Na última segunda-feira, 22 de janeiro, o Ministério da Cultura divulgou nota modificando um de seus editais, ampliando o número de premiações. A mudança no Edital Carolina Maria de Jesus de Literatura Produzida por Mulheres 2023, porém, ocorre em decorrência de nota pública por parte de um coletivo, de nome “Nós, Carolinas do Brasil”, de 19 de dezembro de 2023, e é a este fato que nos dedicamos no presente artigo.
O chamado coletivo tem por rede o Instagram, com uma conta criada naquele mesmo mês de dezembro, e a primeira publicação da mesma data do próprio dia 19 de dezembro. As 28 publicações na página se dedicam a este tema específico. Na nota, o edital é acusado de promover irregularidades e, mais que isso, de “metodologias de avaliação excludentes e promotoras do racismo estrutural e linguístico”, e é precisamente este o ponto central aqui abordado.
Uma língua sem regras?
Segundo a nota: “o prêmio estabeleceu como critério de maior peso, em caso de empate, o ‘DOMÍNIO TÉCNICO E INVENTIVIDADE NO USO DOS RECURSOS LINGUÍSTICOS’“. Em outras palavras, a promoção do desenvolvimento linguístico do português, através do domínio e inventividade com a língua, é caracterizado como promotor do “racismo estrutural e linguístico“. Seria uma desconsideração da “imensa pluralidade linguística” utilizada pela população brasileira e seria uma tentativa de “restringir nossa rica diversidade a um único modelo de escrita considerado como ‘correto’, modelo decorrente da norma linguística imposta pelos colonizadores desta nação” o que faria do edital “metodologicamente fundamentado na exclusão.”
Em outras palavras, o problema seria cobrar o uso da norma padrão da língua, aquilo que a constitui como língua, e que abre espaço para um desenvolvimento cultural. A norma seria “imposta pelos colonizadores”, algo que flagrantemente é uma falsificação. Hoje em Portugal existe um incômodo face à influência do português brasileiro naquele país, português esse influenciado pela diversidade que compõe a cultura brasileira, que integrou uma série de traços e palavras dos faladas por índios e por escravos africanos à língua.
Ou seja, o desdém, o ataque à língua, é um ataque também a essa influência, que gerou o idioma do Brasil. E mais, é um ataque à cultura nacional de conjunto, formada sobre ele. A campanha alinhada ao identitarismo de que a língua não deve ter regras, que o inglês seria melhor porque não demarca gênero nos artigos, é claramente imperialista, e visa desmontar toda a cultura e senso de nacionalidade do País. Desse modo, fica mais fácil executar uma política de rapina, frente à não defesa nacional contra o imperialismo, à não existência de uma identidade nacional que se contraponha à influência cultural imperialista.
Na prática, a campanha pela não observância do domínio da complexidade linguística do português é uma campanha pela destruição da língua, além de paternalista sobre a população pobre que se diz querer defender. Ao invés de garantir o acesso dessas pessoas a toda a produção histórica brasileira, o que há é uma investida contra os frutos da história do Brasil, pelo que não se diz abertamente, mas está implícito nas colocações, que os “defendidos” não seriam capazes de acessar. É uma farsa, e uma exaltação da miséria, da pobreza e do atraso, aos quais boa parte da população está condenada pelo regime econômico decadente do capitalismo.
Contra o racismo?
A preocupação do coletivo, ademais, com a questão racial, pode ser observada no tema escolhido. Curiosamente, enquanto o concurso de literatura ocorre, talvez o maior escândalo racial do século no planeta ocorre na Palestina, um genocídio, mas, como dito antes, das 28 publicações do coletivo em sua página, nenhuma comenta a questão.
Os problemas que assolam a população negra no Brasil, que são os chamados problemas “estruturais”, também não são comentados. O desemprego, os presídios, a polícia. A campanha levantada pelo coletivo é uma campanha, finalmente, por projeção e remuneração individual — as ganhadoras do concurso recebem R$50 mil. Como repetidas vezes se coloca evidente, o identitarismo é uma ferramenta da burguesia para cooptar um setor da pequena burguesia, que busca cargos acima de tudo.
Ao invés de se colocar frontalmente contra o imperialismo que assola o País, e portanto agride a população pobre como um todo, em particular os negros e índios, defender um acesso para o domínio do idioma à população, muitas vezes mantida no analfabetismo, o que vemos é a busca pela manutenção e exaltação do atraso em que está renegado boa parte do povo brasileiro. Uma política que vai contra os interesses nacionais em todos os sentidos.
Contra o assalto do imperialismo contra a história e a língua nacional, a adoção de estrangeirismos na estrutura e no cotidiano da fala e da escrita, é preciso justamente fazer o contrário. Resgatar o português, língua fundante e central do Brasil, que agregou os povos que hoje o compõem, e permitiu o desenvolvimento de uma cultura tão vasta como temos hoje.





