Leonard Boff, em meio a essa guerra de agressão que o Irã sofre pelas mãos de EUA-“Israel”, publicou um artigo intitulado A guerra não pode ser humanizada, tem que ser cancelada, publicado no sítio A Terra é Redonda, publicado nesta terça-feira (10). Na verdade, os persas estão sendo agredidos conjuntamente também pela Austrália, Itália, França, Alemanha e Reino Unido – praticamente a OTAN.
O texto é aberto pela frase “A guerra moderna já não distingue combatentes de civis; humanizá-la é ilusão, cancelá-la é a única ética possível diante do genocídio”. Boff se apressa a dizer que a frase do título não é de sua autoria, mas de “Bertand Russel e de Albert Einstein em seu manifesto de 9 de julho de 1955 contra os perigos de uma guerra nuclear e pela paz”. Boff completa dizendo que “esse é o grande anseio da humanidade, sempre frustrado e sempre de novo renovado. Sem essa utopia pela qual lutamos para que seja viável, não pode ser nunca abandonada, pois seria cinismo face às vítimas das guerras e decersão de qualquer sentido ético”.
O Manifesto Russel-Einstein foi escrito quando tanto a União Soviética quanto os Estados Unidos possuíam a Bomba H. Os cientistas que assinaram o documento temiam que os efeitos da contaminação radioativa extinguisse a vida na Terra, caso houvesse uma guerra atômica. No documento é feito um apelo à racionalidade, pois não haverá vencedores nesse tipo de guerra.
A questão é que o imperialismo não é movido pela racionalidade, mas por uma necessidade: a de manter seu controle sobre os mercados e recursos planetários.
Guerra abstrata
Um dos problemas do texto de Leonardo Boff é que tende a fazer uma crítica abstrata às guerras, por isso não vai ao ponto. Dizer que “toda guerra sacrifica milhares e até milhões de pessoas. Ela condena Caim que matou seu irmão Abel” não diz muito, pois há guerras e guerras.
O autor explica que “Max Born, prêmio Nobel de física (1954) denunciou a prevalência da matança de civis na guerra moderna. Na primeira guerra mundial morriam só 5% de civis, na segunda guerra, 50%, na guerra da Coreia e do Vietnã 85%. E dados recentes davam conta de que contra o Iraque e a ex-Iugoslávia 98% das vítimas eram civis.O mesmo está ocorrendo na guerra de Bemjamin Netanhyau contra os palestinos da Faixa de Gaza. Mais de 18 mil eram crianças que nada tinham a ver com a guerra foram sacrificadas”, essa explicação, porém, é limitada.
O massacre na Faixa de Gaza não é obra de um homem, os sionistas, assim como estamos vendo contra o Irã, foram auxiliados pelos Estados Unidos, pelo Reino Unido, França… os palestinos lutaram contra o imperialismo, isso precisa ser dito.
Quando Boff escreve que “não basta ser pela paz. Temos que estar contra a guerra. Toda guerra, em si, mata vidas de outros, nossos semelhantes. Caim não pode triunfar”, remete a uma figura bíblica, a luta fica abstrata, temos que devolvê-la ao presente, nosso inimigo não é Caim, mas o imperialismo. Caso contrário, vamos ficar lutando contra pessoas: Trump, Netaniahu, Bolsonaro… e deixamos de lados os “democratas”, os representantes do grande capital financeiro, os verdadeiros responsáveis.
Sem entender o que seja o imperialismo, a luta de classes, se cai em conjecturas confusas que alegam que “o fenômeno da guerra apresenta-se tão complexo que nenhuma resposta o explica ou é suficiente”. Ah, sim, respostas, e daí a importância do materialismo histórico, do marxismo, para se analisar a política e atuar sobre ela.
Ação política
Quem vê as guerras de modo abstrato cai em questionamentos fáceis de resolver por meio do materialismo histórico. Um socialista jamais se questionaria se “um país é agredido por outro, que fazer? Tem direito de se defender com forças defensivas?”. Isso já está respondido desde o início. É claro que tem o direito. E não apenas isso, a esquerda não tem que questionar o tipo de governo do país que está lutando contra o imperialismo, tem que apoiar.
Quanto à pergunta “como devem se comportar os governantes dos povos que assistem o genocídio a céu aberto como na Faixa de Gaza?”, é preciso, na verdade, criticar, denunciar, o que estão fazendo. As democracias europeias, os Estados Unidos, a Austrália, todos estão reprimindo brutalmente quem se manifesta contra o genocídio. Não apenas isso, estão participando.
Quem observa a realidade não se confunde se questionando se “vale alegar o princípio da não intervenção em assuntos internos de Estados soberanos e assistir, passivos, a crimes contra a humanidade? Qual é o limite da soberania? É absoluta? Está acima do humano que pode ser sacrificado?”
Quando o imperialismo interveio em outros países para promover o bem em vez de cometer crimes contra a humanidade? Ou alguém vai acreditar que a invasão ao Irã tinha como objetivo defender as mulheres? Esta agressão contra o Irã, sem qualquer motivo ou provocação é um crime contra a humanidade em seu sentido mais completo.
Enquanto potências atômicas (EUA, “Israel”, França, Reino Unido) estão agredindo um país sem esse tipo de armas, Leonardo Boff está preocupado em “como reagir ao fenômeno difuso do terrorismo que, eventualmente, pode ter acesso a materiais atômicos, ameaçar toda uma cidade, pondo-a de joelhos. E se for lançada, inviabilizaria toda a cidade por causa da radioatividade. Contra isso é legítima uma guerra preventiva?”. – grifo nosso.
O curioso é quem recebe o carimbo de terrorismo é justamente quem contraria ser dominado pelos verdadeiros terroristas. Boff deve se lembrar, o Iraque foi acusado de tentar produzir uma arma nuclear, depois mudaram a acusação, de que seriam armas de destruição em massa, e utilizaram essa mentira para invadirem o país “preventivamente” e matarem diretamente mais de um milhão de pessoas.
A agressão ao Irã é vendido como pela grande imprensa? Uma gerra preventiva.
Enumerações
Em vez de defende logo quem está sendo oprimido, Boff diz que “são questões éticas que ocupam mentes e corações nos dias atuais. Para não desesperar temos que pensar”. Enquanto uns pensam, o Irã está sendo agredido e precisa reagir, entrar em uma guerra de vida ou morte. O Irã não escolheu a guerra, ela foi até ele.
Ficar enumerando tipos de guerras e pedir que “façamos um juízo ético sobre estas posições: nas condições atuais toda guerra representa altíssimo risco, pois dispomos da máquina de morte, capaz de destruir a humanidade e a biosfera.” E que “a guerra é meio injusto, por ser globalmente letal”, francamente, apenas paralisa e retarda a reação.
No final, Boff diz que “a guerra não é solução para nenhum problema. E então “devemos buscar um novo paradigma, à luz de São Francisco de Assis, de Leon Tolstói, de Gandhi e de Luther King Jr, se não quisermos nos destruir”. Certo, é bonito pensar assim, mas a guerra já está em andamento, é um fato concreto, não um ato abstrato de vontade. Se quisermos impedir guerras futuras, temos que vencer agora. Derrotar o imperialismo é o único caminho seguro para a paz.




