Fábio Picchi

Militante do Partido da Causa Operária (PCO). Membro do Blog Internacionalismo e do Coletivo de Tecnologia do Partido da Causa Operária. Programador.

Imposto monopolista

Unity declara guerra aos desenvolvedores de jogos

Nova forma de cobrar estúdios é mais um exemplo do risco de se depender de monopólios para trabalhar

Na semana passada, curiosamente tratamos de uma empresa que procurou aumentar o preço de seus serviços para atender os desejos de seus investidores. Falamos da movimentação da Uber com certo atraso, de um mês, mas eis que nesta semana, outra empresa, que atua num setor completamente diverso, busca a mesma estratégia, dessa vez com resultados desastrosos. Sabemos que ganhar dinheiro como motorista de Uber é um esforço hercúleo, mas, finalmente, a empresa de tecnologia repassou parte do aumento de suas tarifas para seus operários-empreendedores, medida que, apesar de não compensar a inflação especialmente acentuada no caso dos combustíveis, coloca panos quentes na situação.

A empresa em foco nesta semana, a desenvolvedora da plataforma de desenvolvimento de jogos Unity, preferiu o confronto direto com seus “parceiros”. Em postagem no próprio blogue da empresa, anunciaram sem grande alarde, como um raio em céu azul, que desenvolvedores valendo-se da versão gratuita da ferramenta teriam que pagar uma taxa por cada instalação de seus jogos, num valor de US$ 0,20 para desenvolvedores nos EUA e na União Europeia, e de US$ 0,02 para mercados “emergentes”. Há restrições: o jogo precisa ter rendido mais de US$ 200 mil à desenvolvedora e ter sido instalado mais de 200 mil vezes. O número sobe um pouco para quem assina o Unity Pro ou Unity Enterprise, para 1 milhão, tanto na receita como no número de instalações.

Fui imediatamente envolvido na revolta que tomou conta da comunidade de desenvolvedores de jogos nas redes sociais. A Unity é a ferramenta de desenvolvimento de jogos mais popular do mercado pela falta de barreiras para sua adoção, tanto por ser inicialmente gratuita como pela facilidade no aprendizado e uso. Finalmente, eu mesmo desenvolvo um jogo em Unity nas horas vagas com um grupo de amigos.

O requerimento de uma receita mínima de US$ 200 mil me trouxe certo alívio após desespero inicial. Soltaria rojões se chegássemos a esse valor. Olhando com mais atenção, até cheguei a pensar que a taxa monopolista da Unity não fosse tão ruim, finalmente não afetaria desenvolvedores na escala microscópica que atuo. Afetaria empresas que possuem jogos grandes, frequentemente atualizados, os live services, que colecionam enormes receitas e um grande número de instalações ao longo dos anos de operação típicos de tais projetos. Afetaria também jogos que podem ser baixados gratuitamente e que se valem de métodos – geralmente inescrupulosos – para extrair dinheiro de seus usuários.

Mas a medida da Unity não afeta apenas os tubarões do mercado de games. Praticamente todos os estúdios conhecidos de jogos independentes, como os desenvolvedores de Hollow KnightUnsighted  e tantos outros jogos muito criativos desenvolvidos com a Unity, pelos motivos que já citamos, viram ser ameaçado seu sucesso conquistado após anos de trabalho sem retorno – algo que pode ser considerado “sorte” no competitivo mercado de jogos. Esses estúdios, diferentemente do grupo de desenvolvimento que participo, desenvolvem jogos profissionalmente, empregam um certo número de pessoas de forma que US$ 200 mil não é necessariamente muito dinheiro.

Entra aqui outro problema. Como as instalações serão computadas? A Unity garante que o método, até agora velado, será justo. E se um usuário malicioso tentar instalar artificialmente o jogo múltiplas vezes para falir uma empresa que o desagradou? A empresa garante que esse tipo de caso não será contabilizado. No caso de serviços por assinatura como o Game Pass, a Microsoft será debitada; já no caso de jogos vendidos em pacotes com receita para caridade, à exemplo do Humble Bundle, estarão isentos da taxa.

O fato é que só saberemos como a cobrança se dará a partir do primeiro dia de 2024, quando a medida entrar em vigor. O pouco tempo oferecido às empresas para se organizarem, e até mesmo migrarem para outra ferramenta de desenvolvimento, provavelmente é proposital por parte da Unity. Mais grave que isso, o fato de que podem mudar seus termos de serviço arbitrariamente, e fazer valer a medida retroativamente faz com que o uso da ferramenta seja um risco para qualquer desenvolvedor. Aberto esse precedente, o que impede a Unity de cobrar até mesmo de pessoas como este colunista, que trabalha num projeto em suas horas vagas?

É um exemplo claro do poder dos monopólios. Para aqueles que decidirem migrar para a Unreal, da Epic Games, espero que calculem o risco, afinal de contas, o que impede essa empresa de fazer o mesmo que a Unity quando tiver uma posição dominante no mercado? Empresas como a Adobe e seu pacote de ferramentas de design gráfico digital podem igualmente decidir aumentar o preço de seus serviços de assinatura – que entrou em vigor sob repúdio de seus milhões de usuários, à exemplo do caso da Unity. Espero que essa situação impulsione o uso de alternativas de software livre, que diversas vezes defendemos nesta coluna, como o sistema operacional Linux, o software de modelagem 3D Blender entre outras ferramentas abertas de grande qualidade. Está mais do que na hora de largar a Unity e migrar para a Godot.

Para encerrar, há um fenômeno de fundo que explica a “ganância” tanto do Uber como da Unity. E que se conecta com as demissões em massa que denunciamos por aqui. Esse tema, porém, fica para a próxima semana.

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