Política internacional

A crise do imperialismo exige o uso explícito da força bruta

O imperialismo utilizou a força contra a Venezuela, este é apenas um capítulo da escalada armamentista de uma Terceira Guerra que não é para o futuro, já está em curso

Explosão em Kiev

No artigo Donald Trump – geopolítica da barbárie, publicado nesta terça-feira (20) no sítio A Terra é Redonda, Erick Kayser sustenta que a recente agressão militar na Venezuela por Donald Trump representa um novo e perigoso marco nas relações internacionais.

O artigo é separado em três partes. Na primeira, o fim da diplomacia e o uso da força bruta, o autor argumenta que o sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, representa o fim do multilateralismo e da diplomacia tradicional. Para Kayser, essa ação substitui a política pelo “imperativo da força bruta”, inaugurando o que ele chama de “geopolítica da barbárie”.

Logo de início, Kayser diz que “o ano de 2026 começou com uma agressão militar dos EUA contra a Venezuela, fato inédito no continente sul-americano. O imperialismo, palavra que teve jornalista liberal viralizando tempos atrás afirmando que era um termo ‘cafona’ da esquerda brasileira, volta à ordem do dia e reaparece no debate público”.

O fato pode ser “inédito” no sul do continente, mas o imperialismo já interveio militarmente em Granada e no Panamá e, sendo assim, a palavra imperialismo nunca poderia ter “saído de moda”.

No mesmo parágrafo, o autor diz que “ainda é cedo para apontar quais os possíveis desdobramentos desta violação da soberania venezuelana pelos EUA, mas é certo que seu desfecho significará mudanças profundas na Venezuela”. Na verdade, essas mudanças já vêm acontecendo, o governo Maduro armou a população e a ação militar radicalizou ainda mais o apoio ao chavismo, colocando a oposição golpista em defensiva.

Kayser faz uma ressalva, diz que não tratará do que “foi” o governo Nicolás Maduro, deixará para um próximo artigo. Colocar o governo Maduro no passado é uma imprecisão. O presidente foi sequestrado, mas as mudanças desejadas pelo imperialismo na Venezuela simplesmente não aconteceram.

Quando o articulista escreve que “a operação – amplamente contestada por especialistas em direito internacional e objeto de condenações de vários governos e organismos multilaterais – quebrou um jejum de décadas quanto ao tipo de intervenção direta e em larga escala no território de um Estado soberano da América Latina”, nota-se que existe uma ilusão sobre o tal “multilateralismo”.

Fala-se muito em mundo “multipolar”, mas o fato é que isso é incompatível com o imperialismo. Sempre houve interferência com mão de ferro sobre o continente, a única diferença é que a crise exige medidas mais duras do ponto de vista da manutenção dos interesses do grande capital. A brutalidade, neste caso, significa muito mais fraqueza que força.

O petróleo

No segundo ponto, Kayser sustenta que, embora Trump tenha afirmado que seu objetivo era o petróleo, existem muitos questionamentos dos pontos de vista técnico e econômico.

As objeções, no que diz respeito à relação produção/investimento, seriam desfavoráveis. Seria necessário algo como US$200 bilhões para recuperar a capacidade produtiva, mas “a própria empresa petrolífera norte-americana Exxon, tida como potencialmente a principal beneficiária, já manifestou não ter interesse em ampliar seus investimentos na região, provocando a fúria pública do bufão que comanda a Casa Branca”.

Kayser diz que “para além de inseguranças jurídicas inerentes a esta situação, se dá pela própria dinâmica do mercado”, haveria “o interesse maior das companhias reside em manter e reproduzir a escassez necessária para que os preços se mantenham suficientemente altos”.

Segundo Kayser, “quando Donald Trump afirma que esta ação bélica foi para se apropriar do petróleo venezuelano, assistimos muito mais que um falso ato de sinceridade. Foi, na verdade, um ato performático para encobrir as reais motivações, que podem ser resumidas em uma curta palavra: poder”.

Toda essa análise é superficial. Primeiramente, é preciso levar em consideração a situação no Oriente Médio. O imperialismo planeja uma guerra contra o Irã, que tem controle sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa a maioria do petróleo produzido na região. O imperialismo não pode arriscar ficar desabastecido. O petróleo é uma necessidade real, não um mero jogo de poder.

Em segundo lugar, é correto que a ação do governo norte-americano se tratou muito mais de uma jogada de propaganda que algo realmente efetivo. Mas isso não é consequência de uma luta por “poder” ou de que as petroleiras não quiseram entrar na jogada, e a incompreensão em relação a isso revela uma incompreensão maior no que diz respeito aos interesses de classe em jogo.

De um lado, há o interesse do setor principal do imperialismo, representado pelas grandes petroleiras, pelo capital financeiro, pelos monopólios. Este é o setor que quer que Trump faça muito mais do que foi feito, que quer que os Estados Unidos invadam o país para aplicar uma mudança completa de regime.

O problema é que a população está armada e determina, em grande medida, o futuro do regime venezuelano. O imperialismo só conseguiria controlar a situação no país se vencesse a fúria popular, algo que só poderia ocorrer com uma guerra muito sangrenta dado o alto grau de radicalização do povo.

Do outro lado, há o interesse de um setor minoritário do imperialismo, representado, principalmente, pelos industriais norte-americanos. Para esse grupo, a agressão contra a Venezuela foi suficiente no sentido de que seu resultado foi a conclusão de um acordo com o governo venezuelano para comprar seu petróleo, algo que, na prática, representou o fim das sanções imperialistas contra o país sul-americano.

No ponto três, Kayser escreve que “com esta ação unilateral, o país que foi um dos principais fiadores do multilateralismo neoliberal estabelecido com a globalização, escancarou sua obsolescência e proclamou, simbolicamente, o seu efetivo fim. Este seria mais um capítulo de uma emergente geopolítica da barbárie, onde a diplomacia e a política cedem espaço ao imperativo da força bruta direta”.

Ocorre que a força bruta sempre deu o tom nas relações internacionais, é assim que o imperialismo governa. Desde a derrota no Vietnã que se instaurou uma crise. Depois, o evento mais significativo foi a derrota no Afeganistão. Essa demonstração de fraqueza inaugurou uma fase de verdadeiras insurreições no continente africano, no Eixo da Resistência, e na ação militar russa na Ucrânia.

O Irã impôs uma dura derrota aos israelenses na Guerra dos 12 Dias. A China tem colaborado com os iranianos e os russos, pois sabe que está na mira, o que ficou explícito desde que Joe Biden iniciou seu assédio à Taiuã.

Nesse sentido, nunca houve e nunca haverá um mundo “multipolar”. O imperialismo não permite isso e, para impedir que qualquer país ou povo levante a cabeça, cometerá as maiores atrocidades que a humanidade já viu. Como, por exemplo, o que “Israel” fez contra o povo palestino na Faixa de Gaza.

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