Em mais um passo concreto rumo à completa anexação da Palestina, o gabinete de segurança da entidade sionista aprovou, no último sábado (30), a fase final do projeto rodoviário denominado “Estrada Tecido da Vida”, também chamado de “Eixo do Tecido da Vida”. Trata-se de uma via segregacionista que visa conectar o território de Jerusalém ao assentamento ilegal de Ma’ale Adumim, no coração da Cisjordânia ocupada. A aprovação da estrada, condenada por organizações palestinas e até por setores sionistas pacifistas, representa uma grave escalada nos esforços para cortar a Cisjordânia ao meio e impedir a formação de um Estado palestino viável.
O Hamas classificou o projeto como uma “iniciativa colonial para ampliar assentamentos ilegais e deslocar os palestinos de Jerusalém Oriental ocupada”. Em nota publicada no dia 30 de março, o grupo de resistência palestino denunciou a medida como parte de um plano deliberado para isolar os bairros palestinos e destruir qualquer perspectiva de soberania nacional: “Esses planos coloniais serão derrotados pela firmeza do povo palestino”, declarou o Hamas, conclamando a população da Cisjordânia e de Jerusalém a intensificar a resistência e o enfrentamento direto à ocupação sionista.
Apartheid
O projeto aprovado terá um custo de 335 milhões de shekels (aproximadamente US$91 milhões) e será financiado por um fundo da Administração Civil israelense composto por receitas extraídas diretamente dos palestinos que vivem sob ocupação. A nova estrada permitirá que veículos palestinos transitem entre o norte e o sul da Cisjordânia sem passar por checkpoints israelenses ou pela Rodovia 1, que será, então, de uso exclusivo dos colonos israelenses. O objetivo, segundo analistas, é criar vias “separadas mas desiguais”, institucionalizando o apartheid por meio da infraestrutura.
A organização israelense Peace Now denunciou o projeto como a construção de uma “estrada do apartheid”, desenhada para facilitar a anexação de cerca de 3% da Cisjordânia e consolidar o domínio israelense sobre o corredor estratégico E1 — região que liga Jerusalém ao bloco de assentamentos ilegais de Ma’ale Adumim. “Isso é sobre permitir a anexação”, declarou o grupo. O dirigente do conselho de colonos de Beit El, Shai Alon, foi ainda mais explícito: “Esse é o primeiro passo concreto para aplicar soberania [isto é, anexação] sobre toda a Judeia e Samaria”, nome bíblico usado pelo sionismo para apagar a identidade palestina da região.
Khan al-Ahmar na mira
No centro da área de interesse do regime sionista está a pequena vila de Khan al-Ahmar, habitada por beduínos da tribo Jahalin. Construída com barro e pneus, a comunidade, que abriga dezenas de famílias e uma escola improvisada, tornou-se um símbolo da resistência à colonização. Sua destruição para dar lugar à expansão de Ma’ale Adumim eliminaria a última ligação geográfica entre o norte e o sul da Cisjordânia, tornando impossível qualquer tipo de contiguidade territorial palestina.
Segundo o jornal Jewish Press, a dominação completa da área do E1 permitiria que “Israel” construísse um gigantesco subúrbio conectado diretamente a Jerusalém, ligando a capital ao complexo colonial de Ma’ale Adumim. Como resultado, “toda esperança de um Estado palestino contíguo desapareceria”.
Ofensiva total e deslocamento em massa
A aprovação da estrada ocorre em meio à maior campanha de deslocamento forçado na Cisjordânia desde o início da ocupação sionista em 1967. Desde janeiro, as forças de ocupação invadiram diversas regiões, com destaque para os campos de refugiados de Jenin e Tulcarém, destruindo ruas, casas e centros comunitários sob o pretexto de combater o “terrorismo”.
Segundo a ONU, mais de 40 mil palestinos foram forçados a abandonar suas casas em meio às operações militares, que incluíram tanques, tratores blindados e bloqueios sistemáticos. A escala do deslocamento é inédita em décadas. Roland Friedrich, diretor da UNRWA (agência da ONU para refugiados palestinos), alertou que mais de 900 mil pessoas na Cisjordânia — cerca de um terço da população — são oficialmente refugiadas, descendentes de famílias expulsas durante a Nakba em 1948.
A situação humanitária nas regiões afetadas é crítica. Em Jenin, considerado um dos campos mais pobres da Cisjordânia, a população sobrevive com o auxílio de comitês locais e doações esporádicas. O prefeito da cidade, Mohammad Jarrar, reconheceu que a prefeitura não possui condições financeiras para lidar com a emergência: “O que está acontecendo está além da nossa capacidade”, declarou.
A UNRWA, por sua vez, também sofre com a ofensiva sionista. Leis recém-aprovadas em “Israel” proíbem o contato entre militares e funcionários da agência, dificultando a coordenação de segurança. Além disso, soldados israelenses têm assediado os trabalhadores da UNRWA em checkpoints e durante operações de invasão. Em fevereiro, a entidade relatou que 200 edifícios residenciais foram demolidos apenas no campo de Jenin. Mais 90 construções estão sob ameaça de demolição, o que deixaria outras 300 famílias desabrigadas.
Segundo o ministro da Segurança de “Israel”, Yoav Gallant, os soldados podem permanecer nos campos de refugiados por até um ano — uma ocupação prolongada que visa, na prática, transformar os campos em zonas militarizadas sob controle direto do exército sionista.