Política nacional

Bolsonarismo demonstrou sua capacidade de mobilização

Ato por “anistia” foi muito mais numeroso que o ato “sem anistia”

Com duas semanas de diferença, ocorreram, no Brasil, atos com reivindicações opostas. No dia 16 de março, em Copacabana, no Rio de Janeiro, foi realizada uma manifestação convocada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em defesa da anistia para os envolvidos na invasão dos prédios dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Já no dia 30, na Avenida Paulista, em São Paulo, partidos da esquerda parlamentar, como o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), organizaram, junto a movimentos sociais, uma manifestação contrária à anistia, valendo-se do aniversário de 61 anos do golpe militar de 1964.

A análise dos dois eventos, feita pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital da Universidade de São Paulo (USP), revelou não apenas a diferença na plataforma de cada manifestação, mas também no seu engajamento popular. Utilizando fotos aéreas e software de inteligência artificial, o estudo quantificou o número de participantes em ambos os atos, proporcionando um panorama detalhado sobre o tamanho de cada manifestação.

Segundo o levantamento, o ato bolsonarista teria reunido 18,3 mil pessoas. Trata-se de um número muito inferior ao número de pessoas mobilizadas em atos anteriores convocados por Bolsonaro, o que foi celebrado pela esquerda pequeno-burguesa como um indício de que a extrema direita estaria enfraquecida. No entanto, o mesmo Monitor do Debate Político da USP atestou que cerca de 6,6 mil pessoas estiveram presentes no ato na capital paulista – isto é, pouco mais de um terço da quantidade de pessoas mobilizadas por Bolsonaro. Convém ainda destacar que Bolsonaro convocou o ato em um momento de bastante dificuldade, sendo fortemente criticado pela grande imprensa e com vários de seus patrocinadores monitorados pela Justiça. Os defensores do mote “sem anistia”, por sua vez, contam com o aparato do governo federal.

Os próprios organizadores do ato na Avenida Paulista já previam um fracasso. Dois dias antes, o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) minimizou a provável diferença de público entre as manifestações em Copacabana e na Praça Oswaldo Cruz. “A questão não é o tamanho do público. Nós não podemos deixar as ruas para o bolsonarismo e ficar na defensiva nesta pauta da anistia”, disse o ex-candidato a prefeito de São Paulo.

A declaração de Boulos, no entanto, já é, em si, bastante defensiva. Segundo a propaganda de partidos como o PSOL, o “fascismo” estaria sendo derrotado no Brasil. O País, marcado por episódios como a sangrenta ditadura militar de 1964-1985, estaria “dando um recado” aos “golpistas”. Se é assim, se há uma vitória popular em curso, por que Boulos deveria esperar um público pequeno? Sua declaração apenas revelam a farsa do que diz o seu partido.

O que os dois atos mostraram é que o bolsonarismo, apesar de cercado em várias frentes, especialmente na perseguição jurídico-policial, está se provando uma força muito poderosa na situação política. A defesa da “anistia”, por mais que tenha encontrado dificuldades, se mostrou como um movimento mais bem articulado que as forças governistas.

Na prática, isto quer dizer que a capacidade de mobilização do bolsonarismo hoje pode desafiar abertamente a política das instituições do Estado. Afinal, a “anistia” é um movimento que visa desmoralizar o Supremo Tribunal Federal (STF). O fato de que a manifestação de Copacabana tenha mobilizado muito mais pessoas que a da Avenida Paulista e de que a possibilidade de a questão ser votada no Congresso Nacional hoje se tornou real mostram o avanço do bolsonarismo no regime.

Gostou do artigo? Faça uma doação!