Neste dia 28 de abril, a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) divulgou uma matéria de uma série de reportagens feita conjuntamente com o Jornal GGN, “que busca analisar por dentro do Sistema Financeiro Nacional”, cujo título é “Por que a economia cresce, mas o dinheiro não sobra?”.
Logo no primeiro parágrafo, a matéria afirma que “os dados e tabelas mostram que o Brasil passa por um momento econômico bastante positivo, com queda do desemprego e aumento da renda média. Entretanto, para muitas famílias, a sensação é de que a conta simplesmente não fecha” (Site Contraf-CUT, 28/04/2026).
Analisando a afirmação acima, para nós, trabalhadores, é bom ressaltar que não é que, para muitas famílias, a “sensação é de que as contas não fecham”; na verdade, as contas não fecham mesmo.
No Brasil, há milhões de brasileiros lutando para sobreviver com empregos péssimos e salários que mal acompanham a inflação. O que se vê, na realidade, é que o governo federal, pressionado pelos banqueiros nacionais e internacionais e pelo imperialismo, dá mais atenção a agradar o mercado financeiro do que a efetivamente enfrentar os problemas do País.
Enquanto o desemprego “diminui” no papel, o aumento da informalidade, dos trabalhos temporários e da baixa remuneração evidencia que a melhora é ilusória para quem sofre o peso do custo de vida.
Para se ter uma ideia do problema, em nove estados brasileiros, o número de famílias que recebem o Bolsa Família é maior do que o de trabalhadores com carteira assinada. No Brasil, somos 48,8 milhões de trabalhadores com emprego formal e 18,9 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa Família. Se o benefício do Bolsa Família atende todos os membros das famílias beneficiadas, esses números superam os trabalhadores de carteira assinada, atingindo 49,2 milhões de pessoas. E aí, somando os números aproximados de pessoas na informalidade, segundo dados da Pnad Contínua do IBGE, de 38,5 milhões, verificamos que a situação no Brasil não é nada boa para o trabalhador.
A matéria da Contraf continua com um novo subtítulo: “Quando os dados não enchem o prato”. Segundo o diretor adjunto do DIEESE, Vítor Pagani, “esquece os manuais que mandam apenas ‘cortar o cafezinho’. Em 2026, a educação financeira tornou-se uma ferramenta bruta de sobrevivência. As famílias brasileiras operam hoje sob uma ‘estratégia de guerra’”. (Idem)
A matéria, depois de constatar que as famílias estão endividadas até o pescoço, tendo que cortar gastos com serviços essenciais e alimentação, que não têm de onde mais cortar, e de tentar justificar que, com o “advento das bets, totalmente desreguladas, e que provavelmente contribuíram para o aumento dessa situação de endividamento das famílias, sobretudo das famílias mais pobres” — a gente fica pensando o que passa na cabeça desse pessoal que culpa o jogo do bicho para justificar a pobreza das pessoas, sendo que metade do orçamento nacional vai parar no bolso dos banqueiros e especuladores financeiros —, no final, dá dicas práticas de sobrevivência financeira, afirmando que a “educação financeira individual é um passo importante, mas ela não faz milagres diante de um sistema desenhado para concentrar renda”. Mesmo dando essa justificativa esfarrapada, dá a dica de que o “foco deve ser a soberania alimentar e as contas que geram interrupção de serviço (água, luz e gás). A alimentação da família e a manutenção do teto são inegociáveis”, de que “o endividamento no rotativo ou cheque especial é insustentável, buscar linhas como o consignado ou o novo ‘Crédito do Trabalhador’ é o caminho”, etc. e tal.
O que nos chama atenção, em relação à matéria divulgada num órgão de uma categoria de trabalhadores, é que a receita para os trabalhadores, em especial para os bancários, não difere das receitas propagandeadas pelos capitalistas. Quem já não se cansou de ver e ouvir os tais economistas dos grandes órgãos de imprensa capitalistas que, todos os dias, repetem que os trabalhadores devem cortar da própria carne devido “à situação da crise econômica”, para encobrir a política da burguesia de superexploração da classe trabalhadora?
O que nos chama mais atenção ainda é que a categoria bancária se prepara para mais uma campanha salarial, cuja data-base é em setembro, e, em vez de as direções sindicais começarem uma campanha para arrancar dos patrões as suas reivindicações, como, por exemplo, as perdas salariais que passam de 27%, isso sem falar no aumento do piso salarial da categoria que, na época do famigerado governo de FHC, nos anos de 1994, era de quatro salários mínimos e hoje é de apenas dois, divulgam matéria sugerindo que os trabalhadores devem se educar financeiramente e cortar ainda mais suas despesas.
Os trabalhadores vêm sofrendo ataques sistemáticos, a cada dia, contra as suas reivindicações e seus direitos elementares, através das demissões em massa, do arrocho salarial, da terceirização, do fim das aposentadorias etc. Uma entidade de classe tem obrigação e o dever de defender os interesses dos trabalhadores e travar uma verdadeira guerra contra os seus algozes através de grandes mobilizações, além de armar politicamente as suas bases contra os seus inimigos de classe, e não tergiversar sobre o que realmente está em jogo nas próximas lutas que estão por vir.


