Brasil

Lula e Joe Biden: setores opostos, crises inversas

Colunista do Poder 360 apresenta a crise de popularidade de Joe Biden como análoga à diminuição do apoio a Lula, mas os fenômenos são contrários, e de ambos, só Lula tem uma saída

No último sábado, o jornal Poder360 publicou o artigo de opinião Lula e Biden, assinado por Marcelo Tognozzi. A matéria busca equiparar as crises pelas quais ambos os governos passam, traçando semelhanças e diferenças entre o presidente brasileiro e o presidente norte-americano, e apontando correções de rumo possíveis, mas, neste caso, apenas para Lula. No entanto, os fenômenos de crise são inversos, e é preciso olhar mais atentamente para a questão. Vamos aos argumentos:

“O site 538, no qual são publicados cruzamentos das principais pesquisas de opinião dos Estados Unidos, registra que Biden começou a perder consistência ainda no 1º ano de governo, assim como Lula.”

Sobre este ponto, um breve comentário antes de prosseguir. Joe Biden foi eleito com um programa que prometia uma verdadeira reforma na sociedade norte-americana, o que era uma falsificação. Apesar disso, os eleitores, com a campanha histérica realizada em torno da figura de Donald Trump, foram levados a apoiá-lo, com relutância. Ao tomar posse, Biden descartou todas as promessas que havia feito imediatamente, o que foi um golpe para qualquer popularidade que pudesse adquirir. Trata-se de uma figura artificial por essência.

Por outro lado, Lula tinha um programa que, porém, não conseguiu e não consegue implementar por falta de influência ou controle sobre o regime político estabelecido sobre um golpe de Estado, apenas parcialmente derrotado em 2022. Enquanto Joe Biden compõe o setor que controla o regime político nos EUA, Lula compõe o setor sufocado pelas instituições do regime, que visam impedi-lo de implementar seu programa, o que mantém seu governo e o País numa estagnação econômica e política.

“Outra coincidência são os adversários processados na Justiça, porém com fôlego e disposição incomuns para a mobilização. Os Estados Unidos vivem a inusitada situação de uma eleição disputada por um presidente contra um ex-presidente, Donald Trump, o qual tem feito campanha do banco dos réus. No Brasil, Bolsonaro, que disputou contra um ex-presidente e perdeu, está nas ruas, mantendo uma mobilização forte, usando intensamente as redes sociais.”

O caso dos processos é outra falsa equivalência. O setor principal do imperialismo visa conter alas da direita que representam outro setor da burguesia, e por isso os processos e condenações de Trump e Bolsonaro. Assim, ao passo em que Joe Biden é um representante deste setor, tal política se estabelece como algo coerente para Biden, mas com Lula a situação é diferente. Lula teve o governo de uma indicada sua, Dilma Rousseff, derrubado pelo imperialismo, e foi preso por esse mesmo setor, o que deu a vitória a Bolsonaro em 2018.

O apoio de Lula e do PT, portanto, à política de perseguição judicial à oposição, ao invés de mobilizar sua base social (algo que Lula, e que Biden não possui), de trabalhadores, entidades sindicais e movimentos populares, e fazer o enfrentamento político, é uma contradição de Lula com a política que ele mesmo representa. É uma tentativa de aliança com a ala majoritária do imperialismo que pode apenas acabar num desastre, seja pelas mãos desta ala, seja pela impopularidade de tal política entre a população.

“As pesquisas mostram tanto Lula como Biden desconectados da maioria da população. Eleitos com os votos de eleitores que rejeitavam seus adversários e a eles deram um voto de ocasião, os 2 presidentes não conseguiram furar a bolha e conquistar novos eleitores. Diferentemente, perdem apoios, mostram os números.”

Temos aqui outra falsificação. Joe Biden é uma figura artificial, um fantoche para o regime do capital financeiro internacional, mas esse não é o caso de Lula. Biden foi eleito por uma campanha de terror em torno de Trump, que conseguiu cooptar alguns setores sociais.

Já Lula foi eleito por se aproximar de sua base real, da classe operária, como se pode ver na mudança de política do primeiro para o segundo turno das eleições de 2022. No segundo turno, Lula pôs de lado a frente ampla, e foi aos bairros populares e operários, em grandes comícios vermelhos, cor que não se via no primeiro turno.

Ou seja, Lula não foi eleito pela política do “mal menor” que elegeu Biden, como afirma o colunista, mas apesar dela, que visava aproximar Lula da política da direita tradicional para “furar a bolha”. A perda de apoio de Lula, então, se dá pela falta de radicalização do presidente que, pelo cenário apresentado anteriormente neste artigo, e por seu histórico de conciliador, ainda não vê espaço para tanto.

“Lula é o único candidato forte da esquerda. O PT não tem outros nomes com a mesma força. Há mais de 40 anos, segue apostando em Lula.”

“O PT chegou ao ponto de não ter candidato forte em nenhuma capital importante na eleição deste ano.”

O artigo busca apresentar uma determinada falência política do PT, o que ocorre de fato, mas não pelo motivo aparentemente fatalista apresentado (“não tem nomes”, “não tem candidatos”). O PT simplesmente não alça, dentro do próprio partido, figuras mais próximas à população pobre, em sua estrutura partidária, o que gera um partido com uma liderança artificial, com figuras artificiais que, portanto, não apelam a ninguém. O caso de Lula é diferente, visto que uma liderança como ele só surge a partir de um amplo movimento popular. Nas capitais, a política do PT foi de nem sequer apresentar candidatos próprios, ou seja, o partido cava a própria cova.

O colunista então falsifica a política internacional do governo, mas apenas de passagem e sem qualquer argumento, mas, adiante, um ponto interessante:

“O Lula de 2024 se parece com o Getúlio Vargas de 1954, cuja morte completará 70 anos em 24 de agosto.”

“Não estou dizendo que Lula acabará como Getúlio. Longe disso. Faço apenas uma constatação de que quando o mundo muda, governantes só entenderão essa mudança se fizerem parte dela.”

De fato, uma crise ocorre. A direita tradicional murcha, o setor principal do imperialismo está numa crise que parece que lhe será fatal. Ao capitular diante desse setor, Lula se segura num barco que afunda, o que lhe custa o apoio que detém. Para acompanhar as mudanças em curso, de fato, Lula precisa fazer parte dela. Ou seja, impulsionar a mobilização de sua base no Brasil com a colocação de medidas populares na discussão pública, que afetem de maneira significativa a vida da classe operária, e o enfrentamento aberto àqueles que vão à bancarrota política e buscam intimidar o mundo inteiro, apesar de já não conseguirem fazê-lo.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.