Ricardo Machado

É dirigente do Sindicato dos Bancários de Brasília e ex-dirigente da CUT-DF. Integra a Coordenação dos Comitês de Luta do DF e Membro do Partido da Causa Operária (PCO)

Coluna

Banco de Brasília: negociata estadual

A compra de ações do Banco Master pelo Banco de Brasília sequer deixa o BRB como controlador do Master. A espetacular maracutaia envolve a compra de 48% das ações ordinárias

Está em curso no Banco de Brasília (BRB) uma política que visa transferir o dinheiro da população de Brasília para os bolsos de banqueiros privados falidos.

A negociata estadual, que está sendo conduzida pelos prepostos do governador de Brasília, Ibaneis Rocha, à frente da direção da instituição financeira pública, trata-se da transferência de R$ 2 bilhões dos cofres do BRB, ou seja, de um banco estatal, controlado pelo governo do Distrito Federal, para o Banco Master — uma transação ultra arriscada, já que o banco se encontra com dificuldades de captação de recursos e sua compra foi recusada por outros bancos devido aos ativos arriscados, como precatórios e ações de empresas em dificuldades.

A compra de ações do Banco Master pelo Banco de Brasília sequer deixa o BRB como controlador do Master. A espetacular maracutaia envolve a compra de 48% das ações ordinárias (com direito a voto), ou seja, o Banco de Brasília não terá nenhum controle do Banco Master nessa nova estrutura.

O acordo entre o BRB e o Banco Master ainda está sujeito a aprovações do Banco Central e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Misteriosamente, antes das análises do Banco Central e do Cade, neste dia 31 de março, houve uma corrida especulativa na Bolsa de Valores com as ações do BRB, que tiveram uma alta tão espetacular quanto estranha: 100% em apenas um dia.

“As ações do Banco de Brasília (BRB; BSLI3) registram uma sessão de disparada e entram em leilões sucessivos. Às 10h30 (horário de Brasília), os papéis BSLI3 saltavam 13,48%, para depois entrarem em leilão, com projeção de volta às 11h04; após a volta do leilão, os papéis disparavam ainda mais, com salto de 100%, a R$ 14,98, às 11h11.” (InfoMoney, 31/03/2025)

A transferência dos recursos do povo de Brasília para os bolsos dos banqueiros e capitalistas é um caso clássico de doação de dinheiro público para salvar capitalistas privados falidos.

É a saída do neoliberalismo ao estilo FHC (PSDB), que, em seus governos na década de 1990, utilizou o famigerado Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional), destinando, na época, mais de R$ 30 bilhões do dinheiro público para os bancos privados falidos (Banco Econômico, Banco Mercantil, Banco Nacional, Bamerindus, Pontual, Crefisul, dentre outros).

Além de o governo neoliberal de Ibaneis meter a mão no bolso da população de Brasília, essa manobra tem o cunho de aumentar a tentativa de privatização do BRB. A operação arquitetada por Ibaneis tem em seu bojo uma manobra para facilitar a privatização do banco e beneficiar os amigos do governo na compra do BRB. Em qualquer privatização, o ponto mais importante e delicado é a definição do preço das empresas e, portanto, as referências que devem nortear a valorização ou desvalorização das ações. Nesse caso, como se pode verificar, as ações do banco obtiveram uma valorização de 100% do dia para a noite, em função da compra do Banco Master.

Logicamente, os principais prejudicados com essa política são a população e os trabalhadores bancários do BRB. O que se coloca para o ativismo classista e para os trabalhadores descontentes com a presente situação é debater, em seus locais de trabalho, a necessidade de convocação de um Congresso dos bancários do BRB para organizar a reação à ofensiva do governo de Ibaneis Rocha.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

Gostou do artigo? Faça uma doação!