Polêmica

A emancipação da mulher só virá com a classe trabalhadora

Não se pode separar a luta das mulheres da luta geral dos trabalhadores. Apenas a derrota da burguesia poderá por fim à opressão feminina

Mulheres na Comuna

O artigo O ‘não’ das mulheres é perigoso, de Vera Iaconelli, publicado na Folha de S. Paulo nesta segunda-feira (26), inicia utilizando o Irã como exemplo de violência contra a mulher, e para isso utiliza um caso comprovadamente falso.

No primeiro parágrafo se lê que “nossa sociedade tem sido baseada no consentimento das mulheres, fazendo do ‘não’ feminino algo inaceitável. O levante das iranianas contra a morte da jovem Mahsa Amini, em 2022, por causa de seu véu, não foi capaz de convulsionar o Irã como a atual crise econômica. Foi a quebra da economia que fez os comerciantes se levantarem contra o regime”.

Masha Amini não morreu por ter sido espancada. Um vídeo divulgado nas redes mostra a jovem conversando na delegacia.

Vera Iaconelli sugere que a sociedade é machista, pois a morte de Amini não convulsionou a sociedade como a crise econômica. Mas é aqui que as duas coisas se conectam.

A crise econômica no Irã foi causada por uma corrida contra a moeda, além de décadas de bloqueio econômico. O imperialismo, nos dois casos, infiltrou agentes da CIA e do Mossad para provocar distúrbios e tentar desestabilizar o regime.

Iaconelli, se estivesse de fato preocupada com as mulheres iranianas, deveria denuncia o bloqueio, pois isso tem afetado a vida das mulheres no Irã. Aliás, nesse país as mulheres representam 60% das pessoas com formação universitária.

Apoio a Pahlavi?

A articulista escreve que “o mesmo grupo que apoiou a ascensão do aiatolá Ali Khomeini e suas leis ultramisóginas nos anos 1970 se juntou a outros descontentes, tomando as ruas contra o atual governo de Ali Khamenei. Jovem morta por véu mal posicionado é ok, falta de grana não”. Por acaso essa senhora preferia a ditadura sanguinária, o governo fantoche de Reza Pahlavi?

Um governo que joga o povo na miséria e manda as riquezas para potências estrangeiras ajuda às mulheres em quê? O bloqueio econômico imperialista, ajuda ou atrapalha à emancipação feminina?

No terceiro parágrafo, Iaconelli sustenta que “para sustentar o prédio da subordinação feminina, sempre ameaçado de ruir, criamos um tipo de feminilidade hegemônico: mulher bela, recatada e do lar. O que se traduz por: aquela que agrada, obedece e cuida. Agradar e obedecer são os pontos que os incels e os red pills não cansam de exigir de suas supostas candidatas. Para a feminilidade que eles defendem, com a qual algumas mulheres se identificam, a subalternidade é o centro”.

Desta vez, sem avisar, a autora pula do Irã para o mundo “democrático”. E, logo após criticar o cuidado, o elogia. Diz que “a questão do cuidado (…) é de outra ordem. Ela é condição da civilidade que ainda nos resta e promove laços entre mulheres de diferentes crenças e posições políticas. Do exercício do cuidado emerge um sujeito mais afeito à intimidade e à reflexão sobre a própria vida. No mínimo, alguém que não vê o homicídio como a melhor solução para conflitos”.

A exigência de que as mulheres cuidem dos filhos, dos maridos, dos parentes, da casa etc., é que as coloca em uma posição subalterna. Uma das reivindicações da esquerda e justamente que o Estado construa creches, cozinhas e lavanderias comunitárias para libertar a mulher dessa escravidão.

Com relação aos “laços entre mulheres de diferentes crenças e posições políticas”, onde estão os protestos pelos bombardeios em massa contra mulheres palestinas? Onde está a solidariedade com Cília Flores? Cadê os protestos contra os bloqueios econômicos contra a Venezuela, Irã, Cuba, Afeganistão, etc., que prejudica a vida de milhões de mulheres?

Identitarismo

Há outro parágrafo que é preciso rebater, o que diz que “para quem acha que os predicados femininos e masculinos são imutáveis, vale dizer que essa crença é a própria definição de ideologia: supor natural o que é construção humana. As definições de mulher e homem variam a depender da época, do território, do povo, mas, no mundo das narrativas invertidas, nas quais a própria linguagem está sob ataque, quem reflete criticamente sobre gênero faz “ideologia de gênero”. (Enquanto isso, e por mérito da comoção que se seguiu à série “Adolescência”, o Reino Unido torna obrigatória a discussão sobre misoginia e consentimento dentro das escolas.)”.

Os identitários têm utilizado a suposta variação do que seja masculino e feminino para apagar as mulheres e suas lutas. As mulheres são as mais prejudicadas com essa ideologia de direita. Até o direito de mulheres terem banheiro privativo está sendo questionado. Aquelas que contestam essas posições são chamadas de “feministas radicais” ou “radfems”.

Ilusão

Vera Iaconelli diz que “quando a mulher diz “não”, ela não está apenas se indispondo com o companheiro, com o amigo, com o chefe. Ela está colocando água no angu do capitalismo”. Isso não passa de ilusão. As mulheres só podem dizer não a partir do momento que se emanciparem. Bastasse dizer não e Lisístrata já teria colocado abaixo o patriarcado na Grécia Antiga.

Segundo diz Iaconelli, “o trabalho invisível das mulheres serve de apoio para que os demais trabalhadores possam ser explorados, assunto que a esquerda costuma driblar. ‘Ter uma mulher’ é ter alguém que assume todas as tarefas que, de outra maneira, o homem teria que assumir: lavar, passar, cozinhar, cuidar dos filhos, transportá-los, cuidar dos idosos, dos enfermos. Luta de classe sem emancipação feminina é mais um dos tentáculos da misoginia”.

Apenas uma esquerda atrasada pode ignorar que as mulheres são parte da classe trabalhadora. Antes de ser “misoginia”, ignorar a emancipação das mulheres é desconhecer a própria história do movimento operário. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que a emancipação de qualquer setor oprimido da sociedade está diretamente ligada à emancipação da classe trabalhadora como um todo.

Para libertar as mulheres da opressão é preciso, antes, derrotar a buguesia, o imperialismo.

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