O sítio da Revista Movimento, ligada à corrente interna do PSOL Movimento Esquerda Socialista (MES), publicou artigo intitulado A Luta LGBTQIA+ como parte essencial da revolução socialista, assinado por Higor Andrade.
O próprio título nos dá a pista de que o objetivo do autor é relacionar o problema do LGBT com a luta de classes e a luta pelo socialismo.
O autor faz uma miscelânea de ideias. No seu caldeirão, ele joga teorias identitárias sobre a sexualidade e um “marxismo” superficial, que ele, em nome de Lênin e Trótski, usa para tentar convencer os incautos de que seria possível conciliar ambas as concepções. Em suma, ele faz isso para tentar encaixar as ideias identitárias da moda em seu grupo, pretensamente trotskista.
“A compreensão de que as opressões sociais, incluindo as de gênero e orientação sexual, estão profundamente conectadas à estrutura econômica da sociedade capitalista é central para nossa análise e ação. Trotsky e Lenin, em suas abordagens sobre a revolução socialista, nunca viram as questões de gênero e sexualidade como dissociadas das questões de classe. Pelo contrário, ambos entenderam que a emancipação completa dos trabalhadores só seria possível com a superação das diversas formas de opressão.”
O parágrafo acima resume a ideia do autor. Para ele, o marxismo acredita que a emancipação completa dos trabalhadores estaria subordinada à superação das “diversas formas de opressão”. O marxismo, obviamente Trotski e Lênin inclusos, defende o contrário: que a emancipação de toda a humanidade será obra da classe operária. É a classe operária, pela posição econômica que ocupa, que será capaz de levar adiante as transformações revolucionárias até o fim. E por sua posição social é ela também capaz de arrastar nas suas fileiras os diversos setores oprimidos.
Consequentemente, conclui-se que é a revolução liderada pela classe operária e o aprofundamento dessa revolução no caminho do socialismo que fará as transformações necessárias para que se elimine todas as formas de opressão. Veja que é o oposto da colocação do autor, que acredita que a transformação só pode ocorrer se também houver a supressão de todas as opressões.
Dizer que é a classe operária que vai dirigir a revolução não significa que a revolução alterará de um só golpe todos os problemas sociais. Mas significa que é a revolução que abrirá o caminho para a superação desses problemas.
“A luta por mais direitos para a comunidade LGBTQIA+ não pode ser separada da luta contra o sistema capitalista, que oprime não apenas a classe trabalhadora, mas também marginaliza e explora as identidades não heteronormativas. É necessário, portanto, que construamos um movimento que, enquanto luta pela liberdade sexual e de gênero, também combata as bases econômicas que sustentam todas as formas de opressão e exploração.”
Aqui, o autor não especifica qual seria essa luta pela liberdade sexual e de gênero. O que seria isso, uma luta por direitos concretos ou uma defesa de que a sociedade deveria se sujeitar aos dogmas dos LGBTs? O autor não explica nada, mas mais à frente ele dá a entender que se trata da segunda opção.
Ao formular a coisa dessa maneira, o autor acredita estar adaptando as teorias identitárias da chamada “luta contra as opressões” ao marxismo. O que ele faz, no entanto, é um tipo de revisionismo do marxismo ou, para sermos mais explícitos, uma deturpação grosseira do marxismo.
Para disfarçar esse fato, o artigo aposta em generalidades. Ele não explica quase nada concretamente, não entra a fundo sobre quais seriam essas concepções que ele atribui a Lênin e a Trotski. São colocações genéricas como “Lênin e Trotski eram contra todo o tipo de opressão”. Maravilhoso, infalível. Mas o que exatamente o marxismo diz ou diria sobre a luta dos LGBTs, que é o tema central do artigo? O autor não sabe ou não quer dizer, ficando apenas nessas generalidades.
E por que ele faz isso? Justamente porque o autor não é marxista, e suas ideias não têm nada a ver com Lênin e Trotski. O autor é adepto de teorias identitárias, idealistas no seu cerne. Para ele, a questão da opção sexual, por exemplo, é tão ou mais fundamental do que a questão de classe.
E justamente quando se atreve a falar sobre coisas mais específicas é que o autor se revela:
“Assim, nossa luta deve ir além da defesa de direitos civis, como o reconhecimento do nome social e a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Devemos avançar na construção de uma sociedade onde todas as formas de opressão, incluindo a cis-heteronormatividade, sejam desafiadas e superadas. A autodeterminação das identidades de gênero e a liberdade sexual são direitos universais que não podem ser barganhados.”
Para o autor, a luta é pelos direitos civis, ou seja, direitos democráticos e legítimos para a comunidade LGBT. Mas como ele mesmo diz, não quer apenas direitos sociais, ele quer “desafiar e superar a cis-heteronormatividade”. Aqui a ideologia identitária revela-se com toda clareza. Traduzindo a terminologia identitária para o português, o que ele quer dizer é que a sociedade não deveria ser heterossexual, o que nos faz concluir que para ele a norma é ser homossexual e/ou transexual.
Aqui, o disfarce marxista falha miseravelmente. Se é correto dizer que o marxismo luta pelos direitos democráticos de todos, incluindo os LGBTs, é totalmente anti-marxista dizer que a sociedade não teria uma “norma” heterossexual. Marx, Engels, Lênin e Trótski não só nunca defenderam isso, como eles mostraram o oposto disso.
O marxismo nunca defendeu que seria preciso impor para a sociedade uma determinada norma de comportamento sexual que não fosse justamente a normal comum. As pessoas têm o direito de terem a opção sexual que desejarem e não serem perseguidas por isso, mas isso não significa que o restante da sociedade deverá adotar essa opção. É uma coisa totalmente absurda!
O autor não quer uma revolução, ele quer impor ao restante da sociedade seus dogmas sobre as questões sexuais e, como ele diz, “de gênero”.
O artigo do autor é interessante porque revela a infiltração da ideologia identitária nos grupos que se dizem marxistas, que estão abandonando totalmente os fundamentos do marxismo para se adaptarem a uma ideologia reacionária. Essa ideologia não é apenas errada, ela é oposta e inimiga do marxismo.