A atenção do imperialismo se voltou para o problema do conflito na Palestina, tanto de um ponto de vista estratégico e propagandístico, quanto financeiro. Isso implica em um abandono cada vez maior de outra frente de batalha importante: a Ucrânia. Logo, se completarão três anos desde que a Rússia iniciou a operação militar no país vizinho, o que colocou todo o imperialismo e seu aparato político em ação contra os russos, gerando boicotes, sanções, envio de armas para os ucranianos e uma grande pressão não só sobre os russos, mas a todos que os apoiassem.
No entanto, há uma visível exaustão dessa política, e a perspectiva de o imperialismo mantê-la ao mesmo tempo em que provê auxílio para os genocidas do Estado de “Israel” parece improvável. Já há uma clara movimentação de vários setores do governo norte-americano e dos países europeus nesse sentido.
Isso tem incomodado alguns jornalistas asseclas da burguesia, que procuram repetir os apelos de Zelensky para que os países “ocidentais” não parem de mandar sua mesada e suas armas para que ele possa se segurar em pé no conflito com os russos. É o caso de uma coluna publicada esta semana no jornal burguês pró-Ucrânia Folha de São Paulo. A coluna é da autoria de Martin Short, e foi originalmente publicada, em inglês, no jornal Financial Times.
Além disso, a matéria também dá uma demonstração da guinada do imperialismo na análise da questão ucraniana, a começar pelo seu título: ‘A fadiga da guerra da Ucrânia’ é imperdoável. O articulista venal quer fazer crer que a imprensa internacional sempre considerou a Ucrânia incapaz de encarar o conflito e que só o fato de ela ter chegado até aqui é uma vitória. Ele afirma que “dada sua história pós-soviética de corrupção e divisão e o tamanho relativo dos dois países, o que a Ucrânia conquistou é surpreendente. Uma nova nação está nascendo do fogo”. Se no começo, toda a propaganda da imprensa imperialista era de que a Ucrânia sairia vitoriosa dessa guerra com auxílio da OTAN, dos EUA e da União Europeia, agora a consideração já é que a Ucrânia sobrevive apesar de seu tamanho, histórico etc.
Como o desempenho ucraniano no conflito é catastrófico, apesar dos bilhões de dólares investidos pelo imperialismo na guerra, é preciso que o jornalista farsesco monte uma fantasia que faça parecer que há algo de positivo para os ucranianos nessa guerra. Ele afirma: “apesar da perda de território, da perda de mão de obra, por meio da emigração, do recrutamento, de ferimentos e mortes, e dos custos materiais de combater essa guerra, a economia também está indo muito bem”. A frase é bastante ridícula, ele enumera uma série de problemas devastadores para a economia e a situação política ucraniana, advindos da guerra, mas termina com um não-irônico “a economia vai bem, obrigado”. Não se trata de um jornalista, mas de um torcedor de Zelensky.
Para procurar embasar a sua afirmação absurda, ele comenta que “o FMI aprovou um programa de facilidade de financiamento estendido (EFF, na sigla em inglês) de US$ 15,6 bilhões (R$ 77,4 bilhões) como parte de um pacote de apoio de US$ 115 bilhões (R$ 571 bilhões)”, aliado a um programa de reformas estruturais para poder preparar a adesão da Ucrânia à União Europeia. Segundo ele, o próprio conselho do FMI diz que os ucranianos fizeram um “progresso significativo” em relação a se adaptar às exigências do próprio FMI, o que não indica nenhuma melhora econômica no país, mas apenas na sua capacidade de se submeter aos desmandos do imperialismo, o que geralmente implica num aumento da austeridade e dos ataques contra a população do país.
A análise de Martin Short sobre o PIB da Ucrânia também é surpreendentemente pérfida. Ele diz que a primeira previsão do crescimento do PIB do país em 2023 era de algo entre -3% e 1%, mas que agora estão olhando para uma possível marca de 5%, isso seguido de uma gigantesca queda de 29% no PIB de 2022, ou seja, o desempenho foi terrível, mesmo recebendo remessas de dinheiro diárias do imperialismo.
A preocupação de Short se revela no parágrafo seguinte, quando afirma que “a Ucrânia só pode resistir [à guerra] se receber o apoio sincero e oportuno das potências ocidentais”. Ou seja, “por favor não abandonem a Ucrânia”, mesmo estando claro que o conflito não tem futuro algum e que a derrota dos ucranianos é apenas uma questão de tempo.
Ele também argumenta que “ajudar a Ucrânia também é barato. Nenhum soldado ocidental está em risco. As somas a serem acordadas este ano representam menos de 0,25% do PIB combinado da UE, Reino Unido e EUA. O argumento de que isso é inacessível é ridículo”. No entanto, aqui não se trata mais de um problema de ser apenas barato ou caro, mas se vale a pena para o imperialismo continuar enviando recursos para essa empreitada falida, com a possibilidade de outra derrota em uma região muito mais importante estrategicamente, que é “Israel”.
Por fim, é preciso desmascarar a demagogia da imprensa internacional no que diz respeito à questão russa. Logo no começo da matéria, Martin Short afirmou que “o que está acontecendo na Ucrânia desafia os valores ocidentais e os interesses ocidentais. Desafia nossos valores, porque a Ucrânia provou com seus recursos, seu sangue e sua vontade o desejo de ser um país livre, independente e democrático. Desafia nossos interesses porque, se for independente, pode ser um baluarte contra a Rússia. Desde que a Rússia de Putin é a potência revanchista mais perigosa do continente desde a Alemanha de Hitler, a Europa precisa disso”. Trata-se da comprovação de que não é algo do interesse da humanidade a derrota dos russos, mas sim do imperialismo norte-americano e europeu.
Quando Short usa o termo “ocidental” e fala de “valores ocidentais”, ele está se referindo aos valores e interesses do imperialismo. A fábula de que Putin seria uma potência “revanchista” também é para criar um clima de medo entre a população europeia com relação à Rússia. O mesmo se dá com a demagogia da Ucrânia “democrática”. Para ele, democrático é quem está de acordo com se vender totalmente para o imperialismo.





