No artigo Bad Bunny, uma das vozes culturais mais importantes do nosso tempo, publicado por Sara York no Brasil 247 neste domingo (22), lê-se que “Benito Antonio Martínez Ocasio, o homem por trás do nome artístico, não ocupa o centro da cultura pop por acaso. Ao protagonizar o Halftime Show do Super Bowl, o espetáculo televisivo mais assistido dos Estados Unidos, não suavizou sua origem nem cedeu à expectativa de tradução cultural. Cantou em espanhol e transformou o palco em território simbólico porto-riquenho e latino-americano. Emergindo do entretenimento a uma afirmação identitária em escala global — um exemplo foram os vídeos de canadenses falando o nome de suas cidades com sotaque latino que gritavam nas redes sociais”.
Há coisas que a cultura identitária, por ser liberal, preza muito, como o sucesso e as “posições de mando”, ou “posições de poder”. O Super Bowl movimenta bilhões de dólares, e ninguém vai acreditar que um artista que se apresente ali vá fazer algo que contrarie o capital. A indústria gosta de territórios, especialmente os “simbólicos”, são inofensivos. E, parecer rebelde, aliás, é bom para os negócios.
Uma apresentação, de repente, vira uma coisa colossal, pelo menos para York, que afirma que “diante de milhões, [Bad Bunny] mostrou que não é preciso traduzir-se para caber. Esse gesto, aparentemente simples, deslocou a lógica histórica segundo a qual o sucesso internacional exige diluição cultural e fragmentação do desejo inicial”. – grifo nosso.
Para a articulista, “a imagem final da apresentação condensou essa postura [a de que não é preciso traduzir-se para caber]. Ao evocar a ideia de América de forma ampliada, com bandeiras e símbolos que extrapolam a noção restrita de Estados Unidos, a performance tensionou discursos exclusivistas e nacionalismos fechados”. Quem a lê, fica com a impressão de que está havendo uma verdadeira revolução; mas, no mundo real, o americano não é contra a deportação de imigrantes. Pode discordar dos métodos e quais grupos devem ser deportados.
Na maior parte do artigo, Sara York tenta focar na questão política. Quanto ao que o artista faz, a qualidade de suas músicas, praticamente não se toca nesse assunto, e deveria, já que se trata de arte.
Arte e política
Para fazermos um contraponto sobre arte e política, e tomando como exemplo a Comuna de Paris, alguns artistas como o poeta Paul Verlaine, e o pintor Gustave Coubert, tiveram importante participação política, mas a fama dos dois resulta, principalmente, da qualidade de suas obras. Verlaine chegou a fazer parte do governo comunal, enquanto Coubert pegou em armas para defender a Comuna.
Não se trata aqui de debater se a arte deve ser engajada, apenas que o fazer artístico precisa ter excelência, sobreviver ao tempo, como os dos artistas citados, e Bad Bunny não parece ser o caso.
Verlaine influenciou artistas como Rimbaud e Mallarmé. Coubert, com sua pintura, questionou o idealismo romântico e influenciou tanto o impressionismo quanto o expressionismo. A importância desses artistas não se deve apenas porque apoiaram a Comuna, pois houve grandes artistas que se opuseram, ou criticaram, os communards.
York, tentando atribuir importância ao cantor, sustenta que “sua música e seus gestos públicos reiteram solidariedade a populações historicamente silenciadas. Em letras e performances, aborda migração, desigualdade, orgulho latino e autonomia corporal. Ele demonstrou apoio à comunidade LGBTQIA+ de forma consistente, incorporando temas de liberdade e dissidência em sua estética, mesmo não mirando distância de outras discussões. Suas posições não operam na chave da neutralidade confortável, mas na chamada à implicação”.
Bad Bunny, no entanto, é criticado por seu silêncio sobre Gaza. Muitos ativistas cobram que seja mais explícito e direto para condenar o genocídio na Faixa. O que seria lógico, dado que o cantor ganhou visibilidade por liderar protestos políticos em seu país.
A decisão tem seus custos, quem resolveu enfrentar a indústria cultural foi punido. Atrizes como Melissa Barrera, Susan Sarandon, Rachel Zegler, ou foram demitidas, ou sofreram ameaças. A Paramount, por exemplo, é acusada de manter uma lista negra que coloca artistas fora de seus quadros por se posicionarem a favor da Palestina, alegando genericamente que seriam “antissemitas”.
Observando o panorama, e o que foi dito acima, fica estranho, e demasiado, afirmar de Bad Bunny que “a sua rebeldia não soa calculada, em um tempo em que muitos artistas preferem a neutralidade estratégica ou uso de pautas para ascensão, ele escolhe a exposição e o posicionamento”.
Penduricalhos
Sara York, no decorrer do artigo, falando do show, se detém em temas secundários, ou até mesmo irrelevantes, como as “casitas”, que ela chama de “proposta estética”. Diz que a casita “não é apenas cenografia ou um puxadinho (…) é uma intervenção simbólica no desenho tradicional do espetáculo. Inspirada na cultura porto-riquenha dos encontros domésticos, das festas na varanda e das celebrações comunitárias (…) descentraliz[a] o foco exclusivo da área premium, [e] tensiona a hierarquia espacial que historicamente associa proximidade física ao poder aquisitivo”. Depois do “território simbólico”, temos agora a “intervenção simbólica”.
Como seu viu, não é nada; apenas uma jogada de marketing que tem gerado frustração em quem pagou mais pelo ingresso. O que obriga York a fazer uma defesa da medida. Diz que “do ponto de vista cultural, a decisão desloca a pergunta fundamental. O valor do show está no preço do assento ou na experiência de partilha? Ao criar um momento íntimo para quem tradicionalmente permanece distante do palco principal, Bad Bunny reconfigura a economia simbólica do concerto”. Para quem desembolsa uma grana para ver um show, não tem isso de “economia simbólica”. Sim, existe também a “economia simbólica”.
Por enquanto, mais um
A articulista diz que Bad Bunny, “não é apenas um ícone cultural, ele se torna um resultado de uma mudança mais profunda sobre o papel social do performer. Popular e politicamente consciente, massivo e identitário, ele demonstra que a arte pode ser, ao mesmo tempo, espetáculo e estrutura de transformação. E o público, atento, percebe quando a coerência não é marketing, mas convicção”.
Até o momento, e considerando seu silêncio em temas sensíveis, como a Palestina, Bad Bunny é apenas mais um, dentre muitos, artistas que passaram pelo Super Bowl e ajudam a movimentar a indústria cultural. Nada ali se parece com “estrutura de transformação”, são apenas negócios.





