Venezuela

A esquerda ‘antitrumpista’ trumpista

MRT, embora tente fazer um discurso radical, assim como Trump, quer a saída do governo Maduro, o que se opõe frontalmente à vontade popular

Aperto de mãos

O artigo Trump ameaça presidenta interina da Venezuela e exige acesso irrestrito a petróleo, publicado no sítio Esquerda Diário nesta segunda-feira (5), é mais uma demonstração da colaboração do Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT) com o imperialismo. Enquanto Trump ataca pela direita o governo venezuelano, o MRT ataca pela esquerda.

Segundo o artigo, “a presidente interina, por sua vez, saiu com uma postagem nas redes sociais que parece ignorar a gravidade do ataque e parece mostrar um esforço de se mostrar ‘dócil’ frente a tamanha agressão imperialista”.

Adiante, o artigo declara que eles, da Corrente Revolução Permanente – Quarta Internacional, se colocam “decididamente no campo militar da Venezuela, do qual o chavismo é parte de forma inconsequente, na defesa da nação oprimida, pela derrota militar dos Estados Unidos”. Ou seja, o chavismo, que derrotou a política neoliberal, e que armou a população, seria inconsequente.

Apesar de latir alto, ficam dóceis com o imperialismo na declaração que publicam, onde dizem que fazem “oposição de esquerda aos governos Chávez e Maduro, denunciando seu caráter de conciliação com a burguesia e suas políticas cada vez mais autoritárias, repudiando, ao mesmo tempo, qualquer frente com a direita golpista e pró-imperialista venezuelana”.

Como se vê, o governo sofre ataque tanto de Trump quanto do MRT. Esse grupo, que se diz filiado à Quarta Internacional, ignora as palavras de Trótski, que deixou muito claro que entre uma democracia imperialista e um Estado atrasado fascista, os revolucionários deveriam apoiar este último. Onde fica a conciliação de classes quando um governo se coloca em armas contra o grande capital internacional?

Para o MRT, “diante da crise econômica na Venezuela, causada pela queda no preço do petróleo, o embargo imperialista que sofre o país, dentre outros fatores, o governo Maduro passou a aplicar nos últimos anos um brutal ajuste fiscal contra a classe trabalhadora e o povo pobre do país – ajuste este que Delcy Rodríguez foi uma das artífices –, o que resultou na desmoralização da base social desse governo; o que também abriu espaço para a invasão imperialista”.

O grupo ignora os efeitos das sanções econômicas impostas pelo imperialismo à Venezuela. Poderiam cobrar o governo por não aprofundar a revolução e expropriar a burguesia como forma de proteger a Venezuela. Em vez disso, que o governo “abriu espaço para a invasão imperialista”. Essa é uma acusação vergonhosa. Lembra aqueles policiais que acusavam mulheres de serem molestadas porque vestiam roupas provocativas.

Frente com o imperialismo

Embora tente parecer muito radical, o MRT, assim como o governo Trump, não reconheceu a eleição de Nicolás Maduro. Apesar do conhecido complô da oposição, que deu lugar a um “Nobel da Paz” à traidora María Corina Machado. Em um artigo intitulado A luta por um polo independente de Maduro, da direita e do imperialismo, publicado em 11 de agosto de 2024, esse grupo escreveu que é importante mencionar que Edmundo González e María Corina tinham declarado à meia-noite de domingo que não estavam a convocar manifestações. É por isso que os protestos de segunda-feira, 29 de junho, foram muito espontâneos e tiveram lugar em locais considerados bastiões do chavismo, como o populoso bairro de Petare, onde os tachos e panelas soaram bem alto, mas também onde a repressão foi mais duramente sentida.

Essa é uma atitude criminosa, pois é sabido que a violência foi devidamente comprada e orquestradas pelos capachos dos EUA no solo venezuelano. Ainda assim, o MRT tratou de sair em defesa desses vende-pátria.

Contradição

O MRT, em um ato falho, escreve que “diante da nova doutrina de segurança nacional dos EUA, que inclui a recolonização total da América Latina, é necessário travar uma luta encarniçada, permanente, classista, de todos os setores populares e oprimidos, contra a potência estrangeira que procurará derrubar os governos que não estejam alinhados, roubar as nossas riquezas e quebrar a nossa resistência”. – grifos nossos.

Ora, se o Maduro foi sequestrado é justamente porque seu governo não estava alinhado com os interesses dos EUA. Portanto, se opor a esse governo é se alinhar com a política americana. Que “luta encarniçada” é essa que coincide com os principais inimigos da Venezuela e da classe trabalhadora.

A ação foi toda no sentido, e declaradamente, de muda o regime. O MRT foi pego na própria contradição. Não consegue esconder que está, na verdade, fazendo frente com o Trump e o imperialismo.

De nada adianta fazer um discurso supostamente radicalizado, chamando a classe trabalhadora de todos os países a se levantarem. De nada adianta falar em “defesa da Venezuela e do povo venezuelano” e ao mesmo tempo atacar o governo que, aliás, está sendo amplamente apoiado nas ruas justamente pelo povo. Neste momento, atacar o governo é atacar o povo e se aliar ao inimigo.

É preciso desmascarar esses discursos supostamente radicalizados, pois tentam esconder a capitulação diante do grande capital internacional.

A política do “estamos contra todos e a favor do povo” não passa de uma falácia, um radicalismo barato e capitulador.

A única saída revolucionária é exigir a imediata libertação de Nicolás Maduro, sair às ruas única e tão somente contra o imperialismo. É preciso sair às ruas para somar forças para que o governo dobre a aposta contra os agressores e que confisque de vez a burguesia e aprofunde a revolução.

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