No contexto atual, marcado por uma crise generalizada do regime político brasileiro, assistimos a uma ofensiva reacionária que visa enfraquecer ainda mais a organização política e, em particular, os partidos de esquerda. A recente coluna de Dora Kramer na Folha de S.Paulo é um exemplo claro dessa campanha, que se utiliza de argumentos superficiais e moralismo de classe média para atacar o financiamento público das campanhas eleitorais.
Kramer, ao criticar o fundo eleitoral, reduz a política a uma mera transação de serviços, ignorando que os partidos políticos são essenciais para a representação de diversas forças sociais. Sua análise desconsidera a injustiça dos critérios de distribuição do fundo eleitoral, que privilegia as maiores bancadas e sufoca partidos menores e ideológicos, e o fato de que quase metade dos partidos não tem acesso a nenhum fundo partidário.
Ao colocar o foco exclusivamente nos custos públicos, a jornalista ignora a verdadeira fonte de corrupção: o poder econômico e os lobbies privados que influenciam decididamente o Parlamento, aí incluído o poderoso lobby da imprensa capitalista, o “Partido da Imprensa Golpista” (PIG).
A crítica ao fundo eleitoral não é, como sugere Kramer, uma defesa do bem público. Ao contrário, a extinção do financiamento público favoreceria ainda mais apenas os partidos já consolidados e os candidatos com apoio do grande capital, eliminando a já limitada capacidade de partidos operários e de esquerda competirem em condições mínimas de igualdade.
Além disso, Kramer defende o sistema distrital como solução para uma suposta crise de representatividade. No entanto, essa proposta visa, na prática, dissolver partidos programáticos em favor de candidatos independentes, patrocinados pelo grande capital, facilitando a manipulação política por forças econômicas locais e enfraquecendo a construção de programas nacionais. O voto distrital transformaria a política em uma disputa de clientelismo e coronelismo, em que o poder econômico poderia comprar, ainda mais descaradamente do que já ocorre, a representação política.
A imprensa que se alinha a essa campanha reacionária não busca fortalecer nenhuma democracia real, mas sim perpetuar um regime político moribundo que beneficia as elites econômicas. É alarmante que os partidos de esquerda não reajam à altura dessa ofensiva. Ao contrário, os partidos parlamentares acabam por apoiar o “fortalecimento” das instituições, defendendo uma “democracia” que inexiste no país.
Em suma, o ataque ao financiamento público e a promoção do voto distrital são partes de uma estratégia maior para desmantelar as estruturas que são obstáculos a um regime ainda mais ditatorial do que o que vivenciamos hoje e, por isso, devem ser denunciados.





