Nem o mais desleal dos vices merece o tratamento do governo a Alckmin, artigo de Mario Victor Santos publicado no Brasil 247 nesta quinta-feira (12), mostra a completa adaptação de setores da esquerda à direita. Na prática, trata-se de uma esquerda tucana que, empurrada pela situação política, acabou, em determinado momento, apoiando o Partido dos Trabalhadores (PT).
O articulista diz, no olho do texto, que “nunca houve um vice-presidente tão celebrado da boca para fora pela fidelidade e ao mesmo tempo tão descartável como Geraldo Alckmin” e que “alguém poderia dizer que o exemplo de lealdade ao longo de Lula 3 não é suficiente para lhe garantir uma vaga na chapa presidencial para a eleição deste ano. Ocorre que a exclusão de Alckmin, além de retribuir respeito com rasteira moral, o que em si é condenável, é evidente miopia eleitoral”.
Fica difícil cobrar retribuição se, recentemente, Lula disse que a libertação de Nicolás Maduro e Cília Flores não é prioridade. Quando Lula esteve preso, o presidente venezuelano denunciou a prisão política e ilegal do petista, exigindo sua libertação.
De odiado a querido
Geraldo Alckmin nunca foi querido pela base petista. Como governador de São Paulo, aplicou ataque após ataque aos trabalhadores, sobretudo em categorias como a dos professores, massacrados pela política de arrocho salarial e truculência contra manifestações.
Alexandre de Moraes, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) queridinho da “esquerda”, foi secretário de Segurança Pública de Alckmin e se notabilizou, entre outras coisas, por reprimir estudantes secundaristas.
A indicação de Alckmin foi muito mal vista no eleitorado e na base petista. A aproximação do vice foi feita por setores direitistas, como o Prerrogativas, e o acordo foi fechado por cima, o que causou grande mal-estar. Nesse sentido, Lula ganhou a eleição apesar de Alckmin. Passados esses quase quatro anos, tentam pintar o vice de Lula como algo desejável, ou, mais exatamente, como algo útil.
Tudo isso mostra que de esquerda restou muito pouco nessa gente, que se limita a fazer cálculos eleitorais.
Negociações…
Segundo Santos, “Alckmin sinaliza para todo o espectro político a disposição petista de negociar e compartilhar para governar. Sua presença foi e continua a ser estratégica para atrair apoios e votos preciosos do contingente de 10% do eleitorado indefinido, ‘independente’, de centro-direita e não petista. Um apoio que pode ser definidor numa eleição que se anuncia apertada em 2026 como foi há quatro anos”. No entanto, existe a possibilidade de o PT querer negociar e compartilhar ainda mais.
Essa possibilidade não está descartada, visto que o governo Lula adotou posições reacionárias com relação à Venezuela, como o não reconhecimento da vitória de Nicolás Maduro e o veto à entrada do país no BRICS.
O articulista diz que “errou o presidente Lula ao dar impulso à disputa pelo posto de vice com a declaração de que Alckmin tem um papel a cumprir em São Paulo”, mas faria melhor se tivesse dito que Lula errou ao escolher Alckmin como vice. Porém, como tudo pode piorar, Mario Victor Santos sustenta que “nunca se viu um casamento, como Lula faz questão de dizer, tão perfeito, mas cuja primeira cláusula é o divórcio”.
Mais negociações…
Indo para o final do texto, o articulista diz que “vendo a chance ou sendo estimulado, até parcela do MDB também se apresenta ou é cogitada para a vice de Lula”.
Após ensaiar uma dança das cadeiras entre Fernando Haddad (que não deixa de ser tucano) e Alckmin, com a possibilidade de os dois abandonarem a carreira política, Santos lembra que “a questão traz à tona o tema da idade de Lula. Permite especulações sobre a antecipação da sucessão do presidente ocorrer preventivamente já agora. Nessa perspectiva, o tempo se encurta, 2030 ocorre já em 2026”.
Em tempo, Santos diz que “para haver um pós-Lula precisa antes haver um Lula vitorioso neste ano. E para isso, Alckmin será fundamental. Haddad, mesmo com sua imensa folha de serviços, não soma numa chapa com Lula novos contingentes de votantes. Nem sinaliza a amplitude política necessária na disputa pelo eleitor mais ao centro que será também buscado pelo bolsonarismo, em seu afã de derrotar Lula e retornar ao Palácio do Planalto”.
Faltou nos cálculos do articulista considerar outro fator: a burguesia. A cada dia se comprova a tese de que, para o imperialismo e o grande capital, vale o seguinte lema: “nem Lula, nem Bolsonaro”. Este último foi tirado do jogo com a intervenção sempre solícita do STF que, quando solicitado, ou ordenado, também colocou Lula na cadeia.
Nesse sentido, o editorial do Estadão desta quinta-feira (12), A guerra permanente de Lula, é bastante feroz. Em seu primeiro parágrafo, por exemplo, lê-se:
“No discurso que fez na recente festa de aniversário do PT, em Salvador, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avisou a militância que a próxima eleição presidencial, na qual tentará seu quarto mandato, será ‘uma guerra’. Portanto, considerem-se avisados aqueles que, incautos, ainda acreditam na farsa do ‘Lulinha paz e amor’ – personagem fictício cujo falecimento, aliás, foi comunicado pelo próprio Lula, na mesma ocasião.”
O “melhor”, no entanto, deixaram para o final, quando afirmam: “a democracia não vai acabar se Lula perder a eleição. Mas o Brasil certamente será um lugar consideravelmente pior se ele ganhar”.
Claro que o conceito de democracia para esse jornal, que apoiou todos os golpes de Estado no Brasil, é o de uma ditadura das classes dominantes. Ainda assim, importa observar, no editorial, o grau de animosidade de um setor da burguesia que já mostra os dentes.





