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José Álvaro Cardoso

Graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Economia Rural pela Universidade Federal da Paraíba e Doutor em Ciências Humanas pela UFSC. Trabalha no DIEESE.

Economia

Fim dos petrodólares e seu significado geral, por José Álvaro

"No dia 9 de junho, a Arábia Saudita anunciou que não irá renovar o acordo dos petrodólares, assinado com os EUA em 1974"

Por José Álvaro, economista, ao Diário Causa Operária (DCO)

 

No dia 9 de junho, a Arábia Saudita anunciou que não irá renovar o acordo dos petrodólares, assinado com os EUA em 1974. Por esse acordo, que já tinha meio século, o governo de Riad passou a exigir dos compradores que suas exportações de petróleo fossem pagas em dólares norte-americanos, ao mesmo tempo que investia as receitas em papéis do tesouro norte-americano. Gradativamente, outros países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) foram também aderindo ao acerto. O acordo, na prática, definiu que o dólar passava a ser a moeda oficial dos negócios com petróleo, o que garantiu a hegemonia dessa moeda no mundo, reforçando assim, enormemente, o domínio financeiro dos EUA. Trouxe, também, uma grande atratividade aos títulos do tesouro norte-americano, na medida em que o acordo estabeleceu na prática um “mercado cativo” para eles.

O acordado envolveu o país que detém a segunda maior reserva de petróleo da terra, localizado em região estratégica em termos geopolíticos, e, ao mesmo tempo, a principal commodity da economia mundial. Pouco países do mundo, mesmo os imperialistas, conseguiam escapar dessa ditadura dos petrodólares. Os países exportadores de petróleo dependiam totalmente do dólar para realizar seus negócios. No caso dos importadores, além dos gastos com compra de petróleo, tinham que manter sempre uma paridade razoável com o dólar para não pagar mais pelo petróleo, em moeda nacional. Com o fim do petrodólar, abre-se a possibilidade de os países importadores e exportadores utilizarem outras moedas, não ficando diretamente à mercê da política monetária norte-americana. 

A decisão anunciada pelo governo saudita em junho está inserida em um contexto de importantes mudanças nas relações internacionais e comerciais. Não se trata de uma decisão isolada sobre petrodólares. Por exemplo, a Arábia Saudita está participante de um projeto de moeda digital, coordenado pelo banco central da China, que envolve outros países como, Hong Kong, Tailândia e Emirados Árabes Unidos. Uma das razões para essa decisão do governo saudita é o comércio cada vez mais significativo com países como China, Índia, Japão e Rússia, que apostam numa maior independência em relação ao dólar. No caso dos países que formam o Brics, entre os citados, vai de vento em popa o projeto de substituir o dólar como moeda das transações realizadas entre si. Em alguns casos, como no comércio entre China e Rússia, a substituição por moedas nacionais já vem ocorrendo. 

Contexto de surgimento do petrodólar

Em 15 de agosto de 1971, os EUA, anunciaram o encerramento do sistema de conversibilidade do dólar ao ouro, vigente desde 1944 no acordo de Bretton Woods. Dentre outras medidas, nesse acordo foi também criado o Fundo Monetário Internacional (FMI), com o objetivo de garantir uma certa estabilidade nas taxas de câmbio entre as moedas. Com a decisão unilateral dos Estados Unidos, alguns anos mais tarde, em 1974, de encerrar a convertibilidade do dólar ao ouro, conhecida como Nixon Shock (Choque Nixon, alusão ao presidente que anunciou a decisão), o dólar tornou-se uma moeda fiduciária, ou seja, sem lastro em algum metal precioso. Nessa configuração, e dado o poderio econômico e bélico dos EUA no mundo, o dólar passou a funcionar como uma moeda de reserva utilizada pelos países. Função que exerce, aliás, até hoje, apesar do enfraquecimento gradativo do dólar. Reservas internacionais, até o momento, se traduzem, praticamente, em reservas em dólares. Política que começa a mudar, como fica caracterizado pela decisão da Arábia Saudita. 

Assim, o acordo realizado entre EUA e a Arábia Saudita em 1974, visou dar uma certa estabilidade para uma economia mundial que ingressava numa crise brutal, após o mais longo ciclo de crescimento do capitalismo, entre 1947 e 1973. A partir do acordo, como vimos, a Arábia Saudita passou a vender seu petróleo em dólares e investir os ganhos em títulos do Tesouro Norte-americano. Em troca recebia proteção militar da maior potência bélica da Terra. Além do fim do sistema acertado em Bretton Woods em 1971, que dava alguma estabilidade ao sistema financeiro internacional, outro evento que pode ser considerado fundamental para o acordo dos petrodólares, foi a crise do petróleo de 1973.  Essa crise decorreu, do ponto de vista imediato, da Guerra do Yom Kippur, que envolveu o estado de Israel e de outro lado, Egito, Síria e Jordânia. Para consolidar suas conquistas territoriais na Guerra dos Seis Dias (1967), na qual Israel atacou o Egito de surpresa, os israelenses construíram fortificações no canal de Suez. 

O Canal de Suez, entre os mares Mediterrâneo e Vermelho, localizado no Egito, é uma das rotas marítimas de comércio mais importantes do mundo. Localizado na Península do Sinai, região de ligação entre o Norte da África e o Oriente Médio, o Canal já tinha sido objeto de uma guerra, a Guerra de Suez, em 1956, entre França, Reino Unido e Israel de um lado, e o Egito de outro. O fato é que a atitude provocadora de Israel em 1973, relativamente ao Canal de Suez, levou ao Egito e a Síria – que tinham perdido partes importantes do território para Israel, na Guerra dos Seis Dias, em 1976 – a entraram em guerra com Israel. O início da guerra foi justamente em 06 de outubro de 1973, data do início do feriado judeu do Yom Kippur (“dia do perdão”). 

O apoio de alguns países imperialistas, especialmente os EUA, a Israel nesse conflito, foi a gota d’água para os países árabes organizarem um boicote de petróleo. Em outubro de 1973 a OPEP elevou o preço do petróleo em 70%, que foi para US$ 5,11 o barril. Nos dias seguintes, a Arábia Saudita e os demais países árabes, uniram-se ao boicote, obrigando os países compradores a estabelecer políticas duras de economia de derivados de petróleo, aprofundando a recessão econômica mundial. Com a disparada do preço do petróleo, o governo de Washington tratou de negociar um acordo com a Arábia Saudita, disponibilizando poder militar aos xeiques do petróleo, que temiam revoluções internas, que os alijassem do poder. Em troca, os árabes exigiram dólares para as transações com petróleo e o financiamento da dívida pública norte-americana. 

A crise do imperialismo mundial 

A decisão da Arábia Saudita deve ser compreendida em um contexto de grave crise do imperialismo mundial. Os sintomas estão por toda parte: derrota humilhante dos EUA no Afeganistão em 2021; atual operação russa na Ucrânia; golpes militares na África; massacre dos palestinos na Faixa de Gaza; recente ataque iraniano a Israel. Tudo isso são manifestações claras da crise do sistema capitalista mundial e principalmente de sua liderança. Há uma evidente crise do imperialismo, com uma escalada da guerra ao nível internacional, que tende a piorar nos próximos anos. OS EUA, verdadeira máquina de guerra, acuado, tende a ser tornar ainda mais agressivo. A guerra na Ucrânia é uma amostra disso: o conflito está comprometendo o futuro desse país da Europa Oriental, inclusive do ponto de vista demográfico. Mas não se vê sinais de recuo do governo atual dos EUA, porque assumir a derrota nesta guerra agravaria ainda mais a sua crise política.   

O orçamento militar dos EUA para este ano é de US$ 886 bilhões (quase R$ 5 trilhões [o valor do PIB no Brasil, em 2023, foi de R$ 10,9 trilhões]). A Rússia, que está ganhando a guerra dos na Ucrânia com relativa facilidade, tem um orçamento de defesa de US$ 112 bilhões, que é 12,64% do orçamento dos EUA. Isso, apesar da Rússia ter aumentado o orçamento para este ano em 68%,  em relação ao ano passado, em decorrência da guerra. O orçamento dos EUA  para a defesa é superior ao acumulado dos dez orçamentos seguintes no ranking dos maiores orçamentos de defesa dos países. 

O déficit público americano mostra uma outra face tenebrosa da crise. O déficit orçamentário do país ficou em US$ 2,02 trilhões no ano fiscal de 2023 (terminado em setembro). A dívida pública dos Estados Unidos está em US$ 34,62 trilhões, conforme os dados divulgados em abril último. Há um ano, a dívida estava em US$ 31,46 trilhões, ou seja, é um crescimento exponencial. A dívida, que corresponde a 124,7% do PIB norte-americano, segue um ritmo de crescimento que, segundo alguns cálculos, é de US$ 14 bilhões por dia. Se tais estimativas estiverem corretas a dívida pública do governo norte-americano aumenta em 4 dias o equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) do Uruguai (US$ 59,32 bilhões). Este dado revela, além de outros aspectos, a imensa desigualdade de riqueza entre os países. Ademais, quase US$ 2 bilhões são gastos diariamente apenas em juros da dívida nacional. 

Mesmo para o país mais rico da Terra, é muito difícil pagar uma dívida que equivale a quase 124,7% do seu PIB. O que os EUA fazem, de forma paliativa, é rolar permanentemente a dívida, isto é renegociar os títulos da dívida, renovando sempre com taxas de juros mais “atraentes”, ou seja, superiores. Com taxas mais elevadas, paga-se mais juros e o estoque da dívida aumenta. Este é o ciclo vicioso da dívida pública, que atormenta tantos países (com destaque para o Brasil, que é o país que mais paga juros em proporção ao seu PIB). 

O país que sustenta a máquina de guerra mais cara do planeta (não necessariamente a mais eficiente), compromete mais de 30% de sua receita tributária federal com o pagamento de juros. O que permite financiar a dívida é a demanda por dólares existente no mundo. Como vimos, essa demanda tende a diminuir porque os países estão procurando reduzir sua dependência do dólar. Está claro que os países não irão financiar infinitamente a dívida norte-americana. O que falta para os EUA resolver um problema tão fundamental? É relativamente simples de entender: quem manda no país ganha muito dinheiro com essa imensa roda gigante especulativa. São eles: os bancos, grandes empresas, os ricos em geral. Ou seja, 0,5% da população, em prejuízo de 99,5% dos norte-americanos. 

A pobreza nos Estados Unidos, segundo um indicador chamado Medida de Pobreza Suplementar, subiu e passou a atingir 12,4% da população, conforme mostram números divulgados recentemente.  Essa mesma economia, dominada pelo capital financeiro, precisa importar trabalhadores da América Latina para operar na economia real (fábricas, serviços em geral, limpeza, construção civil). 

Para o governo dos EUA conseguirem rolar a dívida, a demanda global por dólares e por títulos de dívida dos EUA deve se expandir permanentemente. Resultado que é conseguido, seja pela força do argumento, seja pelo argumento da força. Esse castelo de cartas se mantém porque os EUA têm o poder da senhoriagem, ou seja, pode imprimir, sem custo, uma moeda com aceitação e curso internacional. Nenhum outro país no mundo tem essa possibilidade. 

Sem dúvida, o maior golpe econômico desferido contra os interesses norte-americanos na história, está na área financeira, com a intenção e o início da substituição do dólar por moedas locais nos países do BRICS, nas atividades financeiras internacionais. Isso irá atingir em cheio o poderio do império americano e mundial, em boa parte assentado na hegemonia do dólar, que fornece aos EUA um privilégio incomparável.  O processo de substituição tende a ser lento, gradativo, porque o sistema monetário internacional é bastante complexo. Ademais, a transição não pode dar errado, sob pena de colocar o próprio projeto dos BRICS, em xeque. 

A hegemonia do dólar já tem quase 80 anos, vem desde os Acordos de Bretton Woods, feitos em 1944. Em boa parte, a dominação imperialista se dá sobre essa hegemonia da moeda. Quando os líderes do BRICS falam em substituir o dólar pelas moedas nacionais, ou por uma futura moeda do bloco, isso significa quase uma ameaça de morte para o imperialismo, porque boa parte do poderio norte-americano está assentado sobre o privilégio de sua moeda nacional ser a moeda de curso mundial nas transações econômicas.  A decisão da Arábia Saudita em relação à não renovação do acordo de Petrodólares, está dentro deste quadro mais geral de crise política, social e financeira do imperialismo em geral, e do império norte-americano, em particular. 

A Arábia Saudita e outros importantes produtores de petróleo, percebendo as mudanças na ordem internacional, estão diversificando o seu comércio, reduzindo o peso do dólar norte-americano nas transações. Esse movimento, dentro de um quadro mais geral, de influência dos EUA no mundo, reduz a importância do dólar na economia global. Com a decisão, a Arábia Saudita poderá aceitar outras moedas importantes como pagamento das suas exportações de petróleo. A previsão dos especialistas é que todos os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) sigam o exemplo da Arábia Saudita, com consequências só previsíveis em parte, para a influência do dólar do mundo. Nesse quadro geral, o endividamento público dos EUA pesa muito, pela influência da economia dos EUA no mundo. Especialmente agora, sem a garantia dos petrodólares. Vale acompanhar com muita atenção as próximas ações que se desenvolverão nesse tabuleiro.

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