Polêmica

A esquerda ‘Financial Times’

Enquanto russos e chineses prestam solidariedade efetiva através de investimentos e suporte diplomático direto, o governo brasileiro escolheu o distanciamento

O deputado federal Reimont Otoni (PT-RJ) publicou recentemente no portal Brasil 247 um artigo intitulado 2026, hora de arregaçar as mangas e traçar o futuro. No texto, o parlamentar traça um panorama de otimismo para o próximo pleito, ancorado no que chama de “avanços fabulosos” do governo Lula e no reconhecimento de veículos da imprensa financeira internacional, como o jornal britânico Financial Times. No entanto, esse esforço de propaganda esbarra em uma contradição imediata: o deputado tenta projetar a imagem de um Brasil consolidado como “grande Nação” enquanto, na prática, o país assiste passivamente ao esfacelamento da soberania sul-americana diante da intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela.

Logo no início de seu texto, Otoni cita o aval do Financial Times como um indicativo de sucesso para a esquerda em 2026. Essa celebração em torno da chancela da imprensa financeira internacional revela a confusão do autor. É preciso perguntar: o que, exatamente, o capital estrangeiro está aplaudindo? A suposta “aposta” do jornal britânico na reeleição de Lula não é um reconhecimento de um bom governo para o povo, mas sim o reconhecimento de que o presidente não foi um obstáculo significativo para o grande capital.

O otimismo do mercado financeiro é lastreado na manutenção das privatizações herdadas de governos anteriores, na aprovação de uma Reforma Tributária que preserva o lucro dos capitalistas, e na convivência pacífica com a autonomia de um Banco Central que dita a taxa de juros no País. O “bom momento” saudado pelo Financial Times é, na verdade, a constatação de que o governo brasileiro optou por não polarizar, tornando-se, por consequência, um ator previsível e inofensivo no cenário sul-americano. É essa passividade que permite ao governo Lula assistir, sem reação, à intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, uma vez que qualquer gesto de soberania real colocaria em risco a “nota de boa conduta” emitida pelos órgãos imperialistas.

Otoni afirma que o governo brasileiro “luta pela paz mundial” e classifica a agressão dos Estados Unidos contra a Venezuela como “inadmissível”. Entretanto, essa ideia ignora a responsabilidade direta da diplomacia brasileira no isolamento do país vizinho. Ao vetar a entrada da Venezuela nos BRICS em 2024, o Brasil retirou do governo venezuelano o escudo que uma aliança com grandes potências globais ofereceria. Diferente da Rússia e da China, que mantêm cooperação estratégica e financeira com o Estado venezuelano, o Brasil optou por uma neutralidade que, na prática, facilitou o cerco norte-americano. Enquanto russos e chineses prestam solidariedade efetiva através de investimentos e suporte diplomático direto, o governo brasileiro escolheu o distanciamento. O resultado é que a “paz” defendida por Reimont e pelo Itamaraty serviu apenas para desarmar a resistência regional, sinalizando aos Estados Unidos que a soberania da América do Sul não era uma prioridade inegociável para o líder do principal país do subcontinente.

Por fim, o parlamentar convoca a militância a eleger um “Congresso Amigo do Povo” em 2026, sugerindo que a “consciência do voto” será suficiente para mudar a correlação de forças em Brasília. Entretanto, essa tese ignora que a desmobilização popular é uma escolha consciente da atual gestão. Não é possível eleger um legislativo progressista enquanto o governo federal governa “a frio”, privilegiando acordos de cúpula com os inimigos do povo em detrimento da agitação das bases sociais. Ao abdicar de politizar as massas e evitar o confronto com os capitalistas, o governo torna o “Congresso Amigo” uma miragem eleitoral.

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