Polêmica

A eventual soltura de Bolsonaro e os cálculos da esquerda eleitoreira

Jornalista fala da solutura de Bolsonaro, mas seu foco nunca é a justiça, tudo o que faz são cálculos eleitorais, o que realmente importa a essa ‘esquerda’

Bolonaro

E se Bolsonaro for solto? Este é o título do artigo assinado por Moisés Mendes, e publicado no Brasil247 nesta quinta-feira (5). A preocupação do jornalista não tem nada a ver com justiça, tudo o que ele faz é um cálculo eleitoral. Isso fica muito claro desde o primeiro parágrafo, que diz o seguinte:

“O que aconteceria se Lula tivesse um piripaque e fosse solto às vésperas da eleição de 2018? Lembrando sempre que Lula, antes de ser encarcerado por Sérgio Moro e logo depois da prisão, tinha o dobro dos votos de Bolsonaro no primeiro turno e venceria com 17 pontos de vantagem no segundo, segundo o Datafolha”.

Esse primeiro parágrafo está incompleto. Falta esclarecer que Lula também foi preso em um processo-farsa que só pôde ocorrer por influência direta do Supremo Tribunal Federal (STF). O Supremo também votou contra o habeas corpus preventivo do ex-presidente, impediu ilegalmente que Lula concorresse às eleições, impediu também que desse entrevistas, ou mesmo que figurasse no material de campanha de Fernando Haddad.

Bolsonaro não será solto pelo mesmo motivo que Lula não o foi: trata-se de uma prisão política, pois tem chance de vencer e isso não está nos planos da burguesia.

Quanto à segunda pergunta, “o que aconteceria agora, se Bolsonaro fosse libertado no ano da eleição?”, provavelmente o mesmo que fizeram com Lula, seria amordaçado.

Nivelando por baixo

Para Mendes, “soltar Bolsonaro agora não é simplesmente assegurar a um criminoso perigoso o privilégio, que a grande maioria não tem, de desfrutar do convívio com os familiares e os amigos”. Ou seja, já que os presos brasileiros vivem em condições desumanas, não se trata de denunciar essa aberração, mas assegurar que Bolsonaro também não tenha “privilégios”.

Segundo o jornalista, “devem ser consideradas as suas influências e conexões com todo o PL, com outros golpistas ainda impunes e com as estruturas de comando da velha direita, ainda confusa sobre a pré-disputa entre Flávio, Tarcísio e os três porquinhos de Kassab”. Em outras palavras, deve-se impedir que Bolsonaro interfira nas eleições.

Tirando uma conclusão torta, Mendes acredita afirma que “Bolsonaro em prisão domiciliar pode ser a potencialização de um estorvo para a direita e para figuras específicas da sua turma e da família”. Se isso fosse verdade, deveria torcer para que este fosse solto, pois poderia atrapalhar a direita. Supondo que o jornalista apoie Lula.

No mesmo parágrafo, Moisés Mendes questiona: “como poderia Bolsonaro em casa, comendo pão com leite condensado e largando farelo pelo chão, ajudar Michelle na campanha ao Senado, por exemplo?”. O jornalista sabe muito bem que essa coisa de pão e farelo é uma jogada de marketing, e poderia ajudar a esposa de várias maneiras.

O jornalista escreve calmamente que “os pedidos para o entra-e-sai se transformariam num dilema para Alexandre de Moraes. Autoriza a visita de Nikolas, mas nega a de Magno Malta, como fez agora? Libera Kassab, mas impede Valdemar Costa Neto, mesmo que Kassab, o prudente, não vá fazer esse pedido?”. Não são questionados aqui os critérios e os super poderes do ministro que barra uns e libera outros.

A quem interessa?

Segundo Mendes, “Bolsonaro solto não será um inferno apenas para os vizinhos. Pode ser para a Globo, que deseja finalmente neutralizá-lo, para buscar uma alternativa, um Ratinho que seja, porque quem não tem gato caça com rato”. Quer dize que a prisão de Bolsonaro interessa à Globo? E a quem mais?

Na metade do artigo, Mendes aborda aquilo que realmente é o tema de seu artigo: as eleições. Diz que “pesquisa Datafolha publicada em 16 de abril de 2018 mostrava um primeiro turno com Lula com 31% e Bolsonaro com 15%. No segundo turno, Lula tinha 48% e Bolsonaro, 31%.” E que “essa pesquisa saiu nove dias depois de Sérgio Moro encarcerar Lula em Curitiba”.

Adiante, escreve que “no Datafolha publicado em 8 de dezembro do ano passado, Lula tinha 41% e Bolsonaro, 29%, no primeiro turno. No segundo turno, Lula teria 49%, contra 40% de Bolsonaro”. E completa dizendo que “em todas as pesquisas feitas com Lula preso e agora com Bolsonaro na cadeia, Lula sempre venceu, em 2018 e em 2025. Não houve uma pesquisa, uma só, que mostrasse Bolsonaro na frente de Lula”.

Porém, como diz a sabedoria popular, o silêncio pode falar mais que mil palavras; e, não sem motivo, o jornalista até o momento evitou citar uma pessoa: Flávio Bolsonaro. O filho de Jair Bolsonaro, que já pode ser considerado pré-candidato, começa a incomodar nas pesquisas.

Não adianta desdenhar e dizer que “Bolsonaro dispersa e divide, dentro da própria família, como prova a guerra entre Michelle e Flávio, Malafaia e Flávio e entre Eduardo e Tarcísio pelo espólio do presidiário”. Há quem diga que os Bolsonaros preferem perder com Flávio do que vencer com Tarcísio.

Essa suposta decisão não é tomada sem um propósito, podem preferir esperar mais quatro anos do que entregar seu capital político nas mãos de um candidato que não deve a eles nenhuma lealdade. No mais, ser fiador de um presidente com a missão de aprofundar políticas neoliberais pode ser uma péssima ideia.

No último parágrafo, Mendes escreve que “o melhor para todos eles é deixar Bolsonaro preso. O melhor para Lula é que Bolsonaro seja solto e provoque um grande estrago na direita e na extrema direita”. Se é assim, parece que em breve veremos o jornalista fazendo campanha para a soltura de Jair Bolsonaro. Resta saber se ele leva realmente a sério isso que escreveu.

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