Editorial

A esquerda que quer ver o Irã dominado pelos Estados Unidos

Erika Hilton expressou a falência total da política da esquerda pequeno-burguesa brasileira

Os Estados Unidos e “Israel” atacaram uma escola primária no Irã e assassinaram 165 crianças. A esquerda brasileira não moveu um dedo para condenar. Ocupada em classificar regimes segundo os critérios de “direitos humanos” criados pelas ONGs de George Soros e pelas fundações do imperialismo norte-americano, chegou à conclusão de que o Irã oprime mulheres e a comunidade “LGBTQIA+”. Logo, é um regime “bárbaro”.

O que “Israel” e os Estados Unidos fazem é crime também, claro, mas os dois lados são igualmente condenáveis. O mundo está “muito louco”, a análise política é “muito difícil”, tudo é “muito complexo”. E no fim, ninguém toma partido de ninguém.

Essa posição, da defesa abstrata do ser humano, não é uma posição de esquerda. É a ausência de uma posição política de verdade sob pretexto do humanismo barato.

A entrevista da deputada Erika Hilton ao jornalista Breno Altman ilustra esse problema com muita clareza. Perguntada sobre de qual lado deveria estar a esquerda no conflito entre a coalizão EUA-“Israel” e o Irã, Hilton respondeu: do lado dos direitos humanos, da dignidade humana, da democracia, da soberania. Perguntada se participaria de uma manifestação de solidariedade ao Irã, disse que precisaria pensar, que é preciso cuidado, que não dá para ignorar “a realidade iraniana”. Perguntada sobre quem é o principal inimigo dos direitos humanos nesse conflito, respondeu: “nossa, difícil, né”.

“A gente tem que estar do lado da dignidade humana das pessoas, porque todo mundo tá sofrendo. Os iranianos que estavam ali diante de um regime bárbaro, um regime extremamente bárbaro, agora não podem ser entregues à mão dos Estados Unidos. Precisam ter soberania, precisam ter suas próprias legislações respeitadas, precisam conseguir eleger um representante que as represente de fato de uma maneira digna.

Então eu acho que essa disputa e essa discussão, ela é uma discussão muito delicada, bastante delicada, mas nós precisamos estar do lado dos direitos humanos. Nós precisamos estar do lado das pessoas que sofrem, que sofrem nas guerras, que sofrem com regimes autoritários, que sofrem com regime que oprime mulheres, comunidade LGBT, etc.”, disse a parlamentar do PSOL.

Hilton tem ao menos coerência. Por não ter uma formação propriamente esquerdista, não domina a técnica de esconder posições direitistas com vocabulário de esquerda. Disse claramente o que pensa: defende o ser humano em abstrato. Não defende ninguém em concreto.

O mesmo raciocínio aparece quando a parlamentar compara o Hamas ao PCC. É uma comparação caluniosa. O Hamas é uma organização que defende seu povo contra um genocídio, é o principal representante do povo palestino. É, em última instância, o próprio povo palestino. Compará-la a uma organização criminosa é a coisa mais grotesca que se pode dizer sobre a questão da Palestina. Quem faz essa comparação não defende a Palestina, faz uma choradeira sentimental. Lamenta as mortes, condena a “barbárie”, e no momento de apoiar quem efetivamente resiste ao genocídio, recua.

O Irã foi o único grande país que tomou medidas concretas para defender o povo palestino. Apoiou as organizações da resistência quando todo o restante do mundo olhava. Foi por isso, e não por nenhuma ameaça nuclear, não por nenhuma provocação, que se tornou alvo da agressão militar dos Estados Unidos e de “Israel”. A questão da bomba atômica é um pretexto. O próprio Khamenei havia vetado qualquer programa nuclear armado. E mesmo que não tivesse: nenhum país tem o direito de ditar a outro se pode ou não desenvolver determinada tecnologia, muito menos os países que já possuem o arsenal mais destrutivo da história.

O assassinato de Khamenei é um crime aberrante. Era um líder religioso, o maior expoente do islamismo xiita no mundo, o Papa do mundo islâmico. Foi morto num bombardeio à sua residência, junto com sua mulher, seus filhos e seus netos. Parcelas da imprensa elogiaram o assassinato. O espírito de Gaza, de que matar crianças é uma coisa boa, tomou conta desses veículos burgueses novamente.

Diante disso, tomar partido é obrigação fundamental de qualquer esquerda. Quando alguém está lutando contra o imperialismo, é preciso apoiar essa luta. As divergências políticas com esse alguém são sempre secundárias em relação à luta principal. Apoiar o povo iraniano “mas não o regime que está lutando contra o imperialismo” não é uma posição de princípios, é uma forma sofisticada de não apoiar nada.

O identitarismo é hoje um dos principais obstáculos para que a esquerda desenvolva uma posição consequente diante da ofensiva imperialista. Enquanto a esquerda se perde em abstrações sobre “dignidade humana” e cataloga regimes pelo critério das ONGs de Soros, crianças continuam morrendo no Irã e em Gaza, e os assassinos continuam sem encontrar resistência à altura.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.