Polêmica

A farsa da democracia norte-americana

A ideia de que nos EUA vigorava um reino da democracia antes de Donald Trump é falsa. Os direitos dos cidadão são afrontados há séculos

Estátua da Liberdade

O artigo Os Estados Unidos contra a democracia — dentro e fora de casa, de Paulo Henrique Arantes, publicado no Brasil247 nesta quarta-feira (4), pinta uma imagem da “democracia interna” norte-americana que não corresponde à realidade.

Arantes inicia seu texto dizendo que “os Estados Unidos eram, até o advento Donald Trump, reverenciados como modelo de democracia interna: dentro do seu território, reinavam a liberdade e a vontade popular, a despeito das injustiças inerentes ao capitalismo. A esquerda que se contrapunha a essa noção era taxada de dogmática, alinhada aos interesses do bloco socialista comandado então pela União Soviética. Há verdade nisso, especialmente no contexto da Guerra Fria, mas aquele tempo acabou”.

Boa parte da esquerda abraçou, e vive difundindo, a ideia de que nos EUA reinava uma democracia e com a subida de Trump ao poder se instalou o fascismo. Essa esquerda, que age apenas quando estimulada pela grande imprensa, persegue o atual presidente norte-americano porque ele mesmo é alvo do imperialismo, que utiliza seus meios de comunicação para atacá-lo. Além de ter feito o possível para tirá-lo da corrida presidencial.

Para o grande capital, Trump não é especialmente mau, apenas que não representa integralmente seus interesses. Dava preferência a Joe Biden, um falcão da guerra, mas a polarização dento da sociedade norte-americana elegeu o candidato que prometia acabar com as guerras e trazer os empregos de volta.

Dito de outra maneira, Trump representa o capital doméstico norte-americano, que vem empobrecendo e perdendo força por ação do grande capital estrangeiro, que apoiava Joe Biden/Kamala Harris.

Visão democratizante

Existe por parte da esquerda a dificuldade de entender esse fator da luta de classes: que ele não age apenas entre as duas classes principais da sociedade: a burguesia e o proletariado. Existem tensões constantes dentro da burguesia, que não é uma classe homogênea. A peculiaridade é que o choque do grande capital se dá contra um setor poderoso da sociedade norte-americana, ainda que mais fraco.

É verdade que a esquerda que desmentia que houvesse democracia interna nos EUA era descrita como dogmática, xiita etc. Ainda hoje, há na esquerda pequeno-burguesa quem acredite que não exista imperialismo, ou que o termo seja muito “anos 60”.

Os setores “anti dogmáticos” são os que hoje defendem a democracia contra o fascismo, encarnado na pessoa de Donald Trump.

É falsa a definição de que “a ideia de democracia modelar norte-americana é derrubada pela total inércia de suas instituições diante do autoritarismo do atual presidente. A nação não possui os tais freios e contrapesos alardeados para coibir os ímpetos fascistas de Donald Trump, tanto que simplesmente não os coíbe ou o faz canhestramente”.

O que temos hoje é que a intensa polarização acabou com as ilusões. O centro foi varrido e não é mais possível fazer média, fingir que há uma democracia.

Todos os governos anteriores a Trump vinham minando os direitos democráticos dos cidadãos norte-americanos. O ataque não é maior porque nos Estados Unidos a população está armada e não vai ser fácil acabar com seus direitos. Mas estes são constantemente assediados. Circulam pelas redes vídeos de policiais interpelando cidadãos norte-americanos por suas postagens na internet contra o sionismo. Ainda não foram feitas prisões, mas isso é questão de tempo.

Os fatos

Na história dos Estado Unidos se encontram várias situações em que os direitos democráticos foram afrontados. Já em 1798, o presidente John Adams sancionou o Alien and Sedition Act, leis que permitiam a deportação de estrangeiros “perigosos”. Criticar o governo por escrito se tornou crime (algo semelhante com o Brasil atual), o que contrariava frontalmente a Primeira Emenda, que garante a liberdade de expressão (freedom of speech) – inclui discurso político, artístico, etc; a liberdade de imprensa (freedom of the press) – protege a imprensa, jornalismo, publicação; o direito de reunião pacífica (peaceable assembly); e o direito de petição (petition the Government for a redress of grievances) – direito de reclamar formalmente ao governo.

O presidente Abraham Lincoln, em 1861, suspendeu o direito ao habeas corpus (o direito de um prisioneiro ser levado diante de um juiz)

Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, Franklin Delano Roosevelt emitiu a Ordem Executiva, que forçou cerca de 120 mil pessoas de ascendência japonesa (a maioria cidadãos norte-americanos) a viver em campos de concentração. Essas pessoas perderam suas casas, negócios e a liberdade sem que houvesse contra elas quaisquer provas de deslealdade.

Durante os anos 1950, o Macarthismo e “Red Scare”, liderado pelo senador Joseph McCarthy, produziu uma onda gigantesca de investigações, perseguições e “listas negras” constra suspeitos de serem comunistas.

Em 2001, o Ato Patriota (USA Patriot Act), logo após o 11 de setembro, expandiu drasticamente o poder de vigilância do Estado, o que praticamente aboliu a Quarta Emenda.

Com o ato, ficam permiticas escutas telefônicas sem mandado; ficou facilitado o acesso a registros privados (médicos, financeiros e de biblioteca); e uma séride de outras arbitrariedades, como o tribunais secretos etc.

Contradição

Arantes, sem se dar conta, apresenta uma contradição no início de seu texto, quando diz que “reinavam a liberdade e a vontade popular, a despeito das injustiças inerentes ao capitalismo”. Onde há injustiças, não há democracia, pois as injustiças só são possíveis quando uma classe privilegiada esmaga e oprime as outras.

Hoje, devido o auxílio da grande imprensa, ficou fácil que Trump destruiu a democracia nos EUA. Porém, quem quiser fazer um contraponto e comparar governos, basta olhar um pouco para o lado no mapa e analisar o que vem acontecendo na Europa democrática.

No Reino Unido, vinte mil pessoas presas por protestarem contra o genocídio na Faixa de Gaza, ou por postagens nas redes sociais. Na Alemanha (mas também em outros países) a repressão contra apoiadores da Palestina é brutal. Nesse país, até pessoas que leem textos marxistas são investigadas, ou estão sob vigilância.

Em diversos países “democráticos” a censura avança a passos largos e jovens estão sendo proibidos de acessar a internet. Se Donald Trump é fascista, a verdade é que não fica devendo nada para os “democratas” e “civilizados” europeus.

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