Caso Daniel Alves

Conlutas/PSTU quer mais pretos e pobres na cadeia

Sob a cobertura da "defesa da mulher", PSTU/Conlutas comemora aumento da repressão e pede punição exemplar

Diante da condenação do jogador de futebol brasileiro, Daniel Alves, na Espanha, o sítio da CSP-Conlutas, organização comandada pelo PSTU, comemorou: Finalmente: Daniel Alves é condenado por estupro na Espanha.

Segundo a matéria, “A condenação é uma importante reação à cultura do estupro e impunidade que marcam os casos de violência sexual contra as mulheres, principalmente quando estão envolvidos homens ricos e poderosos. Casos que, inclusive, envolvem vários jogadores de futebol. Entre brasileiros, temos os casos de Robinho, Neymar e o técnico Cuca, por exemplo.”

Como é possível que uma organização que diz defender os trabalhadores possa comemorar a prisão de alguém – pior ainda, pela Justiça de um país imperialista – como grande exemplo da luta contra a violência contra as mulheres?

Por trás de uma pseudo preocupação com as mulheres, o PSTU usa o mesmo método da direita: a punição e a repressão como exemplo.

Para disfarçar seu método bolsonarista, o PSTU inventa uma história: Daniel Alves é um “homem rico e poderoso”. Inegavelmente, os jogadores de futebol que atingem alto nível nos clubes são muito ricos, mas isso não os transforma necessariamente em grandes capitalistas e menos ainda em poderosos. Se Daniel Alves fosse de fato poderoso, não estaria preso e condenado como qualquer trabalhador.

Em outros tempos, a esquerda – ou ao menos uma parte dela – sabia muito bem diferenciar um poderoso de uma pessoa que veio da pobreza e que ficou rica por alguma habilidade específica. Por exemplo, quando Mike Tyson foi preso, acusado de agredir sua mulher, muitos movimentos saíram em sua defesa por entender que aquilo era, no fundo, uma perseguição. Na verdade, por mais dinheiro e fama que tivesse, Mike Tyson não era poderoso a ponto de se livrar de uma acusação, seja ela verdadeira ou falsa. É um problema democrático.

A mesma lógica deveria ser usada como Daniel Alves, Robinho, Cuca, Neymar ou qualquer outro.

A esquerda nunca deveria comemorar a vitória da repressão. Logicamente que os histéricos de plantão, falsos defensores dos oprimidos, irão usar a cartada da defesa da mulher. Ótimo! O problema é que, para defender a mulher, não é preciso defender o fortalecimento do aparato repressivo do Estado, ou, para ser mais preciso, defender o fortalecimento desse aparato é o oposto de lutar a favor dos oprimidos, incluindo as mulheres.

Mesmo se um condenado fosse de fato um poderoso, também não seria correto adotar a posição que adota o artigo da CSP-Conlutas. Se um é condenado, o que dizer dos vários poderosos que fazem todo o tipo de barbaridade contra as mulheres?

O aumento da repressão não só não vai resolver o problema da violência contra a mulher, como vai servir apenas para colocar mais preto e pobre na cadeia.

“Robinho é, talvez, um dos casos que melhor representa esse cenário de impunidade e disseminação da cultura do estupro. Foragido no Brasil, ele foi condenado pela justiça italiana e desfruta da falta de acordo entre os governos italiano e brasileiro, que impede que sua extradição seja executada para que cumpra a pena.”

O artigo aqui quer mais do que o aumento da repressão. Quer acabar com o direito importantíssimo que é o de um brasileiro não ser condenado pela justiça de outro país. A pretexto de que Robinho é um perigoso estuprador, a CSP-Conlutas quer abrir um precedente muito mais perigoso que Robinho: que o governo brasileiro não pode extraditar um cidadão para que ele seja julgado e condenado pelas leis de outro país.

No artigo, ainda há uma declaração da secretária Executiva Nacional da CSP-Conlutas, Marcela Azevedo, que afirma “Que esse seja o exemplo a seguirmos no Brasil, para construirmos nossas lutas diretas, nas ruas, com independência de todos os governos e da burguesia, para combater a violência machista, a impunidade que ainda impera na maioria dos casos e arrancar conquistas importantes para o conjunto das mulheres trabalhadoras e jovens”.

A frase resume bem o método bolsonarista adotado no artigo. Que “a punição sirva de exemplo”, “nada de impunidade”. Traduzindo: “por leis mais severas!”, “punir com rigor para dar o exemplo!”, “cadeia neles!”.

Pode-se resumir tudo da seguinte maneira: colocar mais pretos e pobres na cadeia, já! Os bolsonaristas defendem essa política com a cobertura de que estão defendendo a família; a CSP-Conlutas usa a cobertura de defesa da mulher, mas o resultado é o mesmo.

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