Israel Dutra, dirigente do Movimento Esquerda Socialista (MES), corrente do PSOL, publicou em 30 de outubro, na Revista Movimento, o artigo Lutar e vencer no “terceiro turno”. A reeleição de Lula seria um “levante democrático na forma eleitoral”, um “salto na consciência popular” e o começo de uma nova etapa da luta política. Enquanto o governo negocia com a direita e oferece garantias aos banqueiros, Dutra promete direitos para um futuro.
O dirigente chama a votação de “maior das vitórias de Lula”. O presidente obteve 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, após terminar o primeiro turno atrás do candidato do PL. O partido bolsonarista aumentou sua bancada de 99 deputados, eleitos em 2022, para 121 em 2026; o PT passou de 68 para 70. Lula quase perdeu, e a direita saiu fortalecida. Onde está o salto na consciência popular?
Milhões votaram em Lula para impedir Flávio e isso não significa adesão ao PT, muito menos ao socialismo. A direita continua forte, e o governo procura conciliar com ela.
A contradição é evidente na discussão sobre a maioridade penal. Camilo Santana, líder petista no Senado, propôs reduzir de 18 para 16 anos a idade de responsabilização criminal em crimes hediondos. O PL pretende atingir adolescentes de 14 anos em determinados casos. A mudança não foi aprovada, mas uma parte da direção petista incorporou uma reivindicação da direita. Que vitória contra o fascismo é essa em que os vencedores se aproximam dos derrotados para ampliar a repressão contra a juventude pobre?
Na economia, o entusiasmo vem dos banqueiros. Ana Botín, presidente do Santander, elogiou as “demonstrações importantíssimas de confiança para os mercados” oferecidas por Lula, especialmente a independência do Banco Central. A medida, aprovada sob Bolsonaro e preservada pelo PT, retira do governo eleito o controle direto da política monetária e protege os interesses financeiros. A banqueira não teme a alegada virada popular.
Dario Durigan, ministro da Fazenda, quer modificar as regras para ampliar os bloqueios de despesas em 2027. O governo pode atualmente cumprir a meta com superávit de R$ 36,6 bilhões, mas Durigan pretende perseguir o centro de R$ 73,2 bilhões, permitindo conter gastos mesmo dentro da margem legal. A proposta depende do Congresso, mas a orientação está anunciada: mais austeridade enquanto Dutra promete saúde e educação.
Até o fim da escala 6×1 vacila. O STF discute a pejotização, pela qual patrões podem contratar trabalhadores como pessoas jurídicas, afastando proteções da CLT. Paulo Gonet defendeu a ampliação desse tipo de contrato. Se essa orientação prevalecer, patrões poderão contornar a nova proteção sobre a jornada.
Dutra admite que “a burguesia e setores do governo” querem manter o ajuste. Apresenta, contudo, o problema como um conflito que acontecerá depois, com uma classe trabalhadora supostamente mobilizada. Os cortes e as garantias aos bancos são atuais; enquanto a resistência popular aparece apenas como previsão.
Dutra festeja sua “fuga” de Flávio Bolsonaro e não menciona que, às 21h16 de 25 de outubro, a Polícia Federal já havia solicitado a apreensão de seus passaportes. Eram apenas sete minutos depois da confirmação matemática da vitória de Lula pelo TSE. Alexandre de Moraes autorizou a medida naquela noite, e Flávio deixou o Brasil posteriormente. Chamar o episódio simplesmente de fuga serve para esconder uma vergonhosa perseguição política.
Dutra exige que o governo utilize as instituições para “sufocar setores declaradamente golpistas”. Sua receita entrega o combate político à PF, ao STF e aos demais aparelhos repressivos do Estado burguês. Se esquece que os poderes policiais que hoje atingem um político de direita serão usados amanhã contra grevistas, sindicatos e organizações populares. O dirigente do MES, porém, cobra maior atuação justamente dessas instituições.
O PT, entretanto, negocia com o PL. A direita seria perigosa demais para exercer seus direitos políticos, mas aceitável como parceira parlamentar. O combate ao golpismo não é obstáculo para acordos com os denunciados na campanha.
Na parte sobre mobilização, Dutra proclama: “É rua, rua e rua!”. Descreve multidões e uma classe trabalhadora cheia de confiança. Mas os atos convocados pela UNE para 1º de novembro não reproduziram as concentrações da campanha, e a entidade sequer divulgou uma estimativa geral de participantes. Não apareceu a imensa onda de mobilizações que o dirigente apresenta como fato consumado.
Por que o chamado às ruas ganha tanta importância só depois da eleição? O PT passou os últimos quatro anos no governo, sustentando juros elevados, limites para despesas públicas e acordos com a direita. Onde estavam as mobilizações nacionais permanentes por salários, jornada menor e serviços públicos, que agora seriam tarefas prioritárias? A esquerda institucional concentrou esforços na eleição; depois da votação, pede aos trabalhadores que lutem por promessas que o governo já ameaça descumprir.
Dutra também descreve o PSOL como a “trincheira das ruas” e comemora ter superado a cláusula de barreira. O que ocorreu foi mais simples: a Federação PSOL-Rede alcançou 1,49% dos votos para deputado federal no Espírito Santo, abaixo dos 1,5% exigidos em nove estados. Em 27 de outubro, o TSE decidiu arredondar o resultado para uma casa decimal. Assim, o partido conservou o Fundo Partidário e o tempo gratuito no rádio e na televisão.
A cláusula de barreira é antidemocrática. Mas Dutra celebra a decisão favorável sem combater o poder da Justiça Eleitoral sobre os partidos. Uma canetada de ministros virou, no seu artigo, uma vitória do crescimento popular. O PSOL parece descobrir os males da interferência judicial apenas quando ela contraria seus interesses.
Também é curiosa a defesa da independência partidária. Guilherme Boulos ocupa a Secretaria-Geral da Presidência, enquanto Erika Hilton, Natalia Boulos e Rick Azevedo negociam a mudança do PSOL para o PT. A direção exige acordos para fornecer cartas de anuência e ameaça recorrer à Justiça Eleitoral para preservar mandatos. Enquanto Dutra anuncia uma organização anticapitalista voltada às ruas, as correntes do partido disputam ministérios, cadeiras parlamentares e posições no governo.
A mesma confusão aparece na política internacional. Dutra sugeria que a derrota de Trump nas eleições legislativas dos Estados Unidos inclinaria o mundo contra a extrema direita. Os democratas conquistaram o controle das duas casas do Congresso. Mas nem por isso deixaram de ser um partido do imperialismo, responsável por guerras e pelo apoio ao sionismo.
Ao final, Dutra anuncia: “A disputa do futuro começou”. É sempre assim. Depois de anos de conciliação do PT com a burguesia e de integração do PSOL ao aparelho estatal, promete-se uma nova fase: primeiro vencer as eleições, depois derrotar o golpismo, depois assegurar a governabilidade e, finalmente, organizar as massas. A ruptura com os capitalistas é adiada indefinidamente.
Os trabalhadores, porém, precisam defender seus interesses, e por isso se afastam da esquerda eleitoreira. O futuro anunciado por Dutra não enfrenta os ataques do presente. Enquanto a esquerda pequeno-burguesa promete a próxima etapa, a burguesia segue governando nesta, e contra a classe trabalhadora.





