Chico Buarque é celebrado como um símbolo da resistência contra a Ditadura Militar. Muitas de suas músicas foram compostas e produzidas em meio à censura e à repressão, denunciando com muita inteligência e criatividade os crimes do regime. Canções como “Cálice” e “Acorda Amor” tornaram-se ícones da luta contra o arbítrio e são até hoje reverenciadas por aqueles que se dizem de esquerda. No entanto, o que se vê atualmente é uma inversão completa: muitos desses que reverenciam Chico como referência progressista são os mesmos que aplaudem a escalada autoritária do Judiciário, em especial do STF, que age hoje como um verdadeiro tribunal de exceção, implantando uma ditadura judicial no Brasil.
Em “Cálice”, composta em 1973, Chico expõe a dor de uma geração silenciada pela censura e pela violência de Estado. O verso “Pai, afasta de mim esse cálice” soa como uma oração desesperada, mas é também um grito de revolta. O trocadilho com “cale-se” deixa claro o recado: a ditadura não queria apenas prender, torturar e matar — queria calar. E foi exatamente isso que Chico denunciou, desafiando a censura e colocando sua própria liberdade em risco para dizer o que o povo não podia dizer.
Hoje, quase 50 anos depois, o mesmo gesto de censurar se repete — não mais em nome da “segurança nacional”, mas da “defesa da democracia”. Quem critica o STF, quem questiona o regime político, quem ousa sair da cartilha oficial da imprensa burguesa e das instituições dominadas pela burguesia, é perseguido, calado, banido, preso. E tudo isso é feito com o apoio e comemoração da esquerda pequeno-burguesa que trocou seus princípios por uma aliança oportunista com o poder Judiciário. Uma esquerda que tanto diz que ama Chico cantando “Cálice”, e outras composições da época, aplaude as ações do STF que proíbem canais de comunicação, suspendem perfis, mandam prender pessoas por suas opiniões e calam adversários políticos.
A mesma hipocrisia aparece quando se fala em “Acorda Amor”, outra obra-prima de Chico, lançada em 1974, que descreve com ironia e angústia as batidas policiais na casa de militantes durante a madrugada. A letra começa com “Acorda, amor / eu tive um pesadelo agora”, e segue com o pavor de alguém que teme ser levado pela repressão: “Sonhei que tinha gente lá fora / batendo no portão”. A música não é uma metáfora exagerada — é um retrato fiel do que acontecia com milhares de brasileiros perseguidos pelo regime. Hoje, o pesadelo voltou. Não com militares fardados, mas com a Polícia Federal agindo sob ordens do STF, invadindo casas, confiscando celulares, bloqueando contas, intimidando adversários do regime. E mais uma vez, setores da esquerda batem palmas. Agora acham normal que pessoas sejam perseguidas por publicar um vídeo, escrever uma crítica ou fazer uma piada. Acham normal que alguém acorde com agentes à sua porta por expressar uma opinião política. Esqueceram completamente o significado de “Acorda Amor”.
O mais grotesco é a esquerda, completamente integrada ao sistema, usando Chico como símbolo de algo que já não defende. São os “progressistas” que veem com bons olhos a censura, desde que ela venha com aparência institucional, com justificativa moral, e seja dirigida àqueles que consideram seus inimigos. A verdade é que esses setores não têm compromisso algum com a luta pela democracia, muito menos com o socialismo. Estão alinhados com os interesses do imperialismo, da grande imprensa como a Globo e de ongs internacionais. Pedem, para os mesmos que promoveram o Golpe de 2016 contra Dilma, prenderam Lula, aprovaram a reforma trabalhista, desmontaram a previdência, defendam a “Democracia”.
Nos últimos versos de ‘Acorda Amor’, Chico destacou: ‘Atenção! / Não demora / Dia desses chega a sua hora.’ Ou seja, a Ditadura chega para todos e, como de costume, recai mais duramente sobre a esquerda — e sempre contra os trabalhadores.
Chico compôs também “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. Mas esse dia ainda não chegou e a esquerda precisa romper com sua capitulação, abandonar o alinhamento com o imperialismo e defender, de fato, os interesses do povo trabalhador.