Editorial

Patrão contra empregado

O que está por detrás do caso Master-Moraes?

Diante do escândalo do Banco Master, a imprensa burguesa voltou a posar de fiscal da “ética” e da “boa governança”. No entanto, o que está em jogo não é uma cruzada moral contra a corrupção. É dinheiro. É a briga entre o grande capital, sobretudo o capital financeiro, e um dos seus próprios funcionários no aparelho do Estado.

A confusão começou com a acusação publicada por O Globo: o ministro Alexandre de Moraes estaria atuando para favorecer o Banco Master. Em seguida, veio à tona um dado ainda mais escandaloso: o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, teria contrato com o Banco Master para receber R$129 milhões ao longo de três anos. Não se trata de “insinuação”. É o tipo de vínculo que, num regime controlado pelo dinheiro, fala por si.

E o que acontece quando um escândalo desses explode no topo do Judiciário? O regime não abre as janelas para o povo ver. Fecha as cortinas.

Dias Toffoli, que abriu um inquérito sobre o caso, colocou os dados sob segredo de justiça, inclusive dificultando o acesso até para membros do próprio STF. E, como se isso não bastasse, marcou uma acareação reunindo Banco Central, BRB e representantes do Banco Master para “analisar” o processo de liquidação do banco. Por que tamanho zelo? Por que tanta pressa em organizar um arranjo interno, e tanta necessidade de esconder do público o que está sendo feito?

A gravidade aumenta quando se soma a isso a acusação de que Moraes teria pressionado Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, para que o Master não fosse liquidado. Ainda que parte das informações esteja sob disputa, a simples possibilidade de pressão direta sobre a autoridade monetária, num caso deste tamanho, já revela o tipo de relação que impera entre o sistema financeiro e as instituições do regime.

Diante dessa situação, há aqueles que se mostram surpresos: “mas como, o jornal tal está atacando o ministro tal?”. Como se houvesse algum conflito entre “instituições” e “imprensa”, ou como se Moraes fosse um elemento estranho ao poder dos grandes capitalistas.

É exatamente o contrário.

Moraes é um funcionário do grande capital. Um operador do regime. Um homem colocado numa posição excepcional para executar determinadas tarefas. Quando a burguesia precisou, utilizou esse funcionário contra Bolsonaro. Agora, tudo indica que quer se livrar dele. Não porque descobriu, de repente, princípios republicanos. Mas porque o empregado passou a “exagerar” e, sobretudo, porque a função que ele cumpria começa a ser reorganizada para outra etapa do regime.

Nesse ponto, aparece a causa imediata da crise: o sistema bancário no Brasil é um monopólio de um punhado de grandes bancos. Eles dominam o regime e não admitem que um banco fora do cartel tente avançar sobre uma fatia maior do mercado. Quando o caso do Master indicou risco elevado, prejuízos potenciais e descontrole, os grandes bancos se moveram para conter o problema e enquadrar quem tentou ir além do espaço permitido.

É por isso que a campanha contra Moraes não é movida por “ética”. Se fosse, não haveria segredo de justiça, não haveria arranjos internos, não haveria acareação discreta, não haveria tentativa de reduzir o impacto político preservando a instituição. O que existe é uma operação para administrar a crise sem atingir o núcleo do regime: o controle dos bancos sobre o Estado.

A causa mais profunda é política. O poder extraordinário conferido a Moraes tinha uma finalidade: reorganizar o cenário do regime para 2026, interferir no processo político, retirar Bolsonaro do páreo e abrir caminho para uma alternativa plenamente controlada pelo grande capital, uma alternativa com liberdade para aplicar uma política de terra arrasada contra a população trabalhadora. Cumprida parte da tarefa, a burguesia começa a trocar as peças. Bolsonaro é empurrado para fora e o regime tenta redesenhar o tabuleiro. O funcionário que foi útil ontem passa a ser incômodo hoje.

E como o regime faz isso? Do jeito de sempre: joga a água suja fora e tenta salvar a “criança”. Ou seja, atacam os “excessos” para preservar o STF como instituição, porque o STF é um instrumento central do controle burguês sobre o País. O objetivo não é “limpar” o Estado. É preservar o Estado tal como ele é, ajustando o que for necessário para que continue funcionando contra o povo.

A esquerda que se ilude com esse teatro entra numa armadilha. Se enxergar o caso como “briga de moralidade” ou “caça à corrupção”, acabará servindo de linha auxiliar para um acerto de contas entre banqueiros, frações do regime e seus funcionários. Não há campo progressista nessa operação. Há o grande capital reorganizando sua máquina.

O regime brasileiro, dominado pelos bancos, pode até tolerar eleições e governos, mas não tolera perder o comando. Quem governa, governa sob tutela. E quando um operador se torna inconveniente, o patrão troca o empregado, sem nenhuma preocupação com “princípios”, apenas com o caixa e com o controle do aparelho de Estado. É isso que está colocado no caso Banco Master: patrão contra empregado.

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