No dia três de janeiro, mesmo dia em que o presidente da Venezuela Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores foram sequestrados em Caracas e levados a Nova Iorque por soldados norte-americanos, o jornal O Globo publicou um editorial sobre o assunto.
Apesar de parecer condenar o crime cometido pelos EUA, no entanto, a preocupação do jornal é em garantir que a campanha de que a Venezuela é uma ditadura continue a todo vapor, o que se tornou difícil de provar devido à imensa mobilização da população venezuelana e mundial.
A matéria se inicia com um trecho curioso:
“Não faltariam motivos para os venezuelanos celebrarem a queda do ditador Nicolás Maduro.”
O enunciado do editorial vem de um dos grupos de comunicação que passaram os últimos dois anos escondendo o genocídio contra o povo palestino por parte de um governo ocupante que possui um regime de apartheid. Qual seria, portanto, a preocupação com essa suposta ditadura na Venezuela?
A matéria também não se ancora na realidade, visto que todos com acesso a internet podem ver a mobilização dos venezuelanos, incluindo membros da pequena oposição do país, se manifestando contra os bombardeios dos EUA e o sequestro de Maduro e sua esposa, como é possível ver nos vídeos abaixo.
O texto continua com falsas preocupações do Globo:
“Ele consolidou o regime bolivariano como autocracia corrupta, subjugou Legislativo e Judiciário, sufocou a imprensa profissional, fraudou as últimas eleições para se manter no poder, foi incapaz de recuperar o PIB venezuelano da queda de mais de 70% durante o chavismo (estima-se que mais de metade da população viva em pobreza extrema) e é com frequência citado como violador contumaz de direitos humanos — a última missão da ONU constatou em dezembro um ‘padrão de uma década de mortes, detenções arbitrárias, tortura e violência sexual’ dirigidas contra opositores do regime. Nada disso, contudo, pode servir de justificativa à incursão dos Estados Unidos que o depôs. Trocar Maduro por um futuro incerto não trará alívio ao povo venezuelano.”
É interessante que o jornal era apoiador da ditadura militar no Brasil, que cometia todos esses supostos crimes do governo bolivariano. No entanto, as acusações não encontram nenhum embasamento real. As gigantescas manifestações provam que o governo tem apoio popular e a oposição, por mais criminosa que seja, anda livremente nas ruas.
É importante destacar que a chamada oposição nada mais é do que grupos fascistas muito piores do que os bolsonaristas brasileiros. Ninguém foi preso na Venezuela nem mesmo após as violentas guarimbas que queimaram pessoas vivas, nem mesmo após Juan Guaidó se autoproclamar presidente sem sequer ter passado pelas eleições e Maria Corina Machado, que participou de um golpe de Estado de verdade em 2002, jamais foi presa. Sendo assim, casos menores como possíveis pichações com batom em estátuas não levaram ninguém para trás das grades.
É interessante notar, no entanto, como a opinião da Globo é o que guia muitos dos grupos ditos de esquerda no Brasil, como o PSTU e a UP, como é possível ver no parágrafo a seguir:
“A incursão americana também abriu um precedente perigoso ao estimular pretensões imperiais de outras nações sobre territórios soberanos. É caso da Rússia, que invadiu a Ucrânia com base em argumentos falaciosos. Poderá, no futuro, ser o caso da China, que até hoje considera Taiwan uma província rebelde e jamais escondeu a intenção de reintegrá-la a seu território. Para Trump, tudo isso pode ser irrelevante. Para o resto do mundo, não é.”
Segundo o jornal, que é praticamente um porta-voz da política norte-americana no Brasil e que jamais ligou para a o imperialismo, o problema do sequestro de Maduro seria que países com “pretensões imperiais” como Rússia e China poderiam agir em defesa própria.
O PSTU vem defendendo desde o começo da operação militar russa na Ucrânia que a Rússia e a China são países imperialistas, opinião próxima à da UP, como podemos observar em uma polêmica publicada recentemente no DCO e que pode ser acessada aqui.
A opinião é de um cinismo inacreditável. O Globo apoiou a invasão do Iraque, do Afeganistão, o genocídio em Gaza, os bloqueios econômicos contra Cuba, Venezuela, Irã e Síria e inúmeros golpes de Estado organizados pelo imperialismo, mas diz se preocupar com a operação russa contra a entrada da Ucrânia na OTAN, o que representava um risco existência para a Rússia, e às pretensões da china de recuperar o território de Taiuã, que o próprio direito internacional do imperialismo confirma como sendo parte da China.
O texto continua:
“Quanto aos venezuelanos, seu destino é incerto. Trump afirmou que os Estados Unidos “governarão o país até uma transição segura, criteriosa e adequada”. Questionado sobre detalhes, não descartou o envio de soldados, embora não haja tropas americanas em solo venezuelano e, mesmo sem Maduro, chavistas mantivessem controle sobre instituições e infraestrutura. Trump disse contar com apoio da vice-presidente Delcy Rodríguez, que afirmou “supor ser agora presidente”. Num pronunciamento em rede nacional, contudo, Delcy o desmentiu. Declarou que Maduro continuava a ser o único presidente e conclamou o povo venezuelano a resistir à investida americana. A líder da oposição e vencedora do Nobel da Paz, María Corina Machado, celebrou a queda do ditador e disse que o poder deveria ser assumido pelo vencedor legítimo das eleições de julho, o diplomata Edmundo González. Trump descartou, porém, qualquer liderança de María Corina num futuro governo. “Seria difícil, ela não conta com o apoio nem com o respeito de todo o país”, afirmou.”
O destino dos venezuelanos não é incerto. O controle do país continua nas mãos do governo chavista, fortemente apoiado pela população do país. O parágrafo, inclusive, prova como tudo o que o jornal vem dizendo sobre a Venezuela é falacioso, já que, por que o governo de Maduro teria fraudado as eleições contra o grupo de Maria Corina Machado, se o próprio governo dos EUA, seu principal aliado, admite que ela e Edmundo González não têm o respeito e o apoio dos venezuelanos?




