Na última segunda-feira (5), o portal Esquerda Online publicou um artigo intitulado Quem é Delcy Rodrigues, a nova presidenta da Venezuela?, assinado pelo historiador Gibran Jordão. A peça, após muito falar sobre uma suposta “ordem mundial baseada em regras”, um termo de origem norte-americana que justifica a política imperialista para intervir em países que não adotam a subordinação total ao imperialismo, começa a ressaltar o papel da vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez.
“A agressão militar promovida pelos EUA sob o comando de Trump contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nícolas Maduro e Cilia Flores é a expressão máxima de que já estamos vivendo num mundo do vale tudo!”
Essa primeira citação já é demonstrativa da total falta de noção política do artigo, quando o genocídio na Palestina está em curso já há mais de dois anos. Mas continuando, a matéria passa a um destaque desproporcional da vice-presidente, como se esse fosse o aspecto central da situação na Venezuela. De fato, é isso que parece ser o objetivo político da matéria. Comentando sobre o ataque à Venezuela, diz o Esquerda Online:
“É nesse momento de altíssima tensão que Delcy Rodriguez assume a presidência da Venezuela com o aval da suprema corte e da cúpula das forças armadas.”
Na sequência, uma breve biografia de Delcy, pela qual se deduz quase como se os principais acontecimentos da Venezuela fossem todos organizados por ela, colocada num plano superior ao próprio presidente Nicolás Maduro. Falando sobre quando esteve no Ministério das Comunicações:
“O seu ministério ajudou a consolidar o ecossistema de mídia estatal do país, especialmente a Telesur, o seu comando à frente do ministério das comunicações foi crucial para a sobrevivência dos primeiros anos do governo Maduro.”
Depois sobre quando esteve no Ministério de Relações Internacionais:
“Delcy Rodriguez opera o aprofundamento das relações com a China e a Rússia e inicia a negociação de uma arquitetura financeira para permitir que a Venezuela possa sobreviver economicamente às sanções e estabelecer acesso aos sistemas de pagamentos alternativos construídos por Moscou e Pequim.”
Então, comenta sobre uma lei econômica que Delcy teria aprovado quando estava no Ministério da Economia. E logo repete a colocação inicial pouco depois da breve biografia da vice:
“É nessa situação de altíssima gravidade da ordem mundial que Delcy Eloína Rodrigues Gomes assume a liderança do governo da Venezuela e do processo em curso da revolução bolivariana.”
Aqui, vale dizer o seguinte: nesse momento, Delcy Rodríguez não está à frente da revolução bolivariana em curso. Ela está ocupando em parte a posição deixada por Nicolás Maduro, mas não da mesma forma. O papel de Delcy “à frente” do país é o de reivindicar e mobilizar sua população pelo retorno do presidente legítimo Nicolás Maduro Moros, o ponto central na situação política do próprio país, como se vê pelas mobilizações em toda Venezuela.
A questão política central na Venezuela não é uma manutenção de Delcy Rodríguez no governo. Em grande medida, isso é até mesmo irrelevante, contanto que os representantes da revolução bolivariana se mantenham na direção do regime político do país, com o aval do povo mobilizado e armado. O ponto é a oposição total ao imperialismo, que atacou o país e sequestrou Nicolás Maduro.
O Esquerda Online busca empossar a vice quando ela mesma declarou publicamente que o único presidente legítimo da Venezuela é Nicolás Maduro. O artigo chega a querer colocar Delcy como responsável pela economia venezuelana, pela TeleSur, pelas relações exteriores do país que têm tradição com a Rússia e a China. É absurdo. Delcy é colocada como responsável única e máxima pelo apoio popular ao bolivarianismo na Venezuela (!):
“…números da economia venezuelana apresentaram no período de 2020 à 2025 uma evolução muito positiva, confirmando que a condução da política econômica sob o comando de Delcy Rodrigues foi acertada para derrubar a hiperinflação e recuperar o apoio popular ao governo Maduro e ao processo de revolução bolivariana.”
Dando sequência à deturpação da realidade que visa secundarizar Nicolás Maduro, o Esquerda Online afirma:
“A maior prova disso é que na atual agressão imperialista contra a Venezuela, o que nós estamos vendo nas ruas não é uma massa apoiando o sequestro de Maduro, mas sim, um amplo repúdio anti-imperialista com mobilizações massivas nas ruas de várias cidades, incluindo a capital Caracas.”
As massas não apoiam o sequestro de Maduro, elas demonstram “amplo repúdio anti-imperialista”. Ora, elas demonstram de fato é apoio total a Nicolás Maduro, mas o artigo oculta este fato de maneira que chega mesmo a ser caricata. Continuando:
“Delcy Rodrigues assumiu a presidência da Venezuela numa situação muito delicada, e provavelmente é o momento histórico mais difícil da trajetória do chavismo, suas declarações até agora como líder máxima do processo de revolução bolivariana bate de frente com as declarações de Trump que em coletiva de imprensa após o sequestro de Maduro disse com todas as letras que os EUA ‘irão governar a Venezuela até uma transição’. Segundo declarações da nova presidenta da Venezuela em rede nacional a principal frase que circulou por todas as redes e televisões do mundo é ‘A Venezuela jamais será colônia de qualquer império ou nação’, além disso ela exigiu a liberdade imediata de Maduro e Cilia Flores e convocou a população e as autoridades a defenderem a nação e seus recursos naturais.’”
Em primeiro lugar, o país está em pleno processo revolucionário, a oposição está desmoralizada, apesar da gravidade da situação, não se pode dizer que é o momento mais difícil do chavismo. Em segundo lugar, a declaração de Delcy Rodríguez que mais “bate de frente” com as declarações de Trump é a declaração em que afirma que Nicolás Maduro é o presidente legítimo da Venezuela. Essa declaração, no entanto, o portal oculta. A que interesse isso serve?
Novamente, na conclusão do artigo, levantam as palavras de ordem:
“Todo apoio a Delcy Rodriguez, presidenta da República Bolivariana da Venezuela!
Liberdade para Maduro e Cilia Flores!”
Uma palavra de ordem sequer levantada na Venezuela, onde toda a população clama pela libertação e retorno de seu presidente, sem esconder o que apoiam. O povo venezuelano quer Nicolás Maduro, o imperialismo sequestrou Nicolás Maduro, e o movimento e a mobilização em defesa da Venezuela deve ter por eixo central uma consigna: todo apoio a Nicolás Maduro Moros.





