Não é possível que a esquerda pequeno-burguesa, a esta altura, não esteja enxergando o estratagema da burguesia para tentar recuperar a chance de eleger um candidato próprio na próxima eleição presidencial. Já está suficientemente claro que fazem com Bolsonaro o mesmo que fizeram com Lula, apenas substituindo o fantasma da corrupção pelo espantalho do fascismo, seja lá o que isso for.
A pecha de ladrão caía bem no candidato de esquerda de origem pobre, que foi operário, afinal, como já ouvimos tanto em tempos pretéritos, mas não totalmente passados, “rico não precisa roubar”. Bolsonaro não tem esse perfil, embora seja um tipo igualmente “sem origem”, daqueles que “não sabem usar os talheres”, como a pseudoaristocracia esquerdista gosta de dizer. Dados os seus modos grosseiros e suas falas agressivas, Bolsonaro vestiu bem a carapuça de fascista, se é que ser fascista é isso.
Em ambos os casos, a propaganda é liderada pela imprensa capitalista, mas, no segundo, é alimentada pelos progressistas e pela militância pequeno-burguesa, empenhada em impedir que o Congresso venha a aprovar a anistia para a turma do 8 de janeiro. Houve até uma deputada do PDT, a travesti Duda Salabert, que apresentou um projeto de lei para proibir a concessão de anistia a investigados ou condenados por “crimes contra o Estado Democrático de Direito” – isto é, aqueles crimes que possam ser enquadrados na Lei nº 14.197, de 1º de setembro de 2021, a nova Lei de Segurança Nacional do Brasil (LSN).
A propósito, essa mesma pessoa, quando eleita vereadora, disse o seguinte: “Quando uma travesti é eleita, quando ela avança, a sociedade inteira avança, porque nós fazemos parte de um grupo que a expectativa de vida não supera 35 anos, que 90% tá na prostituição” [sic]. Não ser obrigada pelas circunstâncias a cair na prostituição é ótimo, mas esperávamos um pouco mais desse prometido avanço na sociedade. O grande problema do identitarismo é que até gente fascista pode se passar por progressista. Mas fascistas são os outros.
Em recente ato na PUC de São Paulo, de que participaram lideranças de esquerda e advogados do famigerado grupo Prerrogativas, era generalizado o clima de frustração com a soltura da cabeleireira Débora Rodrigues, a moça do batom, que passou dois anos em “prisão preventiva”. A medida deveria ser exceção, não regra, pois, na prática, é punição antes do resultado do julgamento. Aplica-se em casos graves, para evitar que o acusado fuja, destrua provas ou continue cometendo crimes, causando “instabilidade social”.
Além disso, o juiz tem a prerrogativa de aplicar a medida quando se comprova a existência de crime e há indícios suficientes de autoria. Como Débora postou vídeo nas redes sociais, provavelmente sem saber que, ao rabiscar um “Perdeu, mané” na estátua da Justiça com batom, estava cometendo um grave crime, ela confessou sua autoria. O problema, no entanto, é menos o de conhecer a “autoria” do que o de saber se houve crime e qual a gravidade desse suposto crime. Não faz tempo, os identitários andavam queimando estátuas pela cidade e se gabando de estar fazendo “reparação histórica”.
O xerife do STF determinou a soltura da “moça do batom” porque até a imprensa burguesa lançou o alerta de que a coisa está passando do ponto. Mais realistas que o rei, os advogados do “Prerrô” não gostaram nem um pouco do amolecimento de Moraes. O líder desse grupo, Marco Aurélio de Carvalho, assim discursou na PUC:
“O que faltou para cada uma das moças que seguem ser ver seus filhos, privadas de condições mínimas de dignidade, no sistema penitenciário medieval que é o do nosso país? Talvez tenha faltado um batom. Essa moça deu uma sorte danada. Então nós temos que recomendar aos nossos, nas nossas manifestações, não vamos esquecer o batom”.
O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, por sua vez, sugeriu um “mutirão do batom para que as 40 mil mulheres presas possam ser ouvidas”. Os nobres advogados usaram a falácia da extrapolação, generalizando a ação no caso concreto para toda a população carcerária feminina como forma de enfraquecer o argumento da soltura. Se soltaram a Débora, soltem todas as outras. Em outras palavras, cadeia para todas. Mas fascistas são os outros.
O paradoxo de Karl Popper, aquele de que a tolerância com o intolerante destrói a tolerância (então seria melhor ser intolerante com o intolerante para preservar a tolerância), está sendo posto em prática por aqui. Até a esquerda acha que devemos sacrificar os direitos democráticos para salvar “a democracia”. O problema é que, depois de salva, ela não poderá mais atender por esse nome. Com essa militância preguiçosa (e equivocada), caminhamos para o fascismo, conduzidos feito gado pela burguesia defensora da democracia.