Na última segunda-feira (24), o jornalista palestino Hossam Shabat, correspondente da emissora catariana Al Jazeera, foi morto em um ataque aéreo israelense na cidade de Beit Lahia, no norte da Faixa de Gaza. O veículo em que Shabat estava foi alvejado por um drone, mesmo estando claramente identificado como pertencente à imprensa, com a marca “TV” visível e o logotipo da emissora. A informação foi confirmada pela Al Jazeera, que denunciou a falta de qualquer aviso prévio antes do ataque.
Segundo Tareq Abu Azzoum, colega de Shabat na Al Jazeera, o jornalista “insistiu em continuar relatando em meio à escalada horrenda e sem precedentes que ocorre no norte de Gaza… o exército israelense alvejou seu veículo sem qualquer aviso prévio”.
No mesmo dia, outro jornalista palestino também foi morto em um ataque israelense. Mohammad Mansour, correspondente da Palestine Today, foi assassinado em sua casa, localizada em Khan Yunis, no sul de Gaza, junto com sua esposa e seu filho. De acordo com Abu Azzoum, Mansour também foi morto sem qualquer aviso prévio.
A morte de Shabat aconteceu meses após ele ter sido alvo de uma tentativa anterior de assassinato. Em novembro de 2024, ele ficou gravemente ferido durante um ataque aéreo israelense enquanto cobria um bombardeio em uma casa próxima. Na ocasião, o exército israelense já havia acusado Shabat e outros cinco jornalistas da Al Jazeera de serem membros do Hamas ou da Jiade Islâmica Palestina, mas não apresentou qualquer prova das acusações.
Em uma publicação em rede social antes de sua morte, Shabat já havia deixado um alerta sobre o risco que corria. “Se você está lendo isso, estou morto – muito provavelmente alvo das forças de ocupação israelenses. Quando tudo isso começou, eu tinha apenas 21 anos, era um estudante com sonhos como qualquer outro…”, escreveu ele. Em outro trecho, descreveu um ataque anterior que quase tirou sua vida:
“Ao chegar à casa lotada de pessoas aterrorizadas, ouvi seus gritos desesperados de ajuda do segundo andar. No momento em que entrei, a casa foi bombardeada novamente, e pedaços de corpos feridos voaram ao meu redor. Escombros caíram sobre mim e meus colegas; um socorrista morreu, e enquanto meu colega e eu ficamos feridos, muitos outros não sobreviveram.”
Hamas denuncia assassinato de jornalistas
Em nota oficial, o Hamas condenou os assassinatos de Hossam Shabat e Mohammad Mansour, classificando os ataques como parte de uma política deliberada de silenciamento da imprensa palestina.
“Os crimes da ocupação sionista contra jornalistas na Faixa de Gaza continuam com o objetivo de aterrorizá-los e impedir que revelem a verdade e exponham os massacres contra nosso povo palestino. O mais recente desses crimes foi o assassinato deliberado do jornalista mártir Hossam Shabat, correspondente da Al Jazeera Mubasher, e do jornalista mártir Mohammad Mansour, correspondente da Palestine Today, enquanto cobriam os crimes de genocídio contra nosso povo”, afirmou o Hamas.
O movimento também chamou a atenção da comunidade internacional para a necessidade de responsabilizar os líderes israelenses por crimes contra jornalistas e destacou que 208 jornalistas já foram mortos desde o início da ofensiva israelense contra Gaza, em outubro de 2023.
Confira, abaixo, a nota do Hamas na íntegra:
“Em nome de Deus, o mais gracioso, o mais misericordioso
Comunicado de imprensa
Os crimes da ocupação sionista criminosa contra jornalistas na Faixa de Gaza continuam com o objetivo de aterrorizá-los e impedir que transmitam a verdade e exponham os massacres da ocupação contra nosso povo palestino. O mais recente desses crimes foi o assassinato deliberado hoje do jornalista mártir Hussam Shabat, correspondente da Al Jazeera Mubasher, e do jornalista mártir Mohammed Mansour, correspondente da Palestina Hoje, enquanto cobriam os crimes de genocídio sionista contra nosso povo.
Diante desses crimes hediondos e da perseguição deliberada contra jornalistas, convocamos as instituições internacionais de imprensa e mídia a cumprirem suas responsabilidades em expor esses crimes e proteger os jornalistas palestinos, dos quais 208 foram mortos pelo inimigo criminoso desde o início do genocídio e da agressão contra a Faixa de Gaza. Também os convocamos a trabalhar para processar os líderes terroristas da ocupação nos tribunais internacionais e responsabilizá-los por seus crimes contra jornalistas e todos os grupos protegidos pelo direito internacional.
Expressamos nossas mais profundas condolências às famílias dos jornalistas mártires e à comunidade jornalística que atua na Faixa de Gaza, que corajosamente continuou suas carreiras profissionais e cumpriu sua missão moral, apesar do terrorismo sistemático e da perseguição incessante impostos ao trabalho jornalístico pela máquina assassina sionista fascista na Faixa.
Segunda-feira: 24 de Ramadã de 1446 AH
Correspondente a: 24 de março de 2025”
Alerta internacional sobre ataques contra jornalistas
De acordo com o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), 2024 foi o ano mais letal para profissionais da imprensa desde o início dos registros, com 124 jornalistas mortos em 18 países. O genocídio em Gaza foi responsável por 85 dessas mortes, todas resultantes de ataques israelenses. O relatório do CPJ aponta que a ofensiva sionista provocou um aumento de 22% no número de assassinatos de jornalistas em relação ao ano anterior.
O relatório ainda cita a política genocida promovida pelos Estados Unidos e “Israel” como a principal causa da alta nos assassinatos de jornalistas. A entidade criticou o que considera uma ação deliberada de eliminação de profissionais de imprensa que relatam as atrocidades cometidas contra o povo palestino.
O ministério de Imprensa de Gaza denunciou o assassinato de jornalistas como uma política sistemática de intimidação e silenciamento. Em comunicado, responsabilizou diretamente a ocupação israelense, os Estados Unidos e os países cúmplices, como Reino Unido, Alemanha e França, pelas mortes. “Condenamos o direcionamento, assassinato e execução de jornalistas palestinos pela ocupação sionista e exigimos que os responsáveis sejam levados a tribunais internacionais”, afirmou o órgão.
O assassinato de Hossam Shabat e Mohammad Mansour reflete uma escalada na política de repressão contra a imprensa e contra qualquer tentativa de relatar a situação humanitária e os massacres ocorridos na Faixa de Gaza. A Al Jazeera, assim como outras entidades de defesa dos jornalistas, exige investigações independentes e a responsabilização dos autores dos crimes.