Neste domingo, 30/3, a esquerda pequeno-burguesa saiu às ruas em defesa da repressão. Trata-se dos atos “sem anistia” que foram realizados em algumas capitais do Brasil, sendo o ato de São Paulo (SP), na avenida Paulista, o maior deles.
Neste ato, foi possível verificar algumas pessoas fantasiadas de presidiários, algo muito comum nos atos contra o PT. Além disso, as palavras de ordem lembravam muito as reivindicações da direita, como, por exemplo, o panfleto da deputada federal do PSOL/SP Luciene Cavalcante, distribuído em São Paulo, que diz: “anistia nunca mais”, e finaliza com “o Brasil não pode seguir taxado como o país da impunidade” e que a deputada luta para que “todos sejam punidos”.
Adesivos preto e branco com a bandeira brasileira ao fundo, distribuídos pela claque da “vereadora das favelas” Keit Lima, também do PSOL de São Paulo, dizia “sem anistia, lugar de golpista é na cadeia”. É difícil separar essas “reivindicações” do velho jargão direitista “bandido bom é bandido morto”. E isso sem mencionar a falta do vermelho nas manifestações, parecendo, e muito, as manifestações da direita.
A esquerda 190 acha que detém a chave da cadeia, mal sabendo ela que está fazendo campanha para que o Estado se volte contra o povo e suas organizações muito em breve.
Sonhando com as ações policiais e a beleza do sistema prisional brasileiro, Guilherme Boulos (PSOL/SP) disse que “quando Bolsonaro se elegeu, ele disse que ia botar a esquerda na cadeia, vocês se lembram? Mas o mundo gira e nós ainda vamos ter oportunidade de pegar a comissão de direitos humanos da Câmara. E levar marmita da cozinha solidária para ele lá na Papuda”, disse o homem da Frente Povo sem Medo-contanto-que-tenha-polícia.
Também na espera de que a força repressiva do Estado caia sobre seus inimigos políticos, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), disse que está “ligando para os líderes. Esta vai ser a semana em que nós vamos enterrar esse PL da Anistia. Não vão conseguir, eu digo aqui para vocês. Só de votar estão cometendo um crime”. E, apoiando todas as medidas arbitrárias do Supremo Tribunal Federal (STF), Lindbergh afirmou que “prisão preventiva é para qualquer pessoa que quer atrapalhar uma investigação”, sendo que as prisões só serviram para obter confissão, em típico esquema de delegacia de polícia. A esquerda virou agente penitenciária.
Ao contrário do que tem sido defendido pela esquerda pequeno-burguesa, os presos do ato de 8 de janeiro de 2023 devem, todos, ser liberados em razão da falta de provas das condutas e em razão da generalidade da denúncia contra os envolvidos, revelando, somente, perseguição política.
Fora essa questão, várias acusações se baseiam em depoimentos forçados pela justiça, as famosas delações premiadas, da mesma forma que foram utilizadas contra o Partido dos Trabalhadores (PT), desde a época do Mensalão à prisão de Lula.
É um método de tortura, de confissão forçada, um pau-de-arara do século XXI, que deve ser repudiado por qualquer organização minimamente democrática. Esses métodos levarão, ao final, ao banimento da esquerda do cenário político.
Se manifestar contra as instituições é um direito de todas as pessoas e de qualquer organização. Inclusive, as manifestações contra as instituições do regime são uma tradição histórica da esquerda de todo mundo. O processo contra Jair Bolsonaro e os demais envolvidos do 8 de janeiro de 2023 é um precedente completamente autoritário que será utilizado, cedo ou tarde, contra a esquerda.
Basta ver as imagens da votação do impeachment de Dilma Rousseff, em Brasília (DF), para se tirar dali uma série de implicações criminosas contra os manifestantes que defenderam a presidente e o PT. Aliás, todas as manifestações prévias ao golpe de 2016 e as que se sucederam, inclusive pela liberdade de Lula, poderiam ser encaradas como ataque contra o “Estado Democrático de Direito”.
A verdade é que as ruas, as manifestações em Brasília (DF), especialmente, eram medidas tomadas pelas organizações de esquerda, centrais sindicais, sindicatos, partidos, etc. Muitas delas resultaram em ocupação e mesmo a depredação de patrimônio público, algo relativamente natural em um movimento radicalizado. O que está em questão é a blindagem das instituições do regime político.
Por outro lado, o já divulgado “Plano T”, apresentado pela revista Veja, revela que as medidas contra Jair Bolsonaro se trata, exclusivamente, de uma manipulação eleitoral, para tirar um dos dois candidatos que, de fato, possuem voto e apoio popular. Um é Bolsonaro, outro é Lula. A burguesia que controla o regime não quer nenhum dos dois.
Ou seja, a reivindicação de “sem anistia” além de ser uma questão que servirá para aumentar e reforçar os meios repressivos do Estado, seja pela repressão ostensiva da Polícia Federal, seja pela destruição dos direitos democráticos feita pelo STF; esse problema também revela um desnorteamento total da esquerda, que se vê, novamente, vítima de uma manipulação eleitoral descarada feita pela burguesia mais poderosa do Brasil, que só poderia se aliar com a Rede Globo, a golpista de toda hora.
Em um país com quase um milhão de presos, a repressão penal deveria ser combatida duramente pela esquerda, com uma série de reivindicações democráticas, como a prisão somente após o trânsito em julgado e superada todas as instâncias. Tal como está, considerando a política da esquerda pequeno-burguesa, se os métodos do STF “descerem” para as demais instâncias, facilmente chegaremos à casa dos dois milhões de presos em alguns anos.
Confira algumas fotos do ato: