Paulo Marçaioli

Formado em direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da USP e dono do blog Esperando Paulo

Coluna

Sobre o romance ‘Philomena Borges’ de Aluísio Azevedo

Aluísio Azevedo é inequivocamente o maior expoente do naturalismo literário no Brasil

Aluísio Azevedo é inequivocamente o maior expoente do naturalismo literário no Brasil.

Esta etapa da evolução histórica da literatura acentuou um sentido geral de objetividade que advinha já da 3ª Fase do Romantismo e do Realismo. No caso do naturalismo, a objetividade ganha contornos de cientificidade, havendo mesmo uma proposta de fusão entre a arte e a ciência. Enquanto na escola romântica, a salvação humana está no retorno do homem ao seu estado natural, no Naturalismo, a salvação dá-se em torno da explicação científica do mundo, mediante a descrição empírica dos fenômenos sociais. Não raramente, fatos sociais se equivalem aos fatos da natureza, revestidos da mesma fatalidade.

Este tipo de arte suscita evidentes fontes históricas para o leitor dos dias de hoje. A descrição do Cortiço no mais famoso romance de Aluísio Azevedo possibilita um contato direto com a realidade do subúrbio do Rio de Janeiro do século XIX, descrevendo os tipos populares, como o taverneiro português João Romão, a quintandeira Bertoleza ou a mulata sensual Rita Baiana.

É certo, contudo, que este protagonismo dos tipos populares ainda é parcial neste romance, publicado em 1890. O grande protagonista d’o Cortiço é o próprio espaço territorial, que se apresenta ao leitor como um organismo social, com uma vida própria, tendo, ironicamente, os personagens o caráter mais paisagístico. A comparação com um formigueiro, dentro da perspectiva naturalista, não seria de todo errada.

Além disso, os personagens do Cortiço são retratados de uma maneira caricatural, havendo um evidente diálogo entre a escrita de Azevedo e o seu trabalho anterior como chargista de jornal. A sátira e a comédia dão o tom do pouco conhecido romance “Philomena Borges”.

“Philomena Borges”

“Estranha existência a dessas duas criaturas que a natureza fez tão diversas, tão contrárias, mas que o acaso laçou no mesmo destino, abraçadas a uma só onda, sofrendo e gozando promiscuamente, sem nunca poderem determinar onde principiava a dor, onde terminava o gozo.

A mesma cousa, que a um fazia padecer, dava ao outro transportes de alegria. Daí esse equilíbrio da lágrima e do riso, que era a fonte de toda a sua coragem e de toda a sua força. Não podia sucumbir nunca, porque um deles estava sempre de pé para amparar o companheiro, quando este por ventura vacilasse.”.

“Philomena Borges” é um livro menos conhecido do nosso escritor naturalista, cujo estilo está mais próximo da sátira e das caricaturas, do que dos projetos literários inequivocamente naturalistas. Trata-se de uma comédia divulgada em Folhetim na “Gazeta de Notícias” no começo do ano de 1884.

A história descreve a vida de um casal improvável pela completa oposição de personalidades: de um lado Borges, um quarentão pacato, até mesmo cândido, todo ele dedicado ao trabalho como mestre de obras, à rotina e à avareza. Já Philomena, filha de um Conselheiro de Estado que, antes de morrer, gastara toda a fortuna da família “no jogo e nas confeitarias”, desde pequena herdaria uma tendência à ambição pelas grandes realizações, uma altivez aristocrática, um gosto estético refinado, tudo em oposição ao pragmatismo burguês de seu marido.

Esta oposição de gênios, no início do romance, leva o leitor erroneamente à ideia de que o casamento redundaria num fracasso: mas esta oposição leva gradualmente as partes a um amor verdadeiro, que é colocado à prova diante de momentos de riqueza e miséria, como quando o casal, fugindo de credores, chega ao limite da fome, na província de São Paulo.

Philomena Borges, no primeiro dia do casamento, fecha-se no quarto onde se dariam as primeiras núpcias e mantém desde então uma atitude de reserva em relação ao marido, que teria de provar ser digno de seu amor. A dedicação do marido, o “João Touro” levava-o ao cômico de aprender, aos quarenta anos, a dançar, a encenar peças de teatro ou até mesmo experimentar pela primeira vez o charuto, abandonando o hábito do rapé.

A bela Philomena, por outro lado, prova o seu amor ao Borges acompanhando-o nos momentos de dificuldade financeira, recusando todos os cortejos, e sempre incentivando o marido aos mais altos voos: de capitalista à bancarrota comercial, de ator de circo à diretor de representações teatrais na Europa, de Barão à Visconde de Itassu, de conselheiro de D. Pedro II à, finalmente, derrotado pelo Partido Conservador. É o final do livro, em 1878, quando o João Touro, finalmente se vê livre da política (que ele odeia) e retorna a sua querida Paquetá. Infelizmente, sua derrota na política implicaria, para Philomena, o fim das ilusões em torno das suas próprias ambições e sonhos grandiloquentes, representada por sua morte.

A história de temperamentos tão diferentes que, num primeiro momento parece improvável e com o tempo, convence e comove o leitor acerca do enlace, também seria retratado em outro romance pouco conhecido do nosso escritor maranhense, o “Coruja”, cuja resenha, remetemos o nosso leitor: http://esperandopaulo.blogspot.com/2019/05/o-coruja-aluisio-azevedo.html

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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