O artigo A agonia de Cuba socialista, de Maria Hermínia Tavares, publicado na Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (26), chama a atenção porque a autora é professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, além de pesquisadora no Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Dela, portanto, seria de esperar uma análise menos superficial do que ocorre na ilha.
Tavares inicia o texto com uma referência ao romance O Homem que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura, que, segundo ela resume, “traça um grande afresco do fracasso do socialismo real, por meio das histórias entrelaçadas de três personagens: Leon Trótski, dirigente da Revolução de 1917, forçado ao exílio pela implacável perseguição de Josef Stálin; o espanhol Ramon Mercader, militante comunista que penetra no refúgio do líder revolucionário russo no México para assassiná-lo; e o escritor cubano Ivan Cárdenas, personagem de ficção, que nos conta a história dos dois primeiros”.
A autora se revela logo de início ao empregar o termo “socialismo real”, expressão que ganhou força no período da Guerra Fria. Trata-se de uma formulação crítica: sugere que haveria uma economia “real” — a praticada nos países do Pacto de Varsóvia — em contraste com as “previsões teóricas” de Karl Marx.
Adiante, ainda sobre o romance, M. H. Tavares escreve que “Trótski e Mercader vivem tragédias épicas: o primeiro, líder de massas, é atropelado pela degradação da Revolução Russa das promessas igualitárias em sangrenta máquina totalitária; o outro, revolucionário comunista, se transforma em assassino a serviço de Moscou após o esmagamento da república espanhola pelos fascistas de Francisco Franco”.
O que houve na URSS não foi simplesmente uma degradação, mas uma contrarrevolução. Quanto às “promessas igualitárias”, embora a igualdade plena só possa existir em uma economia comunista, a comparação com outros países mostra que Cuba, apesar da pobreza imposta pelo bloqueio econômico, mantém indicadores sociais que se destacam.
Crítica liberal
Tavares afirma que “o sistema socialista cubano agoniza” e menciona o bloqueio ao escrever que o país sofre “sob impacto do desumano embargo imposto por Donald Trump, que cortou o acesso do país ao petróleo importado”. Em seguida, contudo, sustenta que “seria um equívoco atribuir o desastre presente” à medida decretada pelo presidente norte-americano “ou mesmo ao bloqueio econômico que os Estados Unidos impõem ao regime castrista desde 1962”.
Dessa forma, a professora e pesquisadora minimiza décadas de bloqueio econômico contra Cuba. Para dimensionar os efeitos desse tipo de política, vale lembrar que, em 1996, Madeleine Albright admitiu que o bloqueio imposto ao Iraque teve como consequência a morte de meio milhão de crianças.
Na guerra do Vietnã morreram, segundo estimativas conservadoras, 1,2 milhão de pessoas. Estima-se que número semelhante tenha morrido em decorrência de anos de embargos e sanções.
Durante a pandemia de Covid-19, os EUA impediram Cuba de comprar insumos médicos, como seringas descartáveis e ventiladores pulmonares. Ainda assim, apesar do bloqueio, os cubanos desenvolveram três vacinas próprias. No mesmo período, Cuba enviou médicos para atender na Itália, um país capitalista que não sofre bloqueio econômico. Nada mal para um sistema “agonizante”.
Segundo se lê no artigo, “o fracasso econômico de Cuba se deve em larga medida ao desenho e à administração do modelo socialista; e à maneira como, desde os anos 1990, reformas para flexibilizá-lo foram concebidas e implementadas”. Como sustentar uma conclusão desse tipo se a economia cubana nunca pôde ser observada em condições normais, isto é, sem bloqueio?
Uma análise minimamente consistente precisaria comparar a Cuba sob sanções com seus vizinhos caribenhos, todos capitalistas. Como está a situação social no Haiti? Apenas na região da capital, Porto Príncipe, o analfabetismo atinge 34% das pessoas. Na Jamaica, ultrapassa 8%. Em Porto Rico, território sob domínio dos EUA, o índice também se aproxima de 8%. Nos próprios Estados Unidos, o analfabetismo é mascarado por classificações e gradações, mas atinge números expressivos: 43 milhões de pessoas têm “baixas habilidades de alfabetização”. É quase quatro vezes a população de Cuba.
Na tentativa de sustentar sua tese, M. H. Tavares recorre a um “especialista em Cuba” da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, para quem “a adoção de um modelo ineficiente — baseado no controle estatal da atividade econômica — e reformas mal desenhadas são a causa central do desastre”. Trata-se de uma opinião previsível vinda de uma universidade norte-americana.
Ao concluir, Maria Hermínia Tavares alega que “na agonizante Cuba, que já retrocedeu até nos ganhos reais em saúde e educação, o que sobra do socialismo real é o aparato repressor que sustenta o governo de partido único”. É o argumento liberal habitual: a explicação se resume a um governo supostamente autoritário e corrupto. Cuba tem eleições, embora exista um único partido. Enquanto isso, no restante do chamado “mundo democrático”, o imperialismo manipula processos eleitorais, promove golpes de Estado e sustenta regimes de exceção quando lhe convém.
Por falar em aparato repressivo, nos Estados Unidos, na Europa e na Oceania, adolescentes são alvo de censura e são privados de usar celulares. Manifestantes pacíficos, por se oporem aos crimes cometidos pelos sionistas em Gaza, são espancados pela polícia e presos. Há projetos de lei para que aplicativos monitorem mensagens de usuários e, quando julgado necessário, as encaminhem às autoridades. Nem George Orwell imaginaria ser tão preciso em 1984.
A autora utiliza seu texto para proteger e ocultar a monstruosidade da política de asfixia representada pelos bloqueios econômicos. É mais um sinal da falência intelectual que se dissemina no ambiente acadêmico. É vergonhoso.
Resta perguntar por que a emérita professora não fala do “capitalismo real”: o sistema que levou o mundo a duas grandes guerras e avança para uma terceira; que patrocinou ditaduras sangrentas em diversos países; que mata uma pessoa de fome a cada quatro segundos e que financia o apartheid na Cisjordânia e o genocídio em Gaza.
A Revolução Cubana, com muito pouco, garantiu muito mais do que países ricos em áreas decisivas, como saúde e educação universais. Por isso, o país é atacado pelo imperialismo e por seus vassalos. Quando o país mais poderoso do mundo tenta asfixiar todo um povo, sob o silêncio covarde — ou a cumplicidade — do “mundo democrático”, quem é que está, de fato, agonizando?





