Nessa terça-feira (25), o governo russo anunciou um avanço significativo nas negociações entre Rússia e Estados Unidos para a resolução do conflito na Ucrânia, com a formalização de um acordo para promover a Iniciativa do Mar Negro. Após intensas discussões de 12 horas realizadas na Arábia Saudita, na última segunda-feira (24), as duas potências chegaram a um entendimento que prevê medidas concretas para garantir a navegação segura e desmilitarizada na região estratégica do Mar Negro. A iniciativa, que pode representar um passo importante na busca por uma solução pacífica, foi apresentada como resultado de esforços diplomáticos que envolvem também outras nações e instituições internacionais.
Compromissos concretos para garantir a navegação segura
O acordo prevê medidas rigorosas para garantir que as embarcações comerciais que trafeguem pelo Mar Negro não sejam utilizadas para fins militares, estabelecendo um compromisso mútuo de evitar o uso da força na região. Para assegurar o cumprimento dessas disposições, foi acertada a realização de inspeções sistemáticas nas embarcações, com o objetivo de verificar possíveis violações das normas estabelecidas. Segundo a declaração oficial emitida pelo Crêmlin (sede do governo russo), ambos os lados concordaram com a criação de mecanismos de monitoramento para evitar o uso de navios comerciais para o transporte de armamentos ou equipamentos militares.
Além disso, os Estados Unidos comprometeram-se a ajudar na restauração do acesso da Rússia ao mercado internacional de produtos agrícolas e fertilizantes, removendo obstáculos que têm prejudicado significativamente a economia russa desde a imposição de sanções ocidentais. A promessa inclui a redução dos custos de seguro para o transporte marítimo russo, a reabertura de portos e o restabelecimento do acesso aos sistemas de pagamento necessários para viabilizar as exportações.
Entre as medidas mais relevantes está a retirada das restrições impostas ao Banco Agrícola Russo e a outras instituições financeiras russas que participam do comércio internacional de alimentos e fertilizantes. A reconexão ao sistema de pagamentos SWIFT, bloqueada como parte das sanções anteriores, também está contemplada no acordo, permitindo que transações internacionais voltem a ser processadas normalmente. Além disso, será suspensa a aplicação de sanções contra embarcações com bandeira russa e serviços portuários, bem como garantido o fornecimento de maquinário agrícola e bens relacionados à Rússia.
Trégua energética e suspensão de ataques a infraestruturas
Outro ponto central do acordo é a criação de um mecanismo que estabelece um cessar-fogo temporário, com duração inicial de 30 dias, que proíbe ataques contra infraestruturas energéticas na Rússia e na Ucrânia. A medida inclui instalações de processamento e armazenamento de petróleo e gás, usinas nucleares, hidrelétricas e redes de distribuição de energia. Esta trégua, inicialmente proposta por Donald Trump em conversa telefônica com Vladimir Putin, poderá ser prorrogada, desde que ambas as partes cumpram os compromissos assumidos.
O anúncio da trégua vem em meio a acusações russas de que forças ucranianas continuam atacando instalações energéticas na Rússia, mesmo após o compromisso de cessar os bombardeios. Na última semana, por exemplo, o Consórcio de Oleodutos do Cáspio (CPC) denunciou um ataque ucraniano à estação de bombeamento de petróleo Kropotkinskaya, na região de Krasnodar. A instalação é uma peça chave no escoamento de petróleo bruto dos campos do Cazaquistão e da Rússia para o porto de Novorossiysk, no Mar Negro, afetando diretamente os interesses econômicos de empresas estadunidenses como Chevron e ExxonMobil, que têm participação no consórcio.
Garantias firmes exigidas pela Rússia
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, afirmou que a retomada da Iniciativa do Mar Negro só será viável com garantias concretas e verificáveis por parte dos Estados Unidos. Em entrevista à emissora russa Canal 1, Lavrov reforçou que a Rússia não aceitará promessas vagas ou condicionadas a decisões unilaterais da Ucrânia, destacando que apenas um comando direto de Washington ao governo de Vladimir Zelensqui poderá garantir o cumprimento das medidas acordadas.
“A posição da Rússia é clara: precisamos de garantias específicas e mecanismos verificáveis que assegurem a execução dos compromissos. Não podemos nos basear apenas em palavras ou promessas que não se concretizam na prática”, disse Lavrov. Segundo ele, os negociadores russos em Riade destacaram a importância de que qualquer nova versão da Iniciativa do Mar Negro seja livre de ambiguidades, evitando que o acordo seja novamente manipulado em favor dos interesses ocidentais.
Iniciativa do Mar Negro
Originalmente negociada pela ONU e pela Turquia em julho de 2022, a Iniciativa do Mar Negro foi criada para garantir o escoamento seguro de grãos ucranianos em meio ao conflito, em troca do relaxamento das sanções ocidentais contra produtos agrícolas e fertilizantes russos. No entanto, a Rússia retirou-se do acordo em 2023, argumentando que o imperialismo não cumpriu as promessas feitas e que a Ucrânia abusou do corredor de exportação para realizar atividades militares.
Desde então, a Rússia tem insistido na necessidade de garantias mais robustas para voltar a participar do acordo. Lavrov enfatizou que o mercado de grãos e fertilizantes precisa ser previsível, de modo que os interesses russos não sejam excluídos por manobras ou por manipulações comerciais. “Queremos um mercado estável, que nos permita planejar a produção e a exportação sem enfrentar obstáculos arbitrários impostos por sanções políticas”, afirmou o chanceler.
Contradições entre EUA e União Europeia
Apesar do avanço no diálogo entre Rússia e Estados Unidos, Lavrov criticou a postura da União Europeia, acusando o bloco de contradizer a posição da administração Trump ao insistir na inclusão da Ucrânia na OTAN. Segundo o ministro russo, essa pressão europeia é fruto de um erro estratégico dos líderes europeus, que seguem uma política de confronto direto com a Rússia, alimentando uma escalada que só prejudica os próprios interesses sociais e econômicos do continente.
Lavrov também ironizou os planos recentes de enviar tropas ocidentais para a Ucrânia após um cessar-fogo, classificando os líderes europeus como “sonhadores” que não compreendem a realidade do conflito. Para o chanceler, qualquer tentativa de militarizar a Ucrânia com tropas da OTAN poderia desencadear uma guerra direta com a Rússia.