A campanha da esquerda golpista é tão baixa que se apoia nos piores argumentos contra o governo Lula. É caso do artigo dos pseudo-trotskistas Esquerda Diário “Governo Lula-Alckmin destinará quase metade do orçamento para pagar fraudulenta dívida pública aos banqueiros”. Ao invés de utilizar os erros do governo do PT para atacá-lo, utiliza-se de um argumento fraco: Lula deveria combater o mais poderoso monopólio que atua no Brasil, o dos bancos internacionais. De fato, seria positivo que o presidente o fizesse, mas antes Lula precisa adotar muitas outras políticas nacionalistas e de esquerda.
O texto começa com o subtítulo: “o presidente Lula recentemente sancionou o projeto do Orçamento deste ano, aprovado no Congresso. O orçamento público destinará quase metade dos recursos da União para o pagamento da dívida pública, enchendo os bolsos de banqueiros ao invés de priorizar áreas como saúde e educação”. Aqui o Esquerda Diário ignora que houve toda uma disputa para combater o Teto de Gastos imposto pelo golpe de 2016. Ignora-se que foi o próprio golpe de Estado de 2016 que impôs esse Teto de Gastos, e que este só pode ser derrubado por meio de ampla mobilização popular, com destacada liderança dos trabalhadores.
Logo depois se vê a farsa da argumentação: “a proposta do Congresso Nacional, referendada por Lula, prevê que os recursos serão alocados de forma que destes 5,4 trilhões, 2,3 trilhões serão destinados apenas ao pagamento da dívida pública, que é majoritariamente de posse dos grandes bancos. Esse valor conta com o pagamento da dívida pública mobiliária federal, a amortização da dívida pública federal e o refinanciamento da dívida pública”. Se a proposta é do Congresso Nacional, tendo apenas sido referendada por Lula, por que o MRT, organização ligada ao portal, culpa o presidente?
Este é, na verdade, o principal erro de toda a esquerda golpista: todos os ataques da direita contra a população são colocados sob a responsabilidade de Lula. Foi assim com o Arcabouço Fiscal, com a Reforma Tributária e também com o Marco Temporal. Todos foram ataques da direita que Lula tentou manobrar em defesa dos trabalhadores. Foram ganhos pequenos, mas a posição de Lula nesses três casos não foi de ataque à população. Ao contrário, por exemplo, da questão da repressão que Lula está, a princípio, de acordo com a direita repressora.
Aqui vale analisar também esse caso. A política de Lula para a repressão é de fortalecer as polícias, aumentar a censura por meio da PL das “Fake News”, desarmar o cidadão, entre outras. Mas todas essas políticas, na verdade, não são essencialmente do presidente, são da direita tradicional que está dentro do governo Lula e que também controla grande parte do regime político. O maior representante da política repressiva no governo Lula era Flávio Dino, que agora está no STF. Ele, sim, é um representante da política de defesa da repressão em defesa da democracia.
Nesse caso o mais correto seria atacar Dino ou o presidente Lula? A experiência da luta política mostra que em governos de Frente Ampla o correto para as organizações operárias não é atacar o governo de esquerda como um todo mas sim a sua ala direita. Quando se formou a frente popular durante a Revolução Russa a política dos bolcheviques não era “abaixo o governo provisório!” ele era “fora todos os ministros capitalistas!”. Da mesma forma, durante a Revolução Espanhola em 1936 a política dos revolucionários não era “abaixo a Frente Popular!”. A política era a mesma, um governo dos trabalhadores, sem a participação da direita.
Eles então se posicionam sobre o governo da frente ampla: “essa é mais uma das inúmeras provas de que o governo de frente ampla não hesita em beneficiar os grandes capitalistas, e tem um compromisso ferrenho em garantir os lucros das grandes instituições financeiras. É preciso enfrentar o grande capital com o não pagamento da fraudulenta dívida pública e a estatização dos grandes bancos sob controle dos trabalhadores, para que assim esses recursos que hoje servem apenas para encher os bolsos dos capitalistas possam estar de fato a serviço da classe trabalhadora.”
A conclusão é real, é preciso estatizar os grandes bancos sobre o controle dos trabalhadores. Mas dizer isto é o mesmo que dizer que é necessária uma revolução operária. Não existe uma política concreta para a luta dos trabalhadores, apenas um ataque ao governo do PT. Uma organização que se pretende revolucionária deveria ter sempre uma política ativa para a atuação da classe operária. Durante a Revolução Russa, o objetivo de Lênin era a tomada do poder pelos Bolcheviques, mas essa era sua palavra de ordem? Não, era sim “pão, paz e terra” e “fora todos os ministros capitalistas”. Ela se tornou posteriormente “todo poder aos sovietes” quando os sovietes de fato eram organizações de massa.
A incapacidade da esquerda pequeno burguesa de atuar em governos de frente ampla é o que a torna no fim apêndices do golpe de Estado. É preciso estimular a luta dos trabalhadores, e para isto deve-se levar em conta que, apesar de ser um governo de frente ampla, é o governo do principal representante dos trabalhadores brasileiros: Lula. Somente na luta desses trabalhadores sua consciência poderá evoluir de uma esquerda de tendências reformistas para uma posição revolucionária. O setor mais avançado da classe operária nesse momento está com o presidente Lula, não fazendo sentido, então, sair em combate direto contra o presidente. Essas dezenas de milhões de trabalhadores, entretanto, tem uma grande disposição no combate à direita que sabota Lula e, nesse combate, elas evoluem politicamente.
O ataque ao partido mais popular da esquerda, que está no governo, também impede a luta prática. Os revolucionários devem atuar no meio da classe operária, ou seja, atuar em meio às dezenas de milhões de apoiadores de Lula. Eles em última instância apoiam as políticas do partido revolucionário, aumento de salário, revogação das reformas golpistas, estatização dos bancos, etc. E por fim, Lula não é, de forma alguma, o maior inimigo dos trabalhadores, pelo contrário é um aliado de posições moderadas. Os trabalhadores devem ser instruídos a combater os seus grandes inimigos, inclusive pressionando o governo do PT que, ao contrário do que pensa o Esquerda Diário, é um governo de esquerda.





