão de mãos dadas com fascista Trump contra o Irã. Outra bola fora de quem assegurou que não haveria golpe em 2016.





